O general sírio Adib Shishakli viveu no interior de Goiás após deixar o poder, no início dos anos 1960. Ele governou a Síria entre 1953 e 1954 e chegou ao Brasil jurado de morte, principalmente por integrantes da comunidade drusa, alvo de repressão durante seu regime.

No governo, Shishakli foi acusado de incentivar o ódio sectário ao divulgar falsos testemunhos atribuídos a líderes drusos. Também ordenou uma ofensiva militar na região de Jabal al-Druze, onde vivia a maior parte dessa população. A operação envolveu cerca de 10 mil soldados e resultou em bombardeios, mortes de civis e destruição de cidades.

Após deixar o poder, o ex-presidente se estabeleceu em Ceres (GO), onde passou a viver como fazendeiro e comerciante. Ele plantava arroz e mantinha um comércio na cidade. Em 1962, uma reportagem da revista O Cruzeiro revelou seu paradeiro no Brasil.

Assassinato em Ceres

Em 23 de setembro de 1964, o comerciante sírio Nawaf Ben Youssef Ghazaleh chegou à região. Integrante da comunidade drusa, ele circulava por cidades de Goiás vendendo mercadorias.

Um mês depois, em 27 de outubro, Nawaf encontrou Shishakli na região central de Ceres. Segundo depoimento, os dois discutiram em árabe. O comerciante sacou um revólver calibre .38 e atirou contra o ex-presidente.

Mesmo ferido, Shishakli tentou fugir, mas caiu próximo ao local. Nawaf se aproximou e efetuou novos disparos à queima-roupa, confirmando a morte. Testemunhas relataram a discussão e os tiros.

Fuga e investigação

Após o crime, o autor fugiu, se escondeu por algumas horas e voltou à rotina para não levantar suspeitas. Ele chegou a jantar e ir ao cinema no mesmo dia. A investigação apontou que o assassinato foi premeditado.

Na época, parte da comunidade drusa ainda demonstrava revolta contra Shishakli, agravada por uma anistia concedida a ele pelo governo sírio pouco antes do crime.

Repercussão

O corpo do ex-presidente foi enterrado em Ceres, mas exumado poucos dias depois a pedido do governo sírio. Embalsamado, foi levado ao país de origem, onde recebeu honras oficiais.

O assassinato teve repercussão internacional e revelou que o ex-ditador vivia de forma discreta no interior de Goiás.

Leia também: Ditadura e Frente Ampla: abriram as portas para o autoritarismo; perderam as chaves