Um ano depois, o que dizem comerciantes sobre a reorganização da Feira Hippie e região da 44 em Goiânia
16 maio 2026 às 21h00

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As ações da Prefeitura de Goiânia contra ambulantes sem cadastro na Região da 44 e da Feira Hippie, iniciada em março de 2025, mudou a paisagem de um dos maiores polos de comércio popular do país, segundo o Executivo.
Um ano depois, a gestão do prefeito Sandro Mabel (UB) sustenta que a reorganização trouxe mais ordem urbana, aumento nas vendas e crescimento do fluxo de consumidores. Feirantes e lojistas afirmam que, apesar dos avanços, ainda há problemas estruturais.
Já quem representa os ambulantes relatam dificuldades econômicas e críticas sobre o processo de transição. A reorganização provocou protestos, tensão política e resistência de trabalhadores informais no ano passado.
À época, vereadores questionaram a retirada dos ambulantes das ruas da região da Praça do Trabalhador e acusaram a prefeitura de promover uma “operação de repressão” contra camelôs. A gestão municipal, por outro lado, argumentou que a ocupação irregular comprometia mobilidade, segurança e o funcionamento da Feira Hippie.
Segundo dados da prefeitura e de entidades do setor, cerca de 700 ambulantes atuavam de forma informal na Região da 44 antes do início da operação. A estratégia adotada pela gestão municipal foi oferecer alternativas de regularização: migração para a Feira Hippie e Feira da Madrugada ou ocupação de salas comerciais em galerias da região com auxílio de aluguel social.
De acordo com números divulgados pela administração municipal, aproximadamente metade dos ambulantes identificados já atuava dentro de galerias ainda em 2025. Entre os cerca de 100 trabalhadores que permaneciam nas ruas, 50 aceitaram migrar para bancas regularizadas na Feira Hippie.
Agora, um ano depois, o Jornal Opção ouviu a Associação da Feira Hippie, feirantes, Associação Empresarial da Região da 44 (AER44), representante dos ambulantes e também a Prefeitura de Goiânia para entender a atual situação local.
Feira Hippie
Segundo o presidente da Associação da Feira Hippie, Valdivino da Silva, a reorganização trouxe mudanças perceptíveis para quem trabalha e frequenta o local. “Hoje você entra num corredor e sai no final dele. Antigamente não entrava”, afirmou.
De acordo com ele, a concorrência considerada desleal por parte de ambulantes sem autorização diminuiu após as ações de fiscalização promovidas pela prefeitura. “Os conflitos diminuíram bem. Não tem mais isso”, disse.
Valdivino relata que parte dos vendedores que atuavam nas ruas passou a buscar espaço dentro da própria feira. “Toda semana três, quatro pessoas procuram a feira para começar a fazer a feira. Até pessoas que, com certeza, vendiam na rua”, afirmou.
Ele avalia que a reorganização também provocou mudanças na dinâmica dos feirantes. “O próprio feirante começou a ir mais cedo, a ter que fabricar, a ter que fazer algo diferente para atrair o cliente”, declarou.
Atualmente, segundo a associação, a Feira Hippie possui cerca de 3,7 mil bancas, considerando feirantes regularizados e trabalhadores com protocolo de regularização em andamento.
Entre os principais projetos discutidos pela associação e pelo poder público está a padronização das bancas e a implantação de uma cobertura para a feira. Segundo Valdivino, a prefeitura solicitou que a associação apresente um protótipo para análise.
“O secretário Neto [Segenp] está nesse interesse, pediu para a associação fazer esse protótipo com os montadores de bancas para a gente apresentar para a prefeitura”, afirmou. A associação também trabalha em um projeto de cobertura para minimizar os impactos do calor e da chuva.
Conforme o presidente, três modelos estão sendo avaliados pelos feirantes em consulta interna organizada pela entidade. “O que ainda atrapalha o feirante é a chuva e o sol. Tem pessoas adoecendo debaixo daquela lona azul”, afirmou.
“Quando o sol passa das 11h, acabou. As pessoas fogem da feira por causa do calor.” Segundo ele, o movimento comercial cai significativamente nos horários mais quentes do dia. “O pessoal trabalha em horário que não tem sol, fugindo do sol”, disse.
Apesar da redução dos pontos fixos de comércio irregular nas ruas próximas à feira, Valdivino afirma que ainda existem vendedores ambulantes circulando na região com carrinhos móveis. “Não pode ficar é na frente parado fazendo ponto, como se fosse um ponto de venda”, explicou.
Ele disse que a fiscalização municipal continua atuando no local e que vendedores sem autorização fixa já não conseguem permanecer instalados nas calçadas como ocorria anteriormente.
O presidente da associação também citou dificuldades relacionadas à emissão de documentos para feirantes que aguardam regularização junto à prefeitura. Segundo ele, existem trabalhadores com protocolos antigos ainda sem conclusão do processo.
“Tem protocolo de 2010, 2011, 2012”, afirmou. “O feirante quer regularizar seu documento e às vezes demora.” Mesmo assim, Valdivino afirma que a atual gestão municipal mantém diálogo frequente com a associação.
“A prefeitura chega, fala com a associação, a associação chama o feirante, junto com a prefeitura a gente resolve”, declarou. Entre os problemas ainda sem solução, a associação aponta a falta de numeração de corredores e bancas dentro da feira, o que dificulta a localização dos comerciantes pelos visitantes.
“O cliente não acha, infelizmente. O visitante reclama disso”, disse. Valdivino também defende a criação de mais atrações culturais dentro da Feira Hippie como forma de atrair consumidores e incentivar comerciantes informais a migrarem para o espaço regularizado. “A gente pede para a prefeitura pôr mais atrativo na feira”, afirmou.

