Vaca Amarela, Jesus, Maria e a hipocrisia

Cartaz do Vaca Amarela 2016

Cartaz do Vaca Amarela 2016

Raíssa Martins

Estou tentando entender por que a Igreja Católica e seus fiéis acham que detém o direito de imagem dos seres humanos que escolheram para adorar. Entendo que a imagem de figuras públicas e históricas, como de artistas, políticos, mártires, heróis, vilões e, por que não, de santos, está sujeita às mais diversas interpretações e reproduções, que dependem da subjetividade de cada um que se aventura a representá-las.

Ao invés de cuspirmos regra e tentarmos impor nosso jeito de pensar a quem pensa diferente da gente, proibindo a manifestação artística e intelectual de cidadãos que vivem em um país (teoricamente) regido pela laicidade e pela liberdade de expressão, deveríamos tirar um tempo para refletir e debater sobre a construção das imagens dos santos pela Igreja Católica, por exemplo, e sobre alguns de seus preceitos.

Deveríamos refletir sobre o fato de Deus ter um gênero definido, e desse gênero ser o masculino. Deveríamos tentar entender o fato de Jesus Cristo ter sido (e ainda ser) retratado como um cara de pele branca, traços finos, cabelo loiro e olhos claros, mesmo tendo nascido no Oriente Médio. Deveríamos questionar como uma garota virgem gerou e pariu um filho e como esse filho um dia conseguiu caminhar por sobre as ondas de um mar revolto e transformar água em cachaça.

O que deveria afrontar a nossa fé e nos ofender não é a imagem de Nossa Senhora fantasiada de Malévola, de Galinha Pintadinha ou de Vaca Amarela, e sim os casos de pedofilia encobertos pela Igreja, a obrigatoriedade do celibato, as Cruzadas, a Inquisição, todo ouro e bens do Vaticano que estão lá porque um dia foram roubados, a catequização forçada dos indígenas, a influência da religião na política e, principalmente, as regras retrógradas que todo mundo só finge que segue (ou tá todo mundo esperando casar para transar?).

Fui criada dentro da religião católica, frequentando missa, participando de novena e entrando na fila da hóstia, mas hoje minha fé, que permanece forte, é sincrética e sem regras. Nunca li a Bíblia, sou fã do Bhagavad Gita e tenho uma Aparecida tatuada no braço. Ignoro as imposições, incorporo pensamentos e filosofias de outros credos que fazem mais sentido, agradeço pela vida e tento, sempre que possível, fazer o bem.

No mais, sou louca pra ter uma escultura da Santa Blasfêmia na minha casinha, assim como uma Marilyn Monroe de Andy Warhol e um Neymar de Romero Britto.

Raíssa Martins é jornalista

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Weslei Julio

Você claramente é uma feminista. A liberdade de expressão não dá o direito de ofender a Mãe de Jesus Cristo. A liberdade de expressão não lhes dá o direito de pintar uma imagem sacra de amarela com manchas pretas e colocar orelhas de vaca. A liberdade de expressão não dá o direito de brincar com a fé dos outros só porque VOCÊ PENSA DIFERENTE. Você me parece mais uma pobre alienada que acha que a Igreja é um perigo. Não nos importamos com a sua opinião até ela chegar a nós em forma de ataque. Vergonha este jornal dar espaço… Leia mais

Weslei Julio

“Bens do Vaticano”? “Roubados”? “Regras retrógradas que todo mundo só finge que segue”? – ignorância tem limites.
Não brinque com a fé dos outros, não meta o seu dedo a onde não foi chamada, pelo que você diz nem católica você é – não pratica!
E não generalize, JORNALISTA PROFISSIONAL.
A Igreja tem suas regras, normas – tradicionais e atuais, mas principalmente necessárias – e elas são para os fiéis. Se você não pratica nem é a favor, não faça.

lucimar jesus

Realmente é possivel ‘certas’ pessoas não ter compreendido a razão e o sentimento de indignção dos católicos e dos que respeitam o DIREITO. Visto que vivem tão fechados no eu, no grupinho doS NÓS, tão excluído, tão marginalizados, tão esteriotipados, que não percebem que fazem o mesmo com tais atitudes. Calunia a Igreja afirmando que ela impós regras, que forçou a catequização, que roubou, etc. e o que esta jornalista está fazendo com a ditadura de suas ideias sem citar fontes? Sem ouvir o outro lado? Jornalista? Cadê os entrevistados? Cadê os lados interressados? O direito de um cidadão, cara… Leia mais