“Quem diz que Segurança Pública é só trabalho do Estado não entende do assunto”

Candidata do Paço para a disputa em Goiânia, deputada estadual pontua Saúde e Segurança como pautas prioritárias

Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Candidata do PT garante que gestão trabalhará para melhorar a sensação de segurança na cidade | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Candidata do prefeito Paulo Garcia à disputa em Goiânia, a petista Adriana Accorsi garante que não poderia estar melhor o início de sua campanha. Bem recebida pelos goianienses, a deputada, que também é delegada, aposta em uma agenda movimentada e em um plano de governo participativo.

Para ela, os principais anseios da população estão nos setores da Saúde e da Segurança Pública. Para reverter esse quadro, propõe a criação de um hospital municipal infantil e mais investimentos no policiamento comunitário, além da execução de um trabalho de prevenção por meio da promoção de políticas públicas e sociais.

Ainda sobre a segurança, Adriana critica quem defende que o setor é “serviço apenas para o Estado”: “Quem diz que Segurança Pública é só trabalho do Estado não entende do assunto. Segurança Pública envolve muita coisa além de arma, viatura e cadeia”.

Única mulher na disputa, ela afirma, ainda, que a possibilidade de ser a primeira prefeita a governar Goiânia acrescenta um significado especial à sua campanha. “O município pode contribuir muito para uma cidade mais igualitária”, defende.

Durante entrevista, a petista também comenta a polêmica escolha de seu vice e, por fim, fala sobre os avanços do setor imobiliário na capital, defendendo uma revisão do Plano Diretor de Goiânia.

Alexandre Parrode – A gente já tinha conversado na pré-campanha sobre a receptividade das pessoas. Inclusive, entre os então pré-candidatos, a senhora foi uma das únicas que realmente fez um trabalho na rua, fora a articulação. A partir de agora, como candidata, qual é a expectativa?
Tudo vem acontecendo em um processo. Na pré-campanha, tudo que a lei permitia a gente tentou aproveitar de uma forma bastante dinâmica, tentando, ao mesmo tempo, manter meu trabalho como deputada, com muito trabalho e apresentações de projetos de lei. Tivemos uma pré-campanha muito animada e dinâmica, com muitas reuniões e visitas. Mas, já na campanha, estamos tentando aproveitar ao máximo o tempo. Já no primeiro dia, tivemos uma caminhada muito grande, com centenas de militantes. E, sendo muito sincera, fiquei surpresa com a receptividade das pessoas. Fui recebida de braços abertos literalmente, ouvindo frases como: “Confio em você”; “Confio nas mulheres na política”; “Seu pai fez uma grande administração, seja como ele”. Ouvi várias frases assim. E nossa campanha continua com as caminhadas todos os dias, além das visitas e reuniões. Assim como fizemos na pré-campanha, nós continuaremos também ouvindo a população sobre os problemas das regiões da cidade. Já apresentamos nosso projeto para o TRE, mas ainda estamos em um processo de incorporação, porque, a cada reunião e visita, nós ouvimos novas ideias, sugestões e críticas. Na minha opinião, nós temos que ter um plano de governo muito participativo.

Alexandre Parrode – Quanto às maiores necessidades da cidade, começada agora a campanha, qual é hoje a maior demanda da população de Goiânia, na avaliação da senhora e em relação a tudo que tem ouvido pelas ruas da capital?
Tenho escutado muito as pessoas, e de todas as idades e classes socias, dos mais diversos segmentos sociais; mas o que eu mais sinto como maiores angústias da população são as áreas da saúde e segurança. Quanto à saúde, apesar de termos muitas unidades na capital, faltam profissionais, principalmente médicos, também faltam equipamentos, insumos e estrutura. E eu vejo que existem algumas questões que precisam ser priorizadas, como a falta de profissionais da Pediatria; porque imagina você com um filho doente nos braços, muitas vezes com um problema grave, e acaba não conseguindo atendimento. Então, fiz um compromisso, como candidata, de implantar em Goiânia um hospital municipal pediátrico, um lugar onde a pessoa tem certeza que será atendida, independente do dia e horário, e com leito de UTI. Na polícia, minha missão sempre foi trabalhar no combate à violência contra as crianças, logo, essa é uma das pautas mais importantes para mim e será uma bandeira da minha gestão.

