Sócia de advogado baleado em Goiânia defende OAB, fala em “fatalidade” e reconhece: “É um risco da área criminal”

Amanda Alves elogia apoio recebido pela Ordem, mas episódio evidencia a necessidade de maior atenção à área criminal   

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Advogada Amanda Alves acredita que OAB deve “olhar mais” por criminalistas | Foto: reprodução / Facebook

Dias após o crime que quase resultou na morte do advogado Uberth Domingos Cordeiro, de 30 anos, em seu próprio escritório de advocacia no Setor Oeste, em Goiânia, o local ainda permanece fechado.

Assustados, funcionários realizam apenas os serviços essenciais e aguardam o desenrolar das investigações. “Estamos muito estarrecidos. O clima está ruim, mas, felizmente, Uberth está bem”, revela a sócia Amanda Alves, em entrevista ao Jornal Opção Online.

No hospital, o advogado, que levou três tiros no braço na última segunda-feira (19/1), aguarda a cirurgia que deve ser realizada na próxima semana. “Ele está lúcido, conversando normalmente. Só o braço que ainda está muito inchado”, conta a sócia.

O criminalista aguarda a polícia colher seu depoimento para dar prosseguimento ao caso, sob o comando do delegado Odair Soares. Há suspeitas e vídeo com a ação dos bandidos, que se passaram por clientes para chegar a Uberth. “Sabemos que foi um assassinato encomendado. Precisamos descobrir o mandante”, completa Amanda.

A advogada classifica o ocorrido como uma “fatalidade” e reconhece que todo advogado, em especial da área criminal, está sujeito a esse tipo de violência. “É tudo mais difícil em criminal. O cuidado é redobrado e é preciso especialização. Não é para qualquer um”, garante.

Amanda elogia a atuação da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Goiás (OAB-GO), da qual faz parte como integrante da Comissão de Direitos Humanos e da de Segurança Pública e Direito Criminal. “A OAB está de parabéns no caso Uberth. Eficiente, ágil e solícita”, elogia. No entanto, ela faz ressalvas: “Há males que vêm para bem. Nada justifica este crime absurdo, mas a Ordem precisa ‘olhar mais’ pelos criminalistas”.

Para a advogada, há um grande número de colegas que se aventuram na área, sem se especializar. “Temos péssimos profissionais, que acham que a área criminal é para qualquer um. Não é. É preciso ter ‘nas veias’.”

Com efeito, a sócia arremata: “Não adianta criticar a OAB se os próprios integrantea são omissos. Nós, advogados, precisamos nos engajar mais”.

Críticas

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Advogado Lúcio Flávio Siqueira de Paiva lamenta crime e acredita que episódio convida à uma reflexão sobre a perda de prestígio da advocacia | Foto: reprodução / Facebook

Professor da PUC-Goiás e mestre em Direito, o advogado Lúcio Flávio Siqueira de Paiva usou as redes sociais para levantar questionamentos sobre o prestígio e a credibilidade da advocacia em Goiás, após o crime contra o advogado Uberth Domingos Cordeiro.

“Não podemos deixar de notar — e refletir — que o lamentável evento é a culminância de um longo processo de precarização do exercício da advocacia em Goiás. Uma corrosão paulatina do prestígio da profissão, que conduziu-nos a este insuportável estado de coisas. Não bastasse o desrespeito diário às nossas prerrogativas e a crônica ineficiência do Judiciário — a tornar quase inviável nossa sobrevivência –, agora o exercício da profissão encerra risco à nossa integridade física”, versou ele em um post no Facebook.

Em entrevista ao Jornal Opção Online, Lúcio Flávio explica que não imputa, de forma alguma, a culpa à OAB-GO, mas que o trágico evento conduz a advocacia à uma reflexão. “Se você conversar com qualquer advogado, vai escutar que, constantemente, ele é desrespeitado em fóruns, delegacias e outros órgãos. Isso é resultado desse estado de inércia da atual gestão da Ordem”, explica.

Para ele, a ausência de voz da OAB contra a ineficiência e a demora do Poder Judiciário, a indevida ligação com movimentos políticos — “notadamente com o Poder Executivo” –, a falta de uma pauta de enfrentamento adequada aos problemas atuais, conduziram a esse “estado das coisas”.

“O evento é traumático o suficiente para que a advocacia reflita sobre os seus passos futuros”, completa.

Candidatura

Possível candidato da oposição às eleições da OAB-GO de novembro, Lúcio Flávio tece duras críticas à atual administração da Ordem e garante que há um amplo grupo oposicionista. “Estou convencido de que esse ciclo da situação, que já dura 30 anos, se encerrará neste ano. A advocacia quer mudança”, sustenta.

Para explicar os motivos que levariam à essa vitória da oposição, ele conta: “Quando que um governante perde o poder? Quando ele promete alguma coisa e não cumpre essa promessa. A situação, o Tibúrcio [Henrique Tibúrcio, ex-presidente], Macalé [Sebastião Macalé, atual presidente e candidato à reeleição], a diretoria atual fez uma última campanha prometendo uma OAB Forte e Respeitada. O que vemos hoje é uma OAB fraca e extremamente desrespeitada. A advocacia vai dar a resposta no momento oportuno, que é em novembro”.

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