Comerciantes da 44
Um ano após a operação de reorganização da Região da 44, em Goiânia, a Associação Empresarial da Região da 44 (AER44) avalia que a retirada dos ambulantes irregulares das ruas trouxe impactos positivos para o comércio local.
Em entrevista ao Jornal Opção, o presidente da entidade, Sérgio Naves, afirmou que a região ficou “mais organizada, mais segura e mais limpa” após a ação da prefeitura. “Essas ações que a prefeitura promoveu realmente foram, para a nossa região, um divisor de águas”, declarou.
Segundo levantamento da AER44, realizado em outubro de 2024, havia 694 ambulantes permanentes atuando irregularmente na região, além de cerca de 350 vendedores na Feira da Madrugada. Desse total, a associação afirma que aproximadamente 300 eram lojistas, outros 300 eram feirantes e apenas 94 seriam “ambulantes de fato”.
De acordo com Sérgio Naves, os ambulantes movimentavam cerca de R$ 13 milhões por mês em vendas. “Hoje esse montante distribuiu para as feiras e para os lojistas”, afirmou. O presidente da entidade também disse que os ambulantes irregulares deixaram de atuar nas ruas da região.
“Não diminuíram. Simplesmente não tem mais ambulante irregular na região”, afirmou. A associação sustenta que a retirada dos vendedores ocorreu após negociações com o poder público e representantes dos trabalhadores.
“Foram quase três meses de negociações. Não foi feito nada abruptamente”, disse Naves. Segundo ele, parte dos vendedores foi absorvida por feiras, galerias e shoppings da região. Apesar disso, o programa de subsídio oferecido para incentivar a ocupação de lojas não teve adesão.
“Inicialmente nós oferecemos 50 lojas com subsídios e não teve adesão nenhuma”, afirmou. Segundo a AER44, entre 20 e 25 ambulantes passaram a atuar em feiras regularizadas, enquanto outros migraram para galerias ou já eram comerciantes estabelecidos.
“Isso mostra que realmente não eram ambulantes de verdade. Eram lojistas e feirantes ocupando o logradouro público de forma irregular”, declarou o presidente da associação.
Questionado sobre os impactos econômicos da reorganização, Naves afirmou que o faturamento geral da região não cresceu em 2025, mas atribuiu o cenário a fatores externos, como juros altos, endividamento das famílias, apostas esportivas online e concorrência de marketplaces internacionais.
Entre as preocupações do setor, Sérgio Naves citou o crescimento das apostas esportivas online, conhecidas como “bets”. Conforme pesquisa interna da associação, realizada entre os dias 11 e 13 de dezembro de 2025 com mais de 200 entrevistados, cerca de 39% dos consumidores da região disseram ter algum envolvimento com plataformas de apostas.
A AER44 afirma que a Região da 44 movimenta aproximadamente R$ 15 bilhões por ano e gera cerca de 200 mil empregos diretos e indiretos. “As bets estão tirando do mercado brasileiro R$ 149 bilhões por ano. Isso tira o poder de compra das famílias, principalmente das classes C, D e E”, afirmou.
Segundo ele, havia cerca de 22 lojas fornecedoras que abasteciam os ambulantes com mercadorias para revenda nas ruas. “Tinha lojista que tinha cinco lojas e passou a ter apenas uma, porque realmente estava usando os ambulantes para fomentar o próprio negócio”, disse.
Outro ponto criticado pelo presidente da AER44 foi a flexibilização da taxação sobre compras internacionais de até US$ 50. Para ele, a medida prejudica a indústria nacional e o setor de confecções.
“Se uma confecção fecha, nós estamos falando de 50 empregos diretos. Então, para mim, é um erro estratégico muito grande do governo federal revogar uma coisa dessa e não dar condição para trabalhar”, disse.