Por outro lado, a questão da Segurança Pública é uma angústia e um sofrimento da população, onde você vai as pessoas têm relatos de violência, de agressões, de roubos, de famílias que perderam alguém. Nós tivemos, no ano passado, mais de 500 homicídios. A grande maioria foram jovens entre 16 e 22 anos, então são famílias devastadas. E isso tem que ser ouvido, não como número, mas como pessoas que estão sofrendo.

Marcelo Gouveia – Essa discussão da segurança pública está sendo muito vista e debatida nesse início da campanha, até porque grande parte das candidaturas tem um nome ligado à polícia na chapa majoritária. Ao mesmo tempo, muitos alegam que essa é uma demanda que acaba ficando mais para o Estado que para o município. A senhora não acha que a prioridade para esta pauta não estaria sendo colocada de maneira antecipada ou de certa maneira até equivocada?
Eu entendo que a grande quantidade de pessoas da segurança nas chapas refletem essa angústia da população de Goiás e de Goiânia e do Brasil também. Então nós não podemos nos omitir, nós precisamos perceber e compreender o fenômeno. Segundo, quem diz que segurança pública é só trabalho do Estado não entende do assunto. Porque segurança pública envolve muita coisa além de arma, viatura e cadeia. Quem não entende, às vezes pensa que é assim. O trabalho policial é o final, é quando tudo mais falha, quando a pessoa já foi morta, quando a pessoa virou criminosa, quando ela já foi presa, quando uma criança já foi estuprada ou sequestrada… Aí é da polícia. Tudo mais não é a polícia. É o município, o Estado, o Governo Federal e a população. Então, eu entendo e tenho falado isso: o município pode contribuir muito para a segurança pública e em dois aspectos principais. Primeiro, no âmbito da prevenção, que é serviço do município. Com as crianças, nós precisamos de atividades esportivas cotidianamente, não é de vez em quando fazer um campeonato. Porque o esporte, além de garantir uma vida saudável para a gente, é comprovadamente, no mundo todo, um dos caminhos pelos quais os jovens não se envolvem com criminalidade; é um fato. Exemplo: Lutador de boxe que ganhou a medalha nas Olimpíadas. Ele é uma pessoa de uma comunidade humilde, que começou no programa esportivo de uma ONG na Bahia, e ele mesmo reconhece que este foi o caminho para que ele não se envolvesse em crimes. Então, nós queremos recriar as escolinhas esportivas que já existiram em Goiânia e, infelizmente, gente que não entende do assunto fechou. Nós queremos também reeditar o trabalho que era feito pelo Cidadão 2000. Na administração Nion Albernaz, se chamava “Trabalhando com as Mãos”, um programa muito bom que foi premiado nacionalmente. Darci Accorsi assumiu a prefeitura e ampliou o “Trabalhando com as Mãos” para muito mais adolescentes, transformando em “Cidadão 2000”, premiado na ONU, mas que, infelizmente, foi fechado e, desde então, nada de semelhante foi feito na cidade, tendo um reflexo direto no envolvimento do adolescente com o crime. Eu sei porque eu era chefe da DPCA na época. Eu e o Promotor de Justiça da Infância entramos na Justiça para que ele não fosse fechado e não tivemos ajuda.

Agora, mais do que isso, hoje nós temos um problema real em Goiânia que é o crack. É um problema real, verdadeiro. A maioria das pessoas que estão presas são jovens, em razão do crack, porque roubaram um carro pra trocar por droga, porque mataram alguém, porque roubaram uma pessoa ou porque cobraram dívidas de drogas para um traficante. Quase todas as famílias têm alguém próximo, que amam, que está envolvido com o crack. E nós precisamos trabalhar na prevenção. Existem experiências no mundo todo que comprovam que isso é possível, como foi possível aqui no Brasil com o cigarro. Nós podemos fazer isso e a prefeita tem que liderar a cidade para isso, nós temos que unir a nossa cidade, nós temos que unir as pessoas que trabalham com isso, como as pessoas religiosas que, hoje, atuam diretamente nessa questão da prevenção e na recuperação dessas pessoas viciadas. Nós precisamos falar sobre isso com as famílias, assim como nós podemos ter um diálogo com os nossos filhos para que eles não busquem nas drogas ou em um traficante o apoio que ele não consegue ter em casa. Então, isso tudo é trabalho do município, mas, por outro lado, a partir de legislações recentes – inclusive a Lei 12.022, que diz que as guardas civis metropolitanas passam a atuar como forças de segurança municipais – nós temos a real possibilidade de contribuir com a Polícia Civil e Militar em um trabalho de policiamento comunitário. Nós temos uma Guarda Civil Metropolitana que é uma das mais numerosas do país e que é muito qualificada. Nos últimos três anos, nós tivemos um salto tanto na capacitação como na estrutura da Guarda. Hoje, graças a uma parceria com a nova Escola Superior da Polícia Civil, que eu tenho orgulho de ter ajudado a construir, nós temos uma Guarda que faz os mesmos cursos operacionais das polícias.

