Sem pressa, Ronaldinho deixa para irmão planejamento dos jogos de despedida

Depois de uma carreira de muitas glórias no futebol, craque vê em Neymar um jogador que pode fazer duas vezes mais o que ele conseguiu: “qualidade para conquistar tudo”

Eleito melhor jogador do mundo duas vezes, Ronaldinho Gaúcho aproveita fim da carreira para se dedicar à música | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

O ex-jogador Ronaldinho Gaúcho, que encerrou sua carreira no futebol há pouco mais de um mês, não respondeu a pouquíssimas das perguntas em uma entrevista com outras duas pessoas. Naquela que tratava sobre as partidas comemorativas de despedida do esporte, foi o irmão e empresário de Ronaldinho, o também ex-atleta Roberto de Assis Moreira, o Assis, de 47 anos, falou pelo R10, talvez até mais conhecido pelo apelido de “rei do ‘dibre'”.

“Referente às despedidas, na verdade a gente está formatando o projeto neste mês. Acho que no Brasil teremos dois jogos”, descreveu Assis durante entrevista concedida na tarde de sexta-feira (23/2) no auditório do Hotel Holiday Inn, em Goiânia. Ronaldinho, que cumpre agenda de divulgação do aplicativo Easier 123, de transporte de passageiros, neste final de semana na capital goiana, parece não estar muito preocupado em fechar logo os contratos das partidas comemorativas em recordação da mais do que vitoriosa carreira, que começou no Grêmio em 1998 e teve seu último contrato profissional encerrado no ano de 2015, quando estava no Fluminense.

Assis já adiantou que o primeiro clube interessado em realizar uma partida de despedida com o irmão é o Barcelona. “A gente ainda não definiu as cidades. […] Provavelmente será tudo feito após a Mundial.

Os jornalistas e alguns poucos funcionários do hotel que estavam no auditório durante a entrevista queriam mesmo era ouvir Ronaldinho, o porto-alegrense Ronaldo de Assis Moreira, de 37 anos, o atleta que por duas vezes foi eleito o melhor jogador do mundo pela FIFA (2004 e 2005), campeão da Copa do Mundo de 2002 com a seleção brasileira, da Champions League com o Barcelona na temporada 2005-2006, da Copa Libertadores da América com o Atlético Mineiro em 2013, campeão espanhol por duas vezes (2004-2005 e 2005-2006), italiano (2010-2011) e da Recopa Sul-Americana (2014).

Considerado um dos ícones do futebol alegre, inclusive pelo apelido de “rei do ‘dibre'”, Ronaldinho foi convocado a comentar temas recentes, alguns inclusive polêmicos, do futebol brasileiro. As comemorações provocativas aos torcedores adversários que envolveram os jogadores Vinícius Júnior (Flamengo) e Vinícius (Bahia) em clássicos estaduais foram usadas para pedir a opinião daquele que, nos últimos anos como profissional, não deixou de provocar a torcida do Cruzeiro ao simular jogar uma granada após gol pelo Atlético Mineiro em 2013.

“Eu acho que a comemoração de gol é um momento livre. É lógico que tem que ter um respeito sempre, mas acho que a alegria do futebol é essa de ter essa sacanagenzinha sem faltar com o respeito”, defendeu. Para Ronaldinho, o bom é ver “o cara fazer o gol e ir lá brincar com todo mundo” e não haveria nada de errado nisso.

Sobre assuntos polêmicos no futebol, outra pergunta chamava Ronaldinho Gaúcho a comentar a opinião do comentarista e ex-jogador Walter Casagrande, da Rede Globo, ao dizer que Neymar, de 26 anos, está ficando mimado e “estamos criando um monstro”. O craque preferiu não entrar na discussão. “Cada um fala o que pensa, o que acha. Eu respeito a opinião de todos. E a minha opinião é que o Neymar é o nosso maior ídolo, um cara que eu admiro muito, um grande amigo. E eu respeito a opinião de todos.”

Político? Logo eu?

Depois de o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, ter publicado que Ronaldinho pode ser candidato a senador pelo PEN, ainda quando o deputado federal e pré-candidato a presidente da República Jair Bolsonaro (PSC-RJ) negociava com o partido, o duas vezes melhor do mundo logo cortou o assunto. “Não não. Não não. Não quero. Obrigado, mas não.” A resposta curta arrancou algumas risadas no auditório.

