Rebeca Romero

Para quem mora no interior de Goiás, uma consulta médica pode começar muito antes de chegar ao consultório. Pode começar de madrugada, com uma viagem de dezenas ou até centenas de quilômetros em direção a um município que concentre o serviço necessário.

Para alguns pacientes, o tratamento de saúde também envolve combustível, alimentação, acompanhante, hospedagem e, principalmente, o desgaste de percorrer longas distâncias em um momento de fragilidade. 

Essa realidade ajuda a explicar por que a regionalização da saúde se tornou uma questão central para Goiás. O estado possui 246 municípios e uma rede territorial extensa. Nem todos, naturalmente, conseguem oferecer serviços de média e alta complexidade. O desafio está em fazer com que o paciente não precise recorrer sistematicamente à capital para conseguir aquilo que deveria estar disponível de forma mais próxima.

A própria Secretaria de Estado da Saúde reconhece essa necessidade. Em 2026, o governo destacou a ampliação da alta complexidade no Sudoeste goiano, com unidades em Quirinópolis, Jataí e Santa Helena funcionando como referências para 28 municípios. A estratégia inclui serviços como cirurgias, hemodiálise, transplantes e reabilitação. Segundo a Secretaria, os Planos de Fortalecimento da Saúde receberam R$ 334,7 milhões em 2025. 

O avanço da regionalização é importante justamente porque saúde não pode ser medida apenas pela existência de hospitais. É preciso perguntar onde eles estão, quais serviços oferecem, quantas pessoas conseguem atender e quanto tempo o paciente leva para chegar até eles.

Imagine uma pessoa que precisa fazer uma cirurgia, iniciar um tratamento oncológico ou realizar sessões frequentes de hemodiálise. A distância deixa de ser apenas uma questão geográfica. Ela pode representar faltas ao trabalho, gastos adicionais e dificuldade para manter o tratamento.

Por isso, descentralizar não significa simplesmente construir unidades. Significa criar uma rede capaz de garantir atendimento especializado, profissionais, equipamentos, exames, regulação eficiente e transporte sanitário quando necessário. 

Goiás tem avançado pouco na construção dessa rede, o desafio permanece enorme. A pergunta que precisa continuar sendo feita é simples: quanto mais perto o serviço estiver de quem precisa, melhor será a resposta do sistema?

Em saúde, muitas vezes, a diferença entre conseguir atendimento e desistir dele pode estar justamente na distância.

E para quem está doente, a distância não é apenas um número no mapa. É tempo de vida.

Rebeca Romero é jornalista

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