Que Brasil é esse?

Exibição do filme Temporada, do realizador mineiro André Novais Oliveira, mostra o Brasil de sempre, providencial num período tão tenso de próximas eleições

O mineiro André Novais Oliveira | Foto: Divulgação

Por Rui Martins**
Especial para o Jornal Opção

A exibição do filme Temporada, do realizador mineiro André Novais Oliveira, um dos melhores filmes que vi, nestes últimos anos, em Locarno e Berlim, é providencial num período tão tenso de próximas eleições.

Essa a importância também política da manifestação artística, cuja liberdade de expressão teremos sempre de lutar para preservar. Porque tão perigosa quanto a censura no mundo das artes, é a apropriação pelo poder ou por partidos da expressão artística para transmitir mensagens não verdadeiras, louvando-se o que não se fez com objetivos eleitorais.

Não é o caso do filme Temporada, um retrato fiel do Brasil das periferias, das suas populações sofridas submetidas a salários de miséria e, no caso dos agentes sanitários do filme, da precariedade na qual vive o Brasil no combate aos mosquitos. O filme Temporada não é um documentário, mas aí está sua força, ele retrata sem pretensões uma realidade digna do século passado, antes mesmo de Oswaldo Cruz. Fosse um documentário, mostraria provavelmente uma realidade maquiada.

Temporada é real, além de ser um filme bem feito, por um diretor autêntico que na vida real convive com seus personagens, por uma produtora Filmes de Plástico, interessada em mostrar imagens que geralmente se esquecem, seja por interesse da minoria dominante, seja por interesse do partido populista que imagina ter o monopólio da população pobre, Temporada mostra que, na tão decantada e recente década social, nada foi feito em termos de estruturas sociais e sanitárias em favor das populações das periferias.

Mostra, sem ser esse o objetivo do filme, mostra sem querer mostrar, que vivemos uma fábula. O Brasil do filme Central do Brasil, de Walter Salles, é o mesmo Brasil de Temporada de André Novais Oliveira, nada mudou. A periferia cresceu, as pessoas comem mais pão a ponto de ficarem obesas, fenômeno brasileiro recente denunciado pela OMS, porém os negros continuam vivendo mal como antes e a população pobre continua sendo mal paga e mal protegida contra as doenças.

Temporada é o filme da nossa pobreza contente, passiva e conformada com sua má sorte. Na maneira contente como os agentes sanitários aceitam seu pequeno salário, a falta de equipamentos e verba para um verdadeiro combate dos mosquitos, o filme documenta nosso dengue e zika políticos. Estamos todos infectados e muitos ainda pedem mais.

Deu-se muito pão branco ao povo, que ficou obeso, mas não se deram vitaminas, seria o slogan para se desmistificar a fábula construída. O Brasil infelizmente continua igual, porém mais conformado e desenganado. Temporada poderia ser uma espécie de manifesto político, ao ser exibido no Festival de Brasília.

**Rui Martins está em Locarno convidado pelo Festival Internacional de Cinema.

Deixe um comentário