Neymar e a Copa do Mundo na Rússia foram dois assuntos que iam e voltavam durante a entrevista de Ronaldinho. O craque mal respondia um questionamento sobre o jogador do Paris Saint-Germain e da seleção brasileira quando era perguntado novamente sobre as chances do Brasil no Mundial. Terminava de responder e era convidado a comparar o argentino Lionel Messi, o português Cristiano Ronaldo e o brasileiro.

“Todos os dois (Messi e Neymar) têm tudo para fazer uma grande Copa do Mundo. Estão entre os melhores do mundo. Duas seleções que têm uma história muito forte, que vão chegar com esses jogadores para ajudar. Os dois têm tudo para fazer uma grande Copa do Mundo.” E em seguida falava sobre Neymar, Cristiano Ronaldo e Messi: “Acho que os três são os três melhores do mundo. Os três têm uma técnica fora do normal. Acho que cada um tem um estilo de jogo. Eu nunca gostei de comparações. Eu acho que os três estão entre os três melhores do mundo”.

Tite

Ronaldinho disse acreditar que a seleção brasileira chegará muito bem na Copa do Mundo. O ex-jogador vê a evolução do futebol do Brasil “vindo no momento certo”. “(Tite) É um grande treinador, um cara que é vencedor. E o futebol tem dessas coisas de tempo para da entrosamento, para dar segurança.”

O embaixador do Barcelona, clube no qual viveu seu melhor momento na carreira, preferiu evitar comparações entre a geração pentacampeã mundial em 2002 na África do Sul e a seleção brasileira da forma como está hoje. “Tive essa felicidade de participar com esses caras que eram meus ídolos e depois vieram a ser meus companheiros (Rivaldo, Ronaldo e companhia)”, agradeceu. E definiu que para ele “cada geração vem com um estilo de jogo”, o que impede avaliar se há de fato uma que seja melhor.

E falou como quem agora está do lado de cá e acompanha pela TV e nas arquibancadas: “Acho que esta seleção que vai para a Copa do Mundo esse ano também é uma seleção que tem muita qualidade e que tem muita chance de conquistar mais uma Copa pra gente”.

Perguntado sobre a final ideal, Ronaldinho não pensou duas vezes: “Brasil contra qualquer um que vier”. Ao confessar que até ali não havia pensado sobre qual adversário queria ver a seleção enfrentar na disputa pelo título na Copa, o entrevistado acabou por concordar com a sugestão da repórter. “Nem imaginei uma final de Copa do Mundo. Acho que seria lindo ter essa possibilidade daquela coisa de revanche (Brasil e Alemanha de novo). Acho que seria lindo.”

Neymar X Ronaldinho Gaúcho

O “rei do ‘dibre'” fez o caminho inverso de Neymar na Europa. Primeiro Ronaldinho Gaúcho foi para o PSG, depois desembarcou no Barcelona para se consagrar definitivamente no futebol mundial como um dos grandes craques que deixaram sua marca no esporte. Já Neymar deixou o Barcelona, onde era coadjuvante do maestro Messi, para buscar o protagonismo no Paris Saint-Germain em uma época de bonança financeira e companheiros acima da média.

“Acho que ele tem tudo para conquistar tudo que eu conquistei umas duas vezes pela tamanha qualidade que tem e pelos anos de carreira que ele ainda tem. Ele tem tudo para conseguir tudo isso.” Sobre a diferença dos períodos em que jogaram nos dois clubes, Ronaldinho vê um PSG melhor hoje. “Na minha época, o Paris Saint-Germain não tinha toda essa força que tem hoje. Já era um dos maiores clubes da Europa, mas não era com toda essa força. E o Barcelona sim já era um clube muito conhecido”, analisou.

E completou: “É só diferença mesmo de tempo e de campeonatos. O Espanhol era um campeonato muito mais técnico do que o futebol francês, que era muita força. Hoje em dia tu já olha o Paris Saint-Germain jogando já é uma equipe muito técnica. É a diferença só de momento”.

https://www.youtube.com/watch?v=5W9mTqFIts8

Longe dos campos

Ronaldinho defendeu que a demora para anunciar o fim da carreira entre o último clube, o Fluminense, em 2005 e a aposentadoria dos gramados no meio de janeiro não aconteceu por qualquer dificuldade em abandonar a vida de jogador. “Foi uma decisão fácil. Tinha bem claro na minha cabeça que era isso mesmo. Eu encerrei minha carreira realizado, feliz com tudo que vivi, com tudo que o futebol me deu.”

