O ódio mobiliza e a solidariedade incomoda
27 outubro 2026 às 17h39

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Por que algumas pessoas parecem encontrar mais disposição para destruir do que para ajudar? Mobilizam-se para pedir a demissão de quem votou em Lula, ameaçam boicotar comerciantes por suas preferências políticas e anunciam que vão interromper ações sociais porque o resultado das urnas não foi o que desejavam. Mas onde estava toda essa energia quando o assunto era combater a fome, amparar quem vive nas ruas ou ajudar famílias sem condições de sustentar os próprios filhos?
Onde estavam os bolsonarentos onde milhares de pessoas disputavam ossos durante o governo de Jair Messias? Ninguém é obrigado a fazer caridade. Ninguém precisa concordar com Lula, gostar do governo eleito ou abandonar suas convicções. O problema é outro: transformar a necessidade alheia em instrumento de vingança política. É anunciar que quem votou diferente não merece comprar, vender, trabalhar ou receber ajuda.
A fome, porém, não tem partido. A criança que precisa de comida não escolhe o voto dos pais. O trabalhador que depende do salário não deveria ter de esconder suas convicções para manter o emprego. E uma pessoa em situação de rua não deixa de ser humana porque o candidato de alguém perdeu uma eleição.
Há uma contradição evidente em quem se apresenta como defensor da família, dos bons costumes e dos valores cristãos, mas considera aceitável retirar ajuda de quem pensa diferente. De que vale falar tanto em solidariedade quando ela desaparece diante de uma urna? Que espécie de caridade é essa que exige, em troca, concordância política?
É claro que nem todos os eleitores de direita agem assim. A crítica é dirigida a quem escolhe a perseguição como resposta à derrota eleitoral. Mas é preciso dar nome ao que acontece: quando a ajuda vira castigo, o que está em jogo já não é apenas a política. É a disposição de reconhecer a humanidade do outro.
Também é legítimo criticar um comerciante ou decidir onde gastar o próprio dinheiro. Outra coisa é organizar campanhas de intimidação, pressionar empregadores a demitir funcionários ou usar a vulnerabilidade de terceiros para impor uma posição política. Liberdade não pode significar o direito de constranger os outros sem consequências.
O mais perturbador é perceber que, para algumas pessoas, a política parece ter se tornado uma licença para abandonar qualquer princípio que não sirva aos próprios interesses. Se o meu candidato perde, alguém precisa pagar. Se o outro vota diferente, merece ser punido. Se o pobre escolhe outro presidente, que procure ajuda com ele.
É uma lógica pequena, cruel e incapaz de compreender o sentido de viver em sociedade. O Estado tem responsabilidades, e o governo eleito deve ser cobrado por elas. Mas isso não transforma a solidariedade entre cidadãos em uma obrigação que só vale quando o resultado eleitoral agrada.
A verdadeira medida de uma pessoa não está na generosidade que demonstra com os seus, mas na maneira como trata quem não pensa como ela.
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