A vasectomia é um dos métodos contraceptivos mais seguros e eficazes para os homens. Apesar disso, mudanças nos planos familiares levam muitos pacientes a buscar informações sobre a reversão do procedimento. Embora a cirurgia seja possível e apresente bons índices de sucesso em muitos casos, ela não garante uma gravidez.

“O primeiro ponto que o paciente precisa compreender é que a vasectomia deve ser encarada como um método definitivo de contracepção. A cirurgia de reversão pode restaurar a passagem dos espermatozoides, mas o sucesso reprodutivo depende de vários fatores, como o tempo desde a vasectomia, a fertilidade da parceira, a idade do casal e as condições reprodutivas do homem”, disse o urologista Rodrigo Trivilato, titular da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), especialista em Urologia Infantil e Cirurgia Reconstrutiva, médico assistente da residência de Urologia da Universidade Federal de Goiás (UFG) e professor da Universidade de Rio Verde (UniRV).

Microcirurgia reconecta os canais deferentes

A reversão é realizada por meio de microcirurgia, com auxílio de um microscópio de alta precisão que permite reconectar os canais deferentes interrompidos durante a vasectomia.

“A técnica mais utilizada é a vasovasostomia, que consiste na reconexão dos canais deferentes. Em alguns pacientes, quando existe uma obstrução no epidídimo, é necessário realizar uma vasoepididimostomia, um procedimento mais complexo, mas que também apresenta bons resultados quando há indicação adequada”, conta.

Antes da cirurgia, o especialista destaca que cada paciente deve passar por uma avaliação individualizada para verificar as chances reais de sucesso.

“Analisamos fatores como o tempo decorrido desde a vasectomia, a idade da parceira, a fertilidade feminina, possíveis alterações testiculares e alterações hormonais. Todos esses aspectos influenciam diretamente nas chances de recuperação da fertilidade”, explica.

Resultados variam de paciente para paciente

Nem todos os homens apresentam os mesmos resultados após a reversão. Mesmo quando a cirurgia consegue restabelecer a passagem dos espermatozoides, isso não significa que a gravidez acontecerá.

“O retorno dos espermatozoides ao sêmen não significa, necessariamente, que a gravidez irá acontecer. A fertilidade é uma característica do casal, e não apenas do homem. Mesmo quando a cirurgia é tecnicamente bem-sucedida, outros fatores podem impedir a gestação”, pontua.

Tempo entre as cirurgias influencia no sucesso

O intervalo entre a vasectomia e a reversão é um dos principais fatores que determinam as chances de sucesso.

Segundo Rodrigo Trivilato, quando a reversão é realizada em até três anos após a vasectomia, cerca de 95% dos pacientes voltam a apresentar espermatozoides no sêmen, enquanto as taxas de gravidez podem chegar a 70% ou 75%.

Entre três e oito anos após a vasectomia, aproximadamente 90% a 95% dos pacientes recuperam espermatozoides, e as chances de gravidez variam entre 50% e 70%.

Mesmo após dez ou quinze anos, a cirurgia ainda pode ser realizada, embora os índices de sucesso diminuam progressivamente.

“Após dez anos, ainda observamos retorno dos espermatozoides em boa parte dos pacientes, mas as taxas de gravidez caem. Depois de quinze anos, a cirurgia continua sendo possível, porém os resultados tendem a ser menores. Além disso, a experiência da equipe em microcirurgia influencia diretamente nas taxas de sucesso”, observa.

Cirurgia apresenta baixo risco

Como qualquer procedimento cirúrgico, a reversão da vasectomia apresenta riscos, embora eles sejam considerados baixos.

Entre as possíveis complicações estão hematomas, sangramentos, infecções, alterações na cicatrização, dor no pós-operatório e ausência de retorno dos espermatozoides no espermograma.

“No geral, trata-se de um procedimento seguro. O pós-operatório costuma ser semelhante ao da própria vasectomia, com dor leve ou desconforto controlados por analgésicos comuns e alguns dias de repouso”, diz.

Vasectomia não se reverte naturalmente

Outra dúvida frequente entre os pacientes é se a vasectomia pode ser revertida espontaneamente.

“A resposta é não. A vasectomia é considerada um método permanente de contracepção. A reversão espontânea é extremamente rara e praticamente restrita aos primeiros meses após o procedimento. Depois desse período, isso praticamente não acontece”, esclarece.

O especialista lembra que a gravidez após a vasectomia é extremamente improvável, mas pode ocorrer em situações excepcionais, como falha da cirurgia ou relações sexuais antes da confirmação da ausência de espermatozoides no espermograma.

“Por isso, sempre orientamos o paciente a manter outro método contraceptivo até que o exame confirme a ausência de espermatozoides. Somente depois dessa confirmação é que a vasectomia pode ser considerada eficaz”, afirma.

Decisão exige planejamento

Para Rodrigo Trivilato, a vasectomia nunca deve ser encarada como um método temporário.

“Embora exista a cirurgia de reversão e também as técnicas de reprodução assistida, nenhuma delas garante a gravidez. Por isso, a decisão precisa ser consciente e, sempre que possível, compartilhada pelo casal”, destaca.

Na prática clínica, o médico afirma que orienta os pacientes a refletirem antes de optar pelo procedimento.

“Costumo dizer aos meus pacientes que, se ainda existe qualquer dúvida sobre o desejo de ter filhos no futuro, o melhor é não realizar a vasectomia naquele momento. Conversamos detalhadamente sobre o procedimento, esclarecemos todas as dúvidas e somente seguimos quando o casal está seguro de que não deseja mais ter filhos. Essa é uma decisão que merece reflexão e planejamento”, conta.

Leia também:

Maioria dos homens faz xixi errado, afirma urologista