A associação também defende novas obras de revitalização urbana na Região da 44. Segundo Naves, um projeto está em análise na Secretaria de Estado da Infraestrutura (Seinfra) e prevê a requalificação das ruas da região, com integração entre vias e calçadas. “A ideia é fazer uma revitalização muito bonita, muito orgânica, puxando a questão da arte e das cores”, afirmou.
Entidades empresariais e comerciantes relatam impactos positivos após a retirada dos ambulantes das vias públicas. Dados divulgados pela AER44 apontaram aumento de 30% no fluxo de pessoas e crescimento de até 40% nas vendas logo na primeira semana após a reorganização.
A expectativa do setor para o fim de 2025 também refletiu otimismo. A associação estimou circulação de 1,6 milhão de visitantes no período de Natal e movimentação financeira próxima de R$ 3,5 bilhões no polo confeccionista da capital.
Hoje, a Região da 44 reúne cerca de 13 mil lojistas e aproximadamente 3,7 mil feirantes ligados à Feira Hippie e à Feira da Madrugada, consolidando-se como um dos maiores centros de moda popular do Brasil.
A prefeitura também passou a alterar a condução das operações de fiscalização após críticas relacionadas à apreensão de mercadorias e ao tratamento dado aos trabalhadores informais.
Em março de 2026, Mabel anunciou novo protocolo para abordagens fiscais, determinando prazo mínimo de 60 dias de diálogo e oferta de alternativas socioeconômicas antes de ações coercitivas. Segundo dados municipais, foram registradas 504 apreensões em 2025 e outras 149 até março de 2026.


Ambulantes
Representante dos trabalhadores ambulantes da Região da 44 afirma que a reorganização agravou a crise no comércio popular, reduziu o fluxo de clientes e provocou desemprego entre camelôs, costureiros e comerciantes.
Em entrevista ao Jornal Opção, o representante da categoria, Rogério Butignon, criticou a condução da gestão municipal e afirmou que muitos trabalhadores deixaram a atividade após as ações de fiscalização.
“Os ambulantes foram afetados. Muitos não deram conta de ficar no mercado e desistiram, foram trabalhar em outra coisa. Porque não teve como”, declarou.
Segundo Butignon, a transferência de parte dos vendedores para galerias e espaços fechados não trouxe o retorno financeiro esperado. “O movimento nas galerias não compensa a mudança. Pelo contrário, caiu e muito”, afirmou.

De acordo com ele, a proposta apresentada pelos camelôs à prefeitura previa a regularização da chamada “feirinha” em horários específicos, com pagamento de taxas ao município.
“Todos nós queríamos regularizar. A proposta era essa: regularizar a feirinha, ter horários, cumprir metas. Ia ser uma renda ótima para a prefeitura e todo mundo ia trabalhar certinho”, argumentou.
Butignon afirma que os impactos econômicos atingiram não apenas os ambulantes, mas também lojistas e fornecedores da região. “Os ambulantes eram os maiores compradores de Campinas. Teve fabricante de tecido que fechou loja, costureiro ficou sem serviço, cortador ficou desempregado”, relatou.
Na avaliação dele, a retirada dos camelôs das ruas não resolveu os problemas de organização urbana e ainda reduziu o fluxo de consumidores na 44. “Eles acharam que tirando os camelôs iam melhorar o comércio das galerias, mas foi o contrário. A feirinha à noite era um atrativo para trazer clientes”, disse.

Segundo o ambulante, parte dos compradores migrou para centros comerciais de outros estados. “A maioria dos clientes parou de vir e foi tudo para Fortaleza e São Paulo.” O representante afirma que a maioria dos vendedores não conseguiu se adaptar aos espaços fechados.
“Muitos não foram para galeria, porque não adianta. Não vende. Você vai pagar aluguel de dois, três mil reais e não resolve o problema”, declarou. Segundo ele, muitos passaram a atuar em galpões improvisados, estacionamentos ou migraram para as vendas online.
O representante ainda afirma que muitos trabalhadores se endividaram após a queda nas vendas. “A maioria dos ambulantes endividou, pegando dinheiro emprestado com banco e agiota”, relatou.
Na avaliação de Butignon, o enfraquecimento do comércio já é percebido dentro das galerias. “As galerias estão mais vazias. Você pode andar lá que não estou mentindo”, afirmou.
Ele defende que a prefeitura autorize novamente a ocupação das ruas em horários específicos da madrugada e início da manhã, mediante regulamentação. “Se liberar a rua das duas e meia da manhã até seis e meia, regularizando para pagar taxa, os ônibus vão voltar e todo mundo vai ganhar dinheiro”, argumentou.

