Antônio Macedo

Especial para o Jornal Opção

No último dia 23 de julho, quinta-feira, às 6h da manhã, estava iniciando o lanche, como faço todas os dias. Cheguei a comer o mamão, mas subitamente me veio um grande mal-estar, com vontade de vomitar; andei rápido rumo ao banheiro, já com tontura e notável desequilíbrio, mas não consegui chegar lá: vomitei muito num dos corredores do apartamento.

Daí em diante os vômitos foram sucessivos (dia e noite); já não tinha mais alimentos, o que se via era apenas uma secreçáo amarelada (ficava o tempo todo com uma toalha na mão).

Tomei medicamentos para vômitos, mas tudo que eu tomava de imediato retornava. Como tenho histórico pessoal e familiar de labirintopatia, tomei medicação para esse fim, já prescritos no passado por um médico otorrino.

Nas unidades de emergências, o que mais se vê são médicos muito jovens, recém-formados, conduzindo os plantões sozinhos. Grande parte deles vêm de instituições sérias e são estudiosos, bem formados, mas não nos esqueçamos que na atualidade há uma grande proliferação de cursos de Medicina, a maioria deles com formação insuficiente — colocando no mercado “profissionais” que oferecem riscos à saúde

Minha esposa falava repetidamente pra irmos para um hospital, mas eu não queria. Por quê? Porque estava com  medo.

Hoje, nas unidades de emergências, o que mais se vê são médicos muito jovens, recém-formados, conduzindo os plantões sozinhos. Sim, grande parte deles vêm de instituições sérias e são estudiosos, bem formados, mas não nos esqueçamos que na atualidade há uma grande proliferação de cursos de Medicina, a maioria deles com formação insuficiente (veja as notas recentes  de avaliações do MEC), colocando no mercado “profissionais” que oferecem riscos à saúde. 

Pois bem, como na noite de quinta continuei vomitando muito, na manhã de sexta, já num estado bem ruim, sem conseguir comer e beber água há 24 horas, decidi ir ao atendimento de emergência da Unimed. Minha esposa não se arriscou a me levar dirigindo, então decidimos chamar um táxi, o qual veio e adentrou o prédio. 

Ao entrar no carro, num estado deplorável, o taxista assustou-se e nos disse: “Por favor, chamem uma Ambulância, fico com medo de levá-lo assim”. 

O doutor, pintura de Samuel Luke Fildes 867
“O doutor”, pintura de Samuel Luke Fildes

Então chamamos a UTI Móvel da Unimed. Cerca de 10 minutos depois chegou e me atenderam bem. Insisti que eu queria ser atendido no SAU-Unimed, porque lá os profissionais são muito bons e experientes.

O que na realidade no momento eu precisava? Hidratação e medicação intravenosa para parar os vômitos. O médico disse, no entanto, que a UTI Móvel só pode levar pacientes para hospitais; essa era a orientação.

Então fomos para uma unidade de emergência de um hospital conceituado de Goiânia, no Setor Oeste. Chegando lá fomos recebidos por um rapaz (provavelmente o enfermeiro-chefe), o qual disse que lá não estava fazendo tomo.

O médico da UTI Móvel respondeu que, se fosse constatada essa necessidade, pra entrarem em contato que eles me levariam pra outro hospital.

Fui então colocado sentado numa cadeira, aguardando o atendimento do médico. Daí uns 15 min postou-se à minha frente uma jovem sem jaleco, sem identificação, e me perguntou: o que está havendo? Eu respondi que desde o dia anterior estava vomitando muito, tonto e com muito desequilíbrio.

Erros sucessivos do atendimento: a médica não estava paramentada adequadamente no plantão (jaleco, de preferência branco, com identificação), não ouviu a minha história clínica, não me examinou adequadamente (sim, tudo indicava ser labirintopatia, mas sou idoso e o AVC também poderia ser uma possibilidade), não voltou pra ver como eu estava passando e não trouxe  a médica substituta pra passar o caso

A médica pegou o estetoscópio, fez uma rápida ausculta e me disse: agora mesmo vem o remedinho. Cerca de uns 20 minutos depois, chegou finalmente o soro; aquilo pareceu uma eternidade.

Fiquei naquela unidade cerca de cinco horas, mas a médica não voltou pra me ver; as náuseas tinham passado.

Minha esposa chamou um enfermeiro e perguntou: o soro acabou, e agora? Ele disse que, pra ter alta, tinha que ter liberação da médica; minha esposa teve que ir onde ela estava. A médica plantonista que me atendeu tinha ido embora; a atual apenas disse: então ele está de alta.

Os erros sucessivos do hospital

A médica não estava paramentada adequadamente no plantão (jaleco, de preferência branco, com identificação), não ouviu a minha história clínica, não me examinou adequadamente (sim, tudo indicava ser labirintopatia, mas sou idoso e o AVC também poderia ser uma possibilidade), não voltou pra ver como eu estava passando e não trouxe a médica substituta pra passar o caso, mesmo sabendo que eu era médico.

Sim, é muito importante que esses médicos recém-formados iniciem suas atividades, mas em unidades de emergência entendo que é necessário ter ao lado o suporte de médicos experientes: isso dá maior segurança e é enriquecedor (para os médicos, para os hospitais e especialmente para os pacientes).

Ouvir com paciência o paciente, a história de sua doença e um bom exame clínico são fundamentais para o diagnóstico, juntando-se a isso alguns exames complementares.

É o me foi ensinado pelo professor-doutor Celmo Celeno Porto, dentre outros excelentes professores do curso de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG). E é o que tenho seguido nos meus 49 anos de exercício profissional.

Os significativos avanços tecnológicos trouxeram muitos benefícios à medicina, mas são fundamentais a empatia, o bom relacionamento médico-paciente  e o bom exame clínico. 

Estou finalizando a leitura do livro “A Arte Perdida de Curar”, de autoria do professor-doutor Bernard Lown. É uma leitura enriquecedora.

Antônio Macedo é médico-dermatologista em Goiânia.