A radicalização do debate de campanha se tornou algo mais do que o jogo da verdade nua e crua: o tucano quebrou o mito sagrado em torno da presidente

Dilma e Aécio em debate no SBT: depois disso, ela passou mal e teve de comer um “chocolatinho”
Dilma e Aécio em debate no SBT: depois disso, ela passou mal e teve de comer um “chocolatinho”

Se a reeleição da presidente Dilma vencer a disputa contra o desafiante tucano Aécio Neves, no próximo domingo, a oposição não será mais a mesma. Nem Aécio será mais aquele mineiro manso e contido que nele predominou até meados do ano. A alta tensão do debate desequilibrou algo mais do que o índice de glicemia em Dilma no estúdio do SBT, na quinta-feira.

“Comi um chocolatinho e ficou tudo bem”, explicou a presidente como se safou da ligeira crise de hipoglicemia provocada pela falta de glicose no sangue. Agora terá de dominar o sangue que ferveu junto ao do rival no estúdio do SBT. “É muito triste ver a presidente mentindo”, atacou Aécio diante de uma insinuação da concorrente sobre o campo de aviação no município de Cláudio (MG).

Dois dias antes, no debate da TV Band, os dois candidatos se trataram por levianos. Na escalada da troca de agressões, conjugou-se o verbo mentir no SBT. “Por que a senhora mente o tempo todo?”, quis saber Aécio, a certa altura. “Quem mente é você”, devolveu Dilma. Aos interessados na evolução do duelo, o próximo debate é o desta noite, domingo, na Record.
O uso do substantivo inverdade ficou bem para trás no diálogo entre os dois candidatos. A escalada agressiva é um dos sintomas de que a oposição do PSDB ao PT evoluirá de figurino se o partido não voltar ao poder no próximo domingo. A perspectiva de poder em janeiro aguça o novo estilo de combate do PSDB.

Mesmo que os tucanos sejam derrotados na próxima semana, eles já aprenderam as regras menos delicadas do jogo contra o vale-tudo do PT, inclusive os golpes abaixo da cintura. Nesse ajuste de personalidade, Aécio dessacralizou a pessoa feminina da presidente Dilma. Afinal, há mais de três anos ela bate pesado. É dando que se recebe. O sagrado é profanado.

Como Aécio Neves deixou de ser Aécio Neves? Se o longo reinado do PT tem a ver com o sentimento das ruas por mu­dan­ça, troca de poder, essa do­minação do partido tendo Lula co­mo ponta de lança se fez com enxurradas de mentiras con­tra o PSDB e seus candidatos a presidente desde FHC, cujo estilo intelectual e elegante agora fica em xeque face à nova onda.

Com Dilma, que está em campanha pela reeleição há três anos ou mais, a enxurrada de mentiras juntou-se a avalanche de descobertas de assalto ao dinheiro público em nome da hegemonia do PT com os companheiros aliados. Até o primeiro turno há duas semanas, a vítima preferencial do PT era Marina Silva (PSB/Rede). Agora, resta Aécio, que reage em defesa da sobrevivência.

A perspectiva de poder federal nunca foi tão real aos tucanos desde que FHC entregou o Pla­nal­to a Lula há quase 12 anos, alimentada pelo desgaste de material do PT. Nesse embalo, os tucanos em geral poderiam aprender com Aé­cio o dom da ironia nos debates na televisão e do corpo a corpo.

Veja-se o momento em que Dilma, no SBT, interpelou sobre a confissão de Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, feita na delação premiada, de que, em 2009, repassou dinheiro ao então presidente do PSDB, Sérgio Guerra, para o ex-senador ajudar a esvaziar uma CPI que investigaria a petroleira.

Disse que repassou, mas não sabe se o dinheiro foi entregue.

O que fez Aécio? Antes cumprimentou a presidente, com ironia, porque finalmente ela levou a sério uma das revelações de Costa. Entre as informações de Costa que a candidata desprezou está a de que a Petrobrás cobrou propinas de empresas para repasse ao PT, PMDB e PP.

A seguir, o tucano sugeriu que se investigue a denúncia contra Guer­ra, morto em março por câncer de pulmão. Assim que a denúncia se tornou pública, o PSDB divulgou uma nota pedindo a apuração do caso. Se a confissão ocorreu no âmbito da delação premiada, Costa deve ter apresentado prova contra Guerra. Então é investigar.