Alexandre Parrode – E porque que os adversários criticam tanto a Guarda Civil de Goiânia, dizem que ela está desaparelhada, é incompetente…
É absolutamente desconhecimento total. Eu acredito que nessa campanha existem pessoas que estão desinformadas e fazendo um desserviço para a população, disseminando inverdades. Quanto à Guarda, eu convido vocês a conhecerem. Há três anos, a gente tinha somente sete viaturas, hoje, até o final do ano, nós vamos chegar a 60 viaturas novas, inclusive dez caminhonetes, fruto de recurso federal que nós buscamos na nossa gestão. Fizemos o dobro de cursos que são necessários para a Guarda estar armada, entregamos mil pistolas iguais às da Polícia Civil para a Guarda no mês passado, trocamos todo o fardamento e, a partir de agora, não vai mais haver troca de fardamento, porque o guarda recebe o vale-fardamento, ele troca quando quiser. Além disso, nós mais que dobramos o salário da guarda nos últimos três anos com o plano de cargos e salários. Nós temos hoje 60 câmeras colocadas em pontos estratégicos da cidade, nós temos um Centro Integrado de Informação e Controle que troca informações com o Centro da Secretaria de Segurança, onde também têm guardas contribuindo. Além disso, temos a possibilidade e o planejamento para colocarmos mil câmeras em Goiânia para que a Guarda possa fazer esse monitoramento e, em parceria com as polícias Civil e Militar, trazer mais segurança para a cidade.

Apesar da desinformação que algumas pessoas trazem, a população tem reconhecido o trabalho o trabalho da Guarda Civil Metropolitana e tem pedido uma atuação maior. Onde vou, as pessoas pedem para que a gente leve a guarda ao bairro delas. Isso é fruto de uma experiência que fizemos na Região Leste, chamada “Goiânia Mais Segura”. A região foi escolhida, porque o Jardim Novo Mundo é o bairro onde mais pessoas foram assassinadas no ano passado. Então, a Guarda Metropolitana, junto com a polícia faz esse trabalho de análise estatística. Quando eu estava na Polícia Civil, eu criei o departamento e criamos recentemente também na Guarda Metropolitana. A partir das informações que colhemos, foi feito um trabalho de segurança comunitária e conseguimos a marca de 26 dias sem homicídio no Jardim Novo Mundo, o que foi um recorde histórico. E esse trabalho de segurança comunitária acontece nas escolas, nos comércios, conversando com as pessoas, fazendo palestras e em conjunto com as polícias civil e militar. Portanto, a minha proposta é dobrar o efetivo da Guarda Civil Metropolitana em Goiânia, dobrar o número de viaturas, colocar mil câmeras na cidade e levar o programa “Goiânia Mais Segura”, de segurança comunitária, para toda a cidade. E isso é perfeitamente possível. Está no nosso planejamento.

Repórteres do Jornal Opção entrevistam a candidata do PT

Repórteres do Jornal Opção entrevistam a candidata do PT

Alexandre Parrode – Essa questão do que é possível ou não fazer é, inclusive, uma pergunta que estamos fazendo aos candidatos. Porque os candidatos às vezes têm muitas propostas, mas quando olhamos para a realidade do orçamento da cidade, nós temos aproximadamente 50% comprometido com a folha de pagamento, 25% para Educação, 15% para Saúde, e ainda tem uma parcela da dívida a ser paga. Diante disso e da crise que vivemos no País hoje, como fazer para realizar investimentos como dobrar o efetivo, dobrar o número de viaturas, entre outras propostas?
Essa discussão é muito importante e nós temos que tê-la em vista. Então, por exemplo, quando eu falo do hospital, existe o recurso do Ministério da Saúde para esse hospital. Esse recurso, destinado à construção do Hospital Municipal de Goiânia, deve chegar até o final de 2016, começo de 2017. Mas eu acredito também que é uma questão de prioridade. A crise existe, ela é real, mas independente disso, recurso público deve ser gasto com extrema parcimônia, com extrema priorização do que é realmente importante para a cidade, para as pessoas. De fato, temos metade ou um pouco mais da metade do recurso é para o pagamento da folha, temos os recursos já carimbados, que são uma realidade e não podemos mudar. O que tem que ser feito é uma priorização. O que é mais necessário na cidade hoje?

