No Senado, Aécio critica campanha do PT, medidas do governo, e avisa: “oposição será intransigente”

No primeiro discurso no plenário, candidato derrotado à presidência lamentou campanha “de mentiras” do PT, mas garantiu que o Brasil está mais exigente 

Foto: Reprodução Twitter

(Foto: Reprodução/ Twitter Aécio Neves)

Candidato derrotado do PSDB à Presidência da República, o senador Aécio Neves subiu à tribuna do Senado para realizar seu primeiro discurso após o resultado do segundo turno das eleições. Mantendo o posicionamento firme contra o governo do PT que deu o tom de sua campanha, o mineiro agradeceu aos 51 milhões de brasileiros que lhe confiaram a “esperança para mudar o Brasil”, destacando, em especial, o apoio da também candidata derrotada Marina Silva (PSB) e da família do falecido Eduardo Campos, na pessoa da esposa, Renata, e dos filhos. Ao falar sobre o papel da oposição, deixou um aviso: “vamos estar mais firmes do que nunca. O Brasil perdeu o medo”.

A quarta-feira (5/11) viu um Congresso mais movimentado do que o normal. Aécio Neves acusou a presidente reeleita, Dilma Rousseff (PT), de, baseada na mentira e no discursos do medo, usar da máquina pública para “fazer o diabo” e vencer as eleições. “Travamos uma disputa desigual e a verdade é que o vale-tudo eleitoral promovido por eles provou que o PT faz uso de uma violência que só tem paralelos em regimes nada democráticos”, lamentou.

O senador seguiu relembrando casos polêmicos, como o suposto uso dos Correios para entrega de correspondências sem chancela de Dilma em Minas Gerais; os carros de som nas regiões mais pobres do País que bradavam que o “13” era o número para manter o Bolsa Família; bem como as ligações, no Rio Grande do Sul, aos beneficiários de outros programas sociais ameaçando que, caso votassem em Aécio, aqueles seriam extintos. “Há um crônico aparelhamento de órgãos públicos. O PT realiza uma anti-política, que assumiu a face do medo e fez os brasileiros reféns”, enfatizou o tucano.

Aécio assegurou que de todas as armas usadas pelos opositores, a mentira foi a principal delas. “Mentiram sobre o passado para mascarar o presente. Sempre nos aplicaram o papel de vilões, de pessimistas… Mas não demorou muito para a máscara começar a cair”, disse. Imputaram-lhe a pecha de candidato do atraso, das altas dos juros, mas, a prova da falsidade do PT veio apenas três dias após a eleição de Dilma. “Apenas três dias se passaram e o Banco Central elevou as taxas de juros – as mais altas já vistas. Para a presidente, na época da campanha, elevar os juros era tirar comida dos mais pobres, se era verdade, foi exatamente o que ela fez”, lembrou.

Brasil real

Elencando ações anunciadas nos últimos dias, o tucano criticou a presidente que “escondeu” a real situação do País. “Eles sabiam tudo que iria ser feito, esperaram apenas passarem as eleições. Esconderam os rombos das contas públicas: em setembro, tivemos o pior resultado da história em um único mês. Agora, já antecipam que os ajustes serão duríssimos. Haverá aumento na gasolina, na energia elétrica e, o mais assustador, preveem apagões para o verão”, rechaçou. E a situação não para por aí: “para complicar, o déficit comercial só cresce, o rombo nas contas externas só aumenta, temos a menor taxa de investimento. Dilma negou que iria reajustar tarifas públicas, mas é isso que vai fazer. A presidente está fazendo tudo aquilo que jurou que não faria”.

Tópico recorrente no período eleitoral, a “divisão do País” foi lembrada por Aécio: “eles tentaram separar o Brasil. Ricos contra pobres. Nordeste contra Sudeste. Abdicaram de nosso maior patrimônio, a diversidade do Brasil”. No entanto, em determinado momento, o tucano saudou a todos os brasileiros de todas as regiões do Brasil, mas dedicou agradecimento especial ao Nordeste: “aqueles que marcharam ao nosso lado com um único sonho em comum: a mudança”.

O PT, na opinião do tucano, comemora até hoje a vitória. “Para eles, só importava vencer. E fizeram o impossível para tanto. Abusaram da máquina pública e, pior, quem falou a verdade foi tachado de pessimista, de ser contra o Brasil. Promoveram um verdadeiro festival de destruir carreiras: primeiro Eduardo Campos, depois Marina [Silva] e por último, eu”, destacou. “Esconder, camuflar e promover inverdades virou rotina desse governo. Só não conseguiram esconder os escândalos, que estouram a cada dia que passa”, debochou.

