Mensagens com ataques a nordestinos, declarações de ódio contra eleitores de esquerda e iniciativas para organizar listas de comerciantes por posicionamento político passaram a circular nas redes sociais e em grupos de mensagens após o resultado das eleições presidenciais. Em Orizona, no sudeste de Goiás, a Polícia Civil já recebeu uma denúncia envolvendo conteúdo xenofóbico e investiga a possível prática de racismo, segundo o delegado Kennet Andersson.

De acordo com o delegado, a ocorrência relacionada a mensagens contra pessoas nordestinas foi comunicada formalmente à polícia. “Nós recebemos uma denúncia a respeito de nordestinos que residiam em Orizona. Já estamos investigando a prática do crime de racismo”, afirmou ao Jornal Opção. Ele também pede que outras informações e registros sejam encaminhados à corporação para que eventuais novas investigações sejam instauradas.

Capturas de tela obtidas pelo Jornal Opção mostram publicações com ataques à nordestinos e mensagens que incentivam a identificação de comerciantes de esquerda para restringir o consumo em seus estabelecimentos. Em uma das mensagens, uma pessoa escreve: “Para os nordestinos aqui em Orizona. Pega suas tralhas e volta pra lá! Não adianta querer vida melhor aqui, vai viver lá no Nordeste que é seu lugar!”.

Em outra publicação, uma usuária pede que lhe enviem nomes de comerciantes da cidade que seriam de esquerda. “Acho justo que eles tenham apenas clientes da ESQUERDA”, afirma a mensagem. A autora diz que não divulgará a relação publicamente, mas que pretende compartilhar a lista por mensagens privadas.

As capturas mostram outras pessoas demonstrando interesse em receber a lista. Entre as respostas, há mensagens que defendem o boicote aos estabelecimentos e manifestações de apoio à iniciativa. Uma pessoa diz que não iria contribuir financeiramente com comerciantes que considera de esquerda.

Mensagem fazem referência a Hitler

Outro registro, atribuído a um participante de um grupo de WhatsApp identificado parcialmente como “Orizona Verde e Ama…”, contém uma declaração de violência contra eleitores do PT. “Eu tô com tanto nojo de petista que, se eu pudesse colocar dentro de um galpão e fazer igual Hitler, eu fazia. Já tá passando da hora”, disse o interlocutor.

O Jornal Opção entrou em contato com o interlocutor da mensagem, que se identificou como Lucas. Ele se limitou a falar que “não gosta de pessoas de esquerda”. O mesmo conjunto de prints inclui comentários depreciativos sobre professores, associados à suposta preferência política deles, e manifestações sobre familiares que não votaram no candidato defendido pelos autores das mensagens.

A reportagem também conversou com um ex-morador de Orizona, atualmente residente em Goiânia. Segundo ele, publicações começaram a circular no domingo, 25, após a divulgação do resultado eleitoral. Ele afirma ter recebido registros de amigos que continuam na cidade e relata que uma mulher ligada a atividades sociais teria sido alvo de ataques por sua origem nordestina.

Segundo o ex-morador, uma pessoa que publicou mensagens nas redes sociais também teria começado a reunir nomes de comerciantes considerados de esquerda, com o objetivo de estimular um boicote. Ele afirma que busca obter outros registros das conversas e pretende reunir provas para apresentar uma denúncia ao Ministério Público.

Delegado observa aumento de ocorrências no período eleitoral

Kennet afirmou ter observado aumento de relatos do tipo em Orizona e em outras cidades nas quais atua. Segundo ele, também há situações de mobilização para boicotar estabelecimentos comerciais em razão do posicionamento político atribuído a seus proprietários.

O delegado orientou as pessoas que identificarem possíveis crimes a procurar a Polícia Civil, presencialmente, para registrar a ocorrência e apresentar os materiais disponíveis. Prints de conversas, publicações em redes sociais e outras informações podem contribuir para a apuração, embora a análise da autenticidade e do contexto dos registros seja necessária para esclarecer os fatos.

“É preciso que essas informações cheguem até nós para que possamos investigar”, completou.

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