“Querem derrubar uma mulher que ousou ganhar duas eleições consecutivas”, diz Dilma

No Senado, presidente eleita critica processo de impeachment e volta a falar que o que está em jogo é o futuro dos mais pobres e marginalizados

Dilma Rousseff discursa no plenário do Senado Federal | Foto: Reprodução / Agência Brasil

Dilma Rousseff discursa no plenário do Senado Federal | Foto: Reprodução / Agência Brasil

A presidente Dilma Rousseff (PT) afirmou, durante sua defesa no Senado Federal na manhã desta segunda-feira (29/8), que tem a consciência tranquila de que não cometeu crime de responsabilidade e está sendo julgada de forma injusta. “Não se afasta uma presidente legitimamente eleita. Quem afasta o presidente pelo ‘conjunto da obra’ é o povo, nas eleições”, rebateu. Confira na íntegra o discurso de Dilma Rousseff aos senadores.

Segundo ela, os argumentos para a aprovação do impeachment e consequente cassação de seu mandato são “apenas pretextos” para eleição de um “governo ilegítimo”. “São pretextos, apenas pretextos, para derrubar, por meio de um processo de impeachment sem crime de responsabilidade, um governo legítimo, escolhido em eleição direta com a participação de 110 milhões de brasileiros e brasileiras. O governo de uma mulher que ousou ganhar duas eleições presidenciais consecutivas”.

Ela voltou a afirmar que o processo de impeachment não tem legitimidade sem crime de responsabilidade. “Não há respeito ao devido processo legal quando julgadores afirmam que a condenação não passa de uma questão de tempo, porque votarão contra mim de qualquer jeito. Nesse caso, o direito de defesa será exercido apenas formalmente, mas não será apreciado substantivamente nos seus argumentos e nas suas provas. A forma existirá apenas para dar aparência de legitimidade ao que é ilegítimo na essência”.

Em discurso que durou 45 minutos, a petista relembrou sua história de luta pela redemocratização do País durante a Ditadura Militar e na defesa de uma sociedade mais igualitária: “Amarguei na prisão, sofri tortura, mas resisti. Não seria agora, aos quase 70 anos, que me abdicaria dos princípios que sempre me guiaram”.

“Este é o segundo julgamento a que sou submetida em que a democracia tem assento, junto comigo, no banco dos réus. Na primeira vez, fui condenada por um tribunal de exceção. Daquela época ficou o registro da minha presença diante de meus algozes no momento em que eu os olhava de cabeça erguida enquanto eles escondiam os rostos, com medo de serem julgados pela história. Hoje não há prisão ilegal, meus julgadores chegaram aqui pelo mesmo popular que me conduziu à Presidência. Portanto, tenho por todos o maior respeito, mas continuo de cabeça erguida, olhando nos olhos dos meus julgadores. Sofro de novo com o sentimento de injustiça e o receio de que, mais uma vez, a democracia seja condenada junto comigo”.

Na sessão que marca o último dia antes do julgamento final do processo de impeachment, Dilma garantiu aos senadores que, desde que assumiu o governo pela primeira vez em 2011, sempre manteve “o compromisso com o País e a intransigente defesa da honestidade na gestão pública”.

Dilma Rousseff reafirmou que não renunciou e não renunciará ao seu mandato. “Não luto pelo meu mandato por vaidade ou por apego ao poder, luto pela democracia, pela verdade e a justiça”. “Ao longo dos últimos meses, me perguntaram várias vezes por que eu não renunciava. Jamais o faria porque tenho compromisso inarredável com o Estado Democrático de Direito. Jamais o faria porque nunca renunciou à luta. Traição, agressões e preconceito assombraram. Mas foram sempre superados pela solidariedade e disposição de luta de milhões”, afirmou.

Acusada de ter cometido crime de responsabilidade fiscal, por supostamente ter feito as chamadas “pedaladas fiscais” e assinado decretos de crédito suplementar sem a anuência do Congresso, a presidente eleita criticou toda a construção do processo e as próprias acusações. Descontruiu os relatórios apresentados pelo Tribunal de Contas da União, que sugeriram para a rejeição das contas do exercício de 2015.

No discurso, Dilma Rousseff lembrou os ex-presidentes Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart, que sofreram tentativas de golpe de Estado, segundo ela. “Sempre que interesses de setores da elite foram feridos, houve movimentos para destituição de líderes legitimamente eleitos”, completou.

Críticas ao governo interino

Ainda em seu discurso, a presidente Dilma Rousseff criticou o governo interino de Michel Temer, que chamou de “governo usurpador”.”Um golpe que, se consumado, resultará na eleição indireta de um governo usurpador. A eleição indireta de um governo, que, já na sua interinidade, não tem mulheres comandando seus ministérios, quando um povo nas urnas escolheu uma mulher para comandar o país”, afirmou.

Dilma também disparou críticas à composição ministerial montada por Temer desde o afastamento dela, em 12 de maio deste ano. “Um governo que dispensa os negros na sua composição ministerial. E já revelou um profundo desprezo pelo programa escolhido e aprovado pelo povo.”

Mais uma vez, a presidente afastada falou no conservadorismo do governo interino revogou ao slogan que tem utilizado em sua campanha de luta contra o impeachment “nenhum direito à menos”, ao fazer críticas à medidas consideradas por Michel Temer. “O que pretende o governo interino, se transmudado em efetivo, é um verdadeiro ataque às conquistas dos últimos anos. Desvincular o piso das aposentadorias e pensões do salário mínimo será a destruição do maior instrumento de distribuição de renda do país, que é a Previdência Social”, disse Dilma Rousseff.

Para ela, “o resultado será mais pobreza, mais mortalidade infantil e a decadência dos pequenos municípios. A revisão dos direitos e garantias sociais previstos na CLT e a proibição do saque do FGTS na demissão do trabalhador são ameaças que pairam sobre a população brasileira caso prospere o impeachment sem crime de responsabilidade. Conquistas importantes para as mulheres, os negros e as populações LGBT estarão comprometidas pela submissão a princípios ultraconservadores.

Ela ainda afirmou que estão em questão outros aspectos importantes para a economia do País como o recursos do pré-sal e o congelamento por 20 anos do orçamento para Saúde, Educação, Saneamento e Habitação.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.