Precisamos avançar muito também na transparência no gasto público e até temos alguns instrumentos para isso. A legislação avançou muito em relação a isso, mas podemos avançar ainda mais, buscando uma total transparência e buscar definir as prioridades junto à população. Por isso, temos a proposta de retomar o orçamento participativo, de forma que a população acompanhe de forma verdadeira como é gasto o recurso, mas que também participe da decisão sobre as prioridades. No serviço público sempre temos pouco dinheiro, eu que sou policial há mais de 16 anos posso dizer que a dificuldade com orçamento é constante. Na administração pública da mesma forma, temos que priorizar. As ações e projetos que apresentei não necessitam de investimento. Por exemplo, as escolinhas esportivas, já temos os locais, os ginásios estaduais que o governo quer entregar para o município e nós vamos aceitar e reformar juntamente com a iniciativa privada. O trabalho com os adolescentes, chamado “Cidadão do Futuro”, já acontece em Anápolis e queremos trazer para Goiânia, é uma parceria com as empresas do setor produtivo, com as quais já estamos conversando, da mesma forma que fizemos com o “Cidadão 2000”. E o que percebemos é que os empresários de Goiânia têm compromisso social e já estão dizendo que querem participar. Para a implementação das câmeras, temos três formas de arrecadação possíveis. As 60 que conseguimos instalar foi com recurso federal. Existem projetos específicos do governo federal para vídeo de monitoramento e também no BID [Banco Interamericano de Desenvolvimento], que tem programas específicos para isso.

Além disso, a parceria público-privada é perfeitamente possível. Estamos fazendo uma experiência no Parque Bernardo Élis [no Celina Park, em Goiânia], onde os condomínios adjacentes, com a associação de moradores e o Conseg [Conselho Comunitário de Segurança] e a Guarda Municipal se organizaram e conseguiram a instalação de câmeras, implementação de um posto da guarda no parque para que tivesse mais segurança e nós queremos fazer isso em todos os parques.Temos uma metar a cumprir para que todo domingo as pessoas possam sair de casa e irem para o parque mais próximo. Hoje, nós temos temos 33 parques e outros cinco sendo feitos. Queremos que as pessoas tenham certeza de que, ao sair de suas casas no domingo de manhã, encontrarão atividades culturais em um parque próximo. Temos que levar a cultura para vida das pessoas, para o cotidiano das crianças, dos adolescentes. Hoje nós temos dezenas de iniciativas culturais em Goiânia que querem espaço. E nós temos estrutura para apoiar essas iniciativas. A maior dificuldade que esses projetos enfrentam são as licenças na Amma [Agência Municipal do Meio Ambiente] e em outros órgãos do município. E nosso papel tem que ser de apoio às iniciativas. Então, a maioria das nossas ideias não necessitam de grandes recursos para serem efetivadas, mas sim de um processo de priorização.

Alexandre Parrode – Ao contrário do que o Paulo pegou quando recebeu a Prefeitura?
Sim, sim. E de endividamento. Existem recursos que já estão garantidos, que chegaram para renovar o asfalto da cidade toda, que vai chegar. Mas existe a possibilidade real de investimento em razão dessas medidas muitas vezes duras e profundas que foram tomadas. É uma realidade que foi inclusive discutida na última prestação de contas do prefeito na Câmara.