Agradecimento

Durante todo o discurso, Aécio Neves tentou exaltar os mais de 51 milhões de votos que recebeu no segundo turno, aos quais se referiu como “milhões de brasileiros que querem um governo eficiente, transparente e mais justo”. Ele diminuiu a derrota, garantindo que “um novo Brasil” surgiu das urnas. “Um Brasil que não tem medo do PT, que é crítico, tem voz e convicções. Um Brasil que descobriu que pode ser protagonista de sua própria história”, comemorou. Ainda segundo ele, os brasileiros perderam o constrangimento de mostrar aquilo que não concordam, aquilo que não está certo e, acima de tudo, “que não vão permanecer em silêncio”.

O tucano falou de um País que se uniu em um único sonho: a mudança. No entanto, enfatizou: “expresso meu respeito aqueles que democraticamenrte fizeram outra opção”. Agradeceu nomes no Senado de partidos da base de Dilma, que o apoiaram tanto no primeiro, quanto no segundo turno, como o governador eleito de Mato Grosso, senador Pedro Taques (PDT) e a senadora Ana Amélia (PP-RS). “Exalto a volta dos jovens às ruas, que se uniram a nós para dizer um basta a tudo isso que aí está”, acrescentou.

Futuro

(Foto: reprodução/Twitter Aécio Neves)

(Foto: reprodução/Twitter Aécio Neves)

Ponto alto do discurso – e o mais esperado – foi o posicionamento que a oposição adotará daqui para frente. Aécio avisou: “qualquer diálogo com o Governo estará condicionado a projetos que sejam de interesse da sociedade e não da atual gestão. Mas, acima de tudo, o diálogo estará condicionado ao aprofundamento das investigações de escândalos como o Petrolão”. Segundo ele, só haverá negociação se “penas duras e exemplares a todos os envolvidos foram aplicadas”.

Ainda que por uma pequena margem, o tucano reconheceu que o desejo da maioria foi que eles se mantivessem na oposição. “Aceitamos o resultado democraticamente e aqui estamos, com ânimo redobrado, vamos representar e faremos uma oposição intransigente, inquebrantável e como se nunca viu antes”, bradou. “Vamos cobrar, denunciar, combater sem tréguas a corrupção que se instaurou no atual governo. Mesmo sendo minoria, vamos lutar para que o País cresça. Nossa prioridade deve ser a mesma da campanha: diminuir as desigualdades tão gritantes País afora”, complementou.

O ex-presidenciável deu tom de superação ao discurso e enfatizou: “é hora de olharmos para frente, de cuidarmos do presente para darmos esperança ao futuro”. Para tanto, ele elencou três compromissos centrais da oposição nos próximos anos: “lutar pela liberdade de impresa, pela transparência em todo o governo e, principalmente, pela democracia, por meio da garantia integral da autonomia dos poderes”.

“Vamos estar mais firmes do que nunca. Cumpriremos nossos deveres, pois, ao contrário do que tentam nos implicar, lutamos pela democracia”, destacou. O senador falou ainda sobre um documento oficial divulgado dias após a eleição de Dilma, que criticou o PSDB e Aécio. “Ofenderam não só a nós, mas aos mais de 51 milhões de brasileiros que depositaram em nosso projeto a esperança de um Brasil menos desigual e mais eficiente”, lamentou.

Ao final, repetiu que o desejo é contribuir para que o País avance. “Que sejam feitas reformas políticas, tributárias, que há tanto tempo nosso povo espera. Nosso compromisso é transformar o Bolsa Famíia em programa de Estado e livrar o País desse uso eleitoreiro de um projeto de proteção social que virou moeda de troca de um partido político”, pediu Aécio. Ele garantiu, ainda, que vai cobrar investimentos e todos os compromissos do Governo Dilma assumidos durante a campanha.

“Encerro agradecendo a todos os companheiros com quem tive a honra de cumprir essa jornada de amor ao Brasil, exaltando, em especial, o grande estadista Fernando Henrique Cardoso (PSDB)”, afirmou sendo ovacionado pelos colegas. “A oposição será porta-voz do sentimento de mudança, sem um líder específico. Aviso ao governo: ao olharem para as oposições, não contabilizem cadeiras, enxerguem a voz estridente de mais de 51 milhões de brasileiros que não aceitam mais o Brasil que está capturado em um projeto de governo”. “Nós não vamos nos dispersar”, arrematou.

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