Sussurro de canarinho

Foi pelo futebol que quis ser médico. Foi por volta dos 14 anos, também. Numa pelada, contra meu primo, só que o mano a mano que tive foi com a bola

Tocantins_1885.qxd

 

Yago Rodrigues Alvin

“O conhecimento da alma humana passa por um campo de futebol”, escreveu Albert Camus. Era a epígrafe de “Passe de Letra”, livro de Flávio Carneiro. Lá, Albert não era apenas filósofo ou escritor. No parêntese, cabia bem escrever que ele era goleiro. Acrescentava àquela reunião de crônicas, que nasceram para a coluna “Rascunho”, um jornal de Curitiba. Lá, Carneiro foi futebol e literatura e você?

Chutou a bola e, por culpa do meio-fio, o gol foi seu nariz? Ou, correndo para chutar por entre as chinelas e comemorar, surgiu absolutamente do nada um guri sem camisa e a única solução foi “driblá-lo” ou, mais exatamente, confundir a canela com a bola e ganhar, ao contrário do ponto, uma bronca da mãe, a sua e a do guri? Calma. Com toda a certeza que existe, você se reconhecerá, afinal, você foi pela primeiríssima vez ao estádio assistir a seu time jogar contra o mais terrível-inimigo (de Estado, até) e mortal, só não se recorda o nome por… não é questão de tempo, pois eu tinha 14 anos, opa, não faz tanto tempo assim…

Tenho uma história melhor: foi pelo futebol que quis ser médico. Foi por volta dos 14 anos, também. Numa pelada, contra meu primo, só que o mano a mano que tive foi com a bola. E quem ganhou, definitivamente, foi meu joelho: raspagem. Além de uma injeção perto do meio-campo, por causa da inflamação, é claro. Lá, conheci um doutor. De tão velhinho e tranquilo consigo e comigo, me fez perder um ano com aquela baboseira de salvar vidas. Não passei no vestibular para medicina. E é claro que o futebol fez isso para você também.

O jeito, como escreveu Afonso Félix de Sousa, foi bordar o mundo que encontrei com palavras – ou, ao menos, tentar. O autor também foi literatura obrigatória para entrar na faculdade, donde toda uma criticidade começa a te povoar. Não precisa de leituras acadêmicas para ter outros olhos com a Copa do Mundo, aqui no Brasil. As pessoas gritam aí, a bel prazer, sobre suas mazelas, nos ônibus aos ônibus que apedrejam, como em Fortaleza, gramado para segundo jogo do Brasil. Atrapalhando o tráfego.

É difícil achar um lugar. Que­rendo ou não, há quilômetros donde a seleção canarinho empatou com os contemporâneos de astecas, fiquei preso nas ruas da minha cidade, pois o jogo logo começaria. Têm coisas bonitas, não dá para negar. Era abrir a janela e ver pessoas em verde e amarelo, como quase não se vê. Nunca no ponto: ou verdes em demasiado ou podres de tão maduros. Vão se contradizendo, os brasileiros.

Talvez, o erro seja querer ser o todo. Ou não aproveitar do todo, qualquer bom que seja. O livro de Carneiro foi leitura fácil, tanto por linguagem, quanto por sonhos de homens em chuteiras ou descalços, jogando peladas em domingos. Quase morto, estirado no sofá, por maldição do tempo que me resfria, vi o segundo jogo. Não entendo quase nada. Sei de goleiro, zagueiro, que provavelmente sem recorrer ao dicionário, me anuvia ideias de defesa. Não vou confirmar. Dá para entender: um time se defende e corre para marcar um gol. O outro também, em direção contrária. Já comemorei gol do time adversário, pois não sabia que invertiam o campo no segundo tempo. Aprendi.

Talvez, invertendo um pouco as coisas, surtem algumas lições. A sensação de cantar o Hino Nacional junto, de não sei quantas pessoas, ao mesmo tempo, de unir um país-continente, talvez seja o brado que alcance outros rios. Há lutas diárias em filas de posto de saúde, para chegar ao trabalho e até mesmo para sair da cama. E, para saber quem se é, abrace as táticas. No gramado, há dia que se nasce, noutro já se morre. Há jogos sujos. Entradas bruscas, cartões amarelos, expulsões. Há banco de reserva, equipe de apoio. Árbitro, alguns o aclamam, certas vezes e, em outras, parece que são [email protected]#!***xss!

Ainda canto sobre o “centroavante, o mais importante”, sem ter a mínima ideia de quem seja ou o que faça. Talvez, seja mais um canarinho ou contemporâneo asteca, inglês ou escrito de autoria desconhecida. Perguntei: é o que define seu placar. E, por mais que a vida pareça mais emocionante nos acréscimos do segundo tempo, as decisões nem sempre são em pênaltis. Vale o risco esperar?

 

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.