Segundo R10, ele só demorou “um pouco para anunciar” a aposentadoria porque “havia muitos convites, muita gente ainda falando”, além de outros compromissos que tomaram mais tempo do que o jogador imaginava. Em determinado momento da entrevista, um jornalista não se conteve e disse a Ronaldinho que ele foi o melhor atleta que tinha visto jogar. “Muito obrigado”, agradeceu o “rei do ‘dibre'”, que fez a felicidade do repórter ao aceitar tirar fotos com o profissional que cobria a passagem do porto-alegrense por Goiânia.

Vivendo um momento mais descontraído de sua vida, sem as cobranças dos treinamentos, trabalhos físicos e compromissos de campeonatos, Ronaldinho passou a se dedicar mais a uma de suas grandes paixões: a música. Ao ser perguntado se era verdade que desde os tempos de Barcelona sempre dava um jeito de tocar nos bares, o craque respondeu que “sempre”.

“A música faz parte da minha vida, sempre me acompanhou. E agora veio a chance desse projeto da minha banda com o meu baile também (Baile do R10).” Ronaldinho toca percussão e canta algumas músicas nas apresentações, como a que fará neste sábado (24) na boate Villa Mix, em Goiânia. “Agora chegou a hora que eu estava esperando. A hora da alegria, que é a música, que é viver isso intensamente. Então eu estou muito feliz com essa nova caminhada”, festejou.

Título que não conquistou

Campeão da Champions League, da Copa do Mundo, da Libertadores, da Recopa Sul-Americana, duas vezes melhor jogador do mundo. Mesmo com todos esses títulos que muito jogador nunca conseguirá ter, por duas vezes Ronaldinho Gaúcho viu a chance de conquistar o Mundial Interclubes escapar. A primeira foi com o Barcelona na final de 2006, quando o clube espanhol perdeu na prorrogação com um gol de Adriano Gabiru para o brasileiro Internacional.

A segunda chance veio com o Atlético Mineiro em 2013. E foi embora de uma forma bastante vergonhosa. Com Cuca já sabendo que não seria mais treinador do Galo – Paulo Autuori já havia sido contratado, mas não anunciado pelo clube -, o time chegou em ritmo de fim de temporada no Mundial Interclubes. A estreia veio com eliminação na semifinal para o marroquino Raja Casablanca por 3 a 1.

“O Atlético foi uma época maravilhosa. Lembranças maravilhosas. E infelizmente não conquistamos esse título que a gente tanto queria”, lamentou Ronaldinho. Ele lembrou das duas chances que teve de buscar essa conquista em sua carreira. “Infelizmente esse título eu não tive a alegria de conquistar. Não aconteceu porque não era para acontecer. Fizemos exatamente o que treinamos, o que combinamos, mas as coisas não saíram bem.”

Relação com gremistas

Para Ronaldinho, a relação com a torcida do Grêmio, clube no qual se tornou profissional em 1998, sempre foi boa. “Normal como sempre foi. Estou tranquilo.” Parte dos gremistas nunca entenderam quando, em 2011, o jogador resolveu voltar a jogar no Brasil, chegou a negociar com o tricolor gaúcho, mas nunca pisou profissionalmente outra vez em Porto Alegre como atleta do time. “Toda vez que volto lá sou tratado com muito carinho, com muito respeito”, repetiu.

Para R10, criticas de gremistas são compreensíveis quando ele enfrentava o Grêmio como atleta de outra equipe brasileira. “Sempre aquela coisa do futebol dentro de campo com alguém que trocou de clube. Isso acontece com todos os jogadores quando trocam de clube e voltam para jogar com seu ex-clube. É assim. Normal com todo mundo”, avaliou.

Ronaldinho também falou sobre a amizade que tem com Alex Dias, ex-jogador sul-mato-grossense que mora em Goiânia, e o alagoano Aloísio Chulapa, que jogaram com ele no Paris Saint-Germain. Os dois atletas têm história no futebol goiano e, segundo o gaúcho, sempre passavam informações sobre o futebol goiano, que ele diz torcer para que se fortaleça cada vez mais.

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