Larissa Quixabeira – Adriana, um ponto importante da sua campanha é a representatividade das mulheres na política. Como isso vai se refletir no seu plano de governo?
Somente o fato de ser a única mulher candidata a prefeita e me colocarem a oportunidade de ser a primeira mulher a governar a cidade eu acredito que traz a possibilidade da discussão da participação das mulheres nos espaços de poder e decisão. Todos os dias eu converso com a população, porque é uma discussão que acontece agora e nossa candidatura acredito que tem que ter um significado para isso. Nós somos a maioria da população em Goiânia, somos a maioria dos eleitores do Estado de Goiás. Goiânia é uma das cidades em que mais se tem famílias chefiadas por mulheres do Brasil. É importante colocar que a eleição é um momento em que de fato as mulheres podem se colocar para participar. Então, por exemplo, nós ocupamos hoje no Brasil menos de 10% dos cargos eletivos e é claro que existem dificuldades, existem pessoas que têm dúvidas se as mulheres têm capacidade. Dessa maneira, é muito importante que nós coloquemos na nossa campanha nossa certeza da necessidade da contribuição das mulheres na política. Nós queremos tornar a política uma atividade mais sincera, mais honesta, mais próxima das pessoas, que reflita as necessidades das pessoas, e acredito que a mulher pode contribuir muito nesse sentido, trazendo propostas que refletem as necessidades e preocupações das mulheres com suas famílias, com políticas públicas. Enquanto deputada eu apresentei um projeto de lei, que foi aprovado, que institui um fundo para capacitação para mulheres vítimas de violência. Fiz outro projeto, também aprovado, para que todas as empresas que negociam com o Estado tenham 5% de vagas destinadas a mulheres vítimas de violência para que elas possam reconstruir suas vidas.

O município pode contribuir muito para uma cidade mais igualitária. Podemos ter políticas de apoio para as mulheres recomeçarem suas vidas, podemos ter centros de referência – temos um muito tímido – precisamos fortalecer essa política. Hoje nós temos cursos no município na Secretaria de Políticas para as Mulheres de construção civil e acabamento para construção civil. Vamos ampliar essas possibilidades de capacitação das mulheres. Mas acredito que a principal contribuição deve ser na conscientização, na mudança da cultura machista. Existindo uma prefeita, mostrando capacidade, seriedade e competência, isso já é um grande exemplo. Mas podemos também trabalhar no município a conscientização das famílias. Mudar as consciências para que a gente não tenha uma escola onde as crianças, os professores, todo mundo exclua uma criança ou um adolescente por conta da sua orientação sexual. Uma criança que se descobre transexual ela não encontra ambiente capacitado com trabalhadores que possam conversar com a família para que ela seja aceita na escola e não perca a oportunidade da escolaridade. O município possui a capacidade de fazer tudo isso.

Marcelo Gouveia – Nessa questão social, a senhora possui essa ligação com os direitos humanos, em especial com a comunidade LGBT. Ao mesmo tempo, o vice que a senhora escolheu é um pastor, que na Câmara fez e faz campanha contra o movimento gay, chegando a dizer que o “homossexualismo deveria ser combatido”. Como fica essa questão?

adriana montagemAlexandre Parrode – Ele fala de ideologia de gênero, foi contra o plano municipal de educação proposto pelo Paulo Garcia e a secretária de Educação Neide Aparecida. Foi um dos ferrenhos defensores, junto com a bancada religiosa da Câmara, desse plano. Isso não é um contrassenso, ter a senhora tão progressista junto a um vice tão retrógrado como o Deivison?
A escolha do vice foi feita pelo conselho político da nossa coligação como alguém que traria uma representatividade de parte da sociedade goianiense para nossa chapa. Isso é importante, queremos ter uma chapa que represente toda a cidade. E eu entendo que é perfeitamente possível termos uma cidade onde os segmentos religiosos sejam respeitados, mas ao mesmo tempo nós combatamos todas as formas de discriminação, toda a violência relacionada à homofobia, ao machismo, à intolerância. Eu acredito nisso e liderei isso, por exemplo, na Polícia Civil. A minha delegacia foi a primeira que passou a apurar os crimes de homofobia, porque uma grande maioria das vítimas é de adolescentes, vitimados até pela própria família. E ali nós tínhamos quase metade de evangélicos – na polícia temos muitas pessoas evangélicas – e conseguimos, respeitando o pensamento religioso, combater a homofobia, combater a discriminação. Isso é perfeitamente possível, em minha opinião, tenho convicção disso. Estamos conversando sobre isso e não temos problema.

A questão daquele debate de ideologia de gênero, teve um acirramento dos dois lados, uma dificuldade de diálogo para chegar até o outro. Tenho convicção que, enquanto líder, tenho capacidade de organizar e liderar uma cidade nesse sentido, conseguindo também respeitar todos os segmentos religiosos, até porque nessa questão de prevenção às drogas e no acolhimento das pessoas em situação de rua, os segmentos religiosos – não só evangélicos, mas católicos, espíritas – fazem um trabalho espetacular. Então, é possível avançar para ter uma cidade em que combatamos a discriminação, qualquer ela que seja, respeitando também todos os segmentos religiosos. Acredito nisso e farei isso. A prova que isso é possível é que na gestão do Paulo Garcia foi criado uma assessoria, foram feitos vários trabalhos que avançaram nas políticas de igualdade, mesmo tendo um vice pastor. Aliás, um pastor mais radical.