Prefeitura de Goiânia
Um ano após as ações de reorganização, a Prefeitura de Goiânia afirma que houve melhora na segurança, aumento nas vendas e redução da ocupação irregular das ruas por ambulantes.
Em entrevista ao Jornal Opção, o titular da Secretaria Municipal de Eficiência (Sefic), Fernando Peternella, classificou o balanço da operação como “excelente”, embora reconheça os efeitos da crise econômica no comércio popular.
Segundo o secretário, dados repassados pela AER44 apontam crescimento médio de 40% nas vendas e queda da vacância das lojas de 20% para 14% desde a retirada dos ambulantes das vias públicas. “Os números são muito bons. E a sensação de segurança também melhorou. As famílias se sentem mais seguras hoje”, afirmou.
Peternella relaciona a presença do comércio irregular à atuação do tráfico de drogas em áreas do Centro e da 44. De acordo com ele, operações de inteligência identificaram pontos de venda de entorpecentes camuflados entre bancas de camelôs.
“O tráfico se camuflava de ambulante. A pessoa ia na banca, vinha alguém com mochila, pegava a trouxinha da droga e entregava como se fosse uma compra comum”, declarou.
O secretário afirmou ainda que comerciantes da região relatavam sofrer intimidação e extorsão por parte de integrantes ligados ao tráfico. “Os lojistas vivem nos agradecendo pela retirada. É difícil você andar ali com a família no meio daquele tumulto”, disse.
A prefeitura contabilizou 96 ambulantes notificados na Região da 44 durante as ações iniciais. Segundo Peternella, parte deles migrou para a Feira Hippie ou para a Feira da Madrugada, enquanto a maioria teria se organizado em um espaço privado conhecido como “Galeria das Araras”, instalado em uma área antes usada como estacionamento.

“A grande maioria montou a própria estrutura. Eles alugaram o espaço e hoje trabalham lá como uma feira privada”, afirmou. Questionado sobre o programa de subsídio para ocupação de lojas em galerias da 44, criticado por representantes dos ambulantes por supostamente não ter sido implementado, Peternella garantiu que o benefício existe, mas teve baixa adesão.
“Praticamente ninguém quis ir para as galerias. A maioria preferiu ir para as feiras ou para essa estrutura que eles mesmos montaram”, disse. Apesar de afirmar que o comércio irregular foi “praticamente eliminado”, o secretário reconheceu que apreensões ainda ocorrem diariamente.
“Quase todo dia tem apreensão. Tem pessoas que insistem. Mas, pelo número hoje, praticamente acabou”, declarou. A fiscalização, segundo ele, ocorre de forma permanente, com equipes atuando das 4h até meia-noite na Região da 44, Avenida Anhanguera e Rua 24 de Outubro.
Peternella criticou administrações anteriores por realizarem ações esporádicas. “Antes eles faziam operação e depois sumiam. Esse pessoal perdeu o medo e não respeitava mais as normas”, afirmou.
O secretário relatou o caso de uma ambulante que teve a mercadoria apreendida após reincidir na ocupação irregular das ruas. “Ela insistiu uma, duas, três vezes e acabou ficando sem mercadoria. Fizemos até uma vaquinha para ajudá-la a recomeçar. Hoje ela trabalha legalmente na feira”, contou.

Além das ações de fiscalização, a prefeitura projeta intervenções urbanísticas para transformar a Região da 44 em um grande polo de circulação de pedestres. Entre as propostas está a conversão de ruas próximas às galerias em calçadões com quiosques de alimentação, arborização e espaço reduzido para veículos.
“Vai ficar só uma pista para passagem de caminhão e carro. O restante será um calçadão para privilegiar o pedestre”, afirmou Peternella. Segundo ele, há expectativa de investimentos impulsionados por emenda parlamentar de R$ 10 milhões destinada à região.

O secretário também afirmou que a administração pretende intensificar a reorganização da Feira Hippie, sobretudo em relação à ocupação das vias públicas. Ele criticou a obstrução de calçadas por bancas e carretas de feirantes. “Tinha cadeirante tendo que andar na rua porque a feira ocupava toda a calçada. Isso é falta de respeito com quem vem comprar”, declarou.
De acordo com Peternella, a prefeitura negocia com a administração da feira melhorias visuais e estruturais, incluindo retirada de carretas antigas, reforço na limpeza urbana e instalação de mais lixeiras. “Nós vamos deixar a Feira Hippie um brinco”, afirmou.


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