Servidores evidenciam fraude na compra de cavaletes na SMT

Três agentes que ocuparam cargos de chefia disseram que senha foi usada sem autorização 

CEI da SMT na manhã desta segunda-feira (17/4) | Foto: reprodução/ vídeo

A Comissão Especial de Inquérito (CEI) que apura irregularidades na Secretaria Municipal de Trânsito, Transportes e Mobilidade (SMT) ouviu, nesta segunda-feira (17/4), mais três agentes que ocuparam cargos de direção ou gerência de fiscalização para esclarecer sobre o paradeiro de mais de 7 mil cavaletes pagos pelo órgão em apenas um ano.

O próprio sistema da SMT informa que André Luiz Gonçalves, Wander Alves de Aguiar e Alfredo Luiz de Souza Júnior seriam os responsáveis pela retirada de 5,8 mil cavaletes entre 2015 e 2016, mas todos afirmaram que não fizeram o procedimento e que as matrículas e as senhas foram utilizadas indevidamente.

“Isso é crime e representa mais um forte indício de que esses cavaletes nunca existiram e a retirada foi fraudada”, alertou o presidente da CEI, vereador Elias Vaz (PSB).

Segundo o sistema da Secretaria, André Luiz Gonçalves teria retirado 2,7 mil cavaletes no dia 2 de março de 2015. Wander Alves de Aguiar teria feito três retiradas: de 25 cavaletes em junho de 2015; de 2,4 mil em fevereiro de 2016 e de mais 250 em maio de 2016. Já Alfredo Luiz de Souza Júnior seria o responsável por retirar outros 500 cavaletes em novembro de 2016.

Além de garantirem que não fizeram o procedimento, os servidores afirmaram não saber do paradeiro dos cavaletes. “Quando assumi a Diretoria de Fiscalização, em agosto de 2016, havia no máximo 50 na secretaria”, disse, em depoimento, Alfredo Júnior.

Os três também informaram nunca ter visto os quatro mil cavaletes que foram atestados pela ex-diretora administrativa Maria Bernadete dos Santos depois de ter saído da SMT. Ela própria afirmou à CEI que não tem certeza de que todo o material foi entregue.

Incongruências

De acordo com informações da própria SMT, atestadas pela CEI, teriam sido entregues, de maio a outubro de 2015, mais de 6,6 mil cavaletes para a administração municipal.

No entanto, os três servidores foram unânimes ao dizer que não há sequer estrutura física para receber tal quantidade e tampouco há demanda para tanto material de uma vez só vez.

“Nunca chegou esse tanto de cavalete na SMT”, garantiu Wander Alves de Aguiar, gerente de fiscalização de maio de 2015 a junho de 2016.

“Por ano, o gasto médio seria de mil cavaletes. 2 mil só se for um ano extraordinário. Esse número é um verdadeiro absurdo”, explicou Alfredo Júnior, diretor de fiscalização de agosto a dezembro de 2016.

Nem quando a tocha olímpica passou por Goiânia, evento que exigiu atuação da SMT num percurso de 20 quilômetros, foram usados tantos cavaletes. A retirada na época foi de 250 unidades. “As evidências de fraude vão se confirmando”, completou Elias Vaz.

Números de cavaletes da SMT causam estranheza | Foto: reprodução/ SMT

Ninguém viu

Outro depoimento colhido pela CEI hoje foi de Alexandre da Silva Kruk, gerente administrativo da SMT de junho de 2015 a agosto de 2016 e hoje coordenador do setor de compras e licitações da Câmara Municipal de Goiânia.

Bastante nervoso, Kruk informou que atestou 3.150 cavaletes, apesar de não ter conferido o recebimento de todos eles. A primeira nota fiscal aponta para a entrega de 500 unidades no dia 23 de setembro de 2015. No dia 21 de outubro do mesmo ano, é registrada nova entrega. Desta vez, de 2.150 cavaletes.

“O próprio chefe do almoxarifado, que já prestou depoimento à Comissão, explicou que a capacidade máxima da Secretaria é de 700 cavaletes, incluindo os dois pontos de apoio. Sequer caberia tantos cavaletes. E por que a SMT iria precisar de tantos cavaletes de uma vez só, em menos de um mês”, pergunta o presidente da CEI.

O relator da comissão, delegado Eduardo Prado (PV), questiona por que o ex-gerente solicitou cavaletes sem nenhum pedido da Diretoria de Fiscalização e não averiguou depois a chegada do material. “Ele não viu os cavaletes, não sabe a quantidade, a qualidade e sequer onde foram entregues”, criticou.

Relação com Andrey Azeredo 

Interrogado pelo vereador Jorge Kajuru (PRP) sobre as ligações políticas com o ex-secretário da SMT e atual presidente da Câmara, Andrey Azeredo (PMDB), o ex-gerente Alexandre da Silva Kruk não teve como negar o apoio dado na campanha de 2016, pois há fotos nas redes sociais que comprovam a ligação. O mesmo ocorreu com o agente André Luiz, fotografado com a família e o então candidato.

Já Wander Alves, que foi gerente na SMT no período em que Andrey Azeredo era secretário, negou que o tenha apoiado. Mesmo assim, foi escolhido como gerente, no que ele classifica como uma atitude “bastante compreensiva e profissional”.

Novos depoimentos

Além do contrato firmado em 2015, a SMT já mantinha negócios com a JBA Comercial Ltda, inclusive para fornecimento de cavaletes e cones. Um dos donos da empresa será ouvido pela Comissão na próxima segunda-feira (24/4). Também estão previstos depoimentos de outros servidores da SMT.

Os vereadores aprovaram nesta segunda-feira requerimentos solicitando à SMT cópias de outros contratos que serão investigados pela CEI. “Tem coisa muito pior lá”, garantiu o um dos depoentes de hoje, Alfredo Luiz de Souza Júnior. Ele citou o exemplo do contrato com a Trana, encerrado no ano passado, para fornecimento e manutenção de fotossensores.

“Perdemos 300 imagens de infrações de trânsito que já tinham sido validadas pelos agentes. As multas foram canceladas”, disse aos vereadores. O contrato também está na mira da CEI da SMT. “Vamos investigar todas as irregularidades. Já venho denunciando há anos os problemas com a Trana”, arrematou Elias Vaz.

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