Alexandre Parrode – O Jornal Opção travou recentemente uma verdadeira batalha contra o domínio do setor imobiliário em Goiânia. A gente vê hoje, e a CEI das Pastinhas comprovou isso, que, mesmo dentro da Secretaria de Planejamento, desde a gestão passada, é possível indentificarmos o domínio desses grandes empresários da construção na capital, dando origem a uma série de problemas ambientais e de mobilidade, além de um crescimento urbano desenfreado e desordenado. Como a senhora pretende enfrentar esse grande problema?
Eu acho que essa questão é muito importante. Eu tenho, inclusive, conversado com as pessoas sobre isso, de todos os setores da sociedade, porque eu acredito que nós temos uma cidade que cresce muito, uma das cidades que mais cresceu nos últimos anos e nós precisamos de planejamento e precisamos pensar como queremos crescer. Então, eu quero ser a prefeita que estará na administração da cidade a partir do ano que vem, porque nós iremos redescutir o Plano Diretor da cidade, e é nele que vamos definir como a cidade vai crescer. O momento dessa nova discussão será muito importante e eu quero que haja uma discussão pronfudamente democrática, e que a gente discuta com toda a sociedade, revendo esta questão da expansão. É importante rever também essa prática política de levar as pessoas humildes e colocá-las bem distantes dos grandes centros, onde não há nenhum benefício social, para que esse terreno que está no meio possa aumentar o seu valor. Eu já fui nesses bairros, já fui como delegada e vou agora como deputada e candidata. Acredito que essas práticas precisam ser revistas. Temos, hoje, ideias que acontecem mundo afora que propõem ações muito diferentes, e tivemos um exemplo aqui em Goiânia que foi o Residencial América Latina, um condomínio feito para pessoas que viviam em áreas de risco, mas que foi construído em uma região central da cidade. Não podemos colocar essas pessoas lá longe, onde não há ônibus, polícia, luz e saneamento. Nós precisamos ver o que já está sendo feito e pensar em um desenvolvimento sem perder qualidade de vida. As pessoas que vivem em Goiânia amam Goiânia. Às vezes, eu fico triste em ver pessoas falarem que Goiânia está ruim e acabada. Não! Goiânia é maravilhosa. O fato é que toda essa revisão será feito no momento em que formos novamente debater o Plano Diretor, e, por isso, nestas circusntâncias, é tão importante a escolha do prefeito.

Então, o que eu quero dizer é que nós temos que combater rigorosamente a corrupção do serviço público, e quero deixar isso claro. É uma missão que tenho. Quando chefe da Polícia Civil, eu fiz isso e sou reconhecida dentro da minha instituição, justamente por esse combate à corrupção, que, infelizmente, existe em todas as instituições. Mas, no serviço público, por lidar com tantos interesses cotidianamente, infelizmente acontece muito, e nós precisamos combater isso, eliminando ou diminuindo a burocracia, além de colocar a tecnologia a nosso favor. E falando em eliminar a burocracia, outra ideia que eu tenho, e eu já fui chefe da ouvidoria da Secretaria de Segurança Pública, é ter uma ouvidoria juntamente ao gabinete da prefeita para que as pessoas falem diretamente comigo. E quero também ter um aplicativo para que as pessoas possam mandar suas demandas diretamente para a prefeita.

Agora, sobre a questão inicial, acho uma pauta muito importante e acredito que temos, no ano que vem, uma oportunidade de planejar nosso futuro por meio da discussão do novo Plano Diretor.

Alexandre Parrode – O que eu escuto é que o Plano Diretor de Goiânia é bom, só que 80% não foi cumprido.
Justamente, ele foi feito de uma forma que necessitava de regulamentação em todos os seus detalhes e essa regulamentação ficou para a Câmara. Então, precisamos ter instrumentos para que a população de forma direta, juntamente com os vereadores, possa fazer um Plano Diretor e já colocá-lo em prática, porque se for para deixar para regulamentar depois não será posto em prático. Foi isso que aconteceu da última vez e devemos aprender com esta experiência.

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