Professora da UEG é finalista do Prêmio Jabuti Acadêmico com obra sobre cinema negro feminino
10 agosto 2026 às 18h57

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A professora Ceiça Ferreira, do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual de Goiás (UEG), é uma das organizadoras da coletânea “Cinema Negro no Feminino: afeto e pertencimento além das telas”, finalista do 3º Prêmio Jabuti Acadêmico 2026, na categoria Artes.
Publicada em 2025 pela Nau Editora, a obra foi organizada por Ceiça em parceria com a cineasta Edileuza Penha de Souza. O livro reúne artigos, ensaios e entrevistas de pesquisadoras, cineastas, curadoras e profissionais do audiovisual para discutir trajetórias, processos criativos e formas de representação de mulheres negras no cinema brasileiro.
A pesquisa que deu origem à coletânea foi desenvolvida ao longo de cinco anos. Para Ceiça, a indicação ao prêmio representa o reconhecimento de um trabalho construído coletivamente e desenvolvido a partir do Centro-Oeste.
“É muito gratificante, porque foram mais de 2 mil obras inscritas e esse livro é uma coletânea sobre cinema negro no feminino que reúne autores e autoras, em sua grande maioria, principalmente mulheres negras, de várias partes do Brasil”, afirma a professora ao Jornal Opção.
Segundo ela, o reconhecimento também ganha importância por se tratar de uma pesquisa realizada fora dos principais centros de produção acadêmica e cultural do país.
“Estar aqui no Centro-Oeste, fazer uma pesquisa sobre cinema a partir de uma perspectiva interseccional, pensando gênero e raça, tem todos os desafios que a gente sabe de fazer pesquisa. Então, é muito importante. É um reconhecimento, sem dúvida, do trabalho que a gente tem desenvolvido”, diz.
Visibilidade do cinema negro
A coletânea aborda a presença de mulheres negras em diferentes áreas do audiovisual, desde a produção cinematográfica até a crítica, a curadoria e os espaços de exibição.
Ceiça destaca que uma das principais mudanças observadas nos últimos anos foi o aumento da visibilidade dessas produções. Segundo ela, embora mulheres negras façam cinema há décadas, foi principalmente a partir dos anos 2000 que parte dessa produção passou a alcançar maior destaque em festivais e circuitos de exibição.
“Esse cinema negro feminino é absolutamente inovador, do ponto de vista formal, da forma, da questão da representação. Então, a gente vai ter uma diversidade de produções, de formatos, de linguagens”, afirma.
A professora também lembra que a pesquisa sobre cinema negro enfrentou resistência no meio acadêmico. “Muitas vezes, eu fui questionada durante o doutorado, diziam que era só militância, e é muito gratificante ver essas produções ganhando cada vez mais destaque. Óbvio que as dificuldades permanecem, mas tem avançado, sem dúvida”, relata.
Cinema como espaço de afeto
Um dos eixos da pesquisa está relacionado à maneira como experiências, territórios, memórias e identidades influenciam a construção das narrativas produzidas por mulheres negras.
Para Ceiça, essas obras também ajudam a ampliar as possibilidades de representação da população negra no cinema, evitando que personagens sejam reduzidos a histórias de sofrimento.
“Esses cinemas negros no feminino são um espaço de escuta, de pensar como se leva para a tela do cinema essas histórias, essas narrativas que não são apenas, e não devem ser apenas, histórias de dor”, explica.
A pesquisadora defende ainda uma atenção especial à construção das imagens e dos personagens. “Não é só um filme, é toda uma construção que traz um repertório, traz um imaginário sobre pessoas negras”, afirma.
Cineclubes ampliam acesso
Além da pesquisa acadêmica, Ceiça atua na formação de público por meio do Cineclube Maria Grampinho, criado por ela em 2022. A iniciativa promove sessões e debates sobre cinema, com atenção especial à produção negra.
Para a professora, os cineclubes são importantes tanto para democratizar o acesso quanto para criar espaços de discussão sobre as obras.
“Ter esses espaços independentes é fundamental porque a gente pode ter mais liberdade na curadoria para selecionar esses filmes, exibir os filmes e depois discutir. Porque é uma questão formativa mesmo”, afirma.
Ela também aponta o custo das salas comerciais como uma barreira para o acesso ao cinema em Goiânia. “O cineclube é esse espaço também de lazer. A gente deveria ter mais espaços para possibilitar o acesso a esses filmes que, às vezes, não vão para o cinema”, diz.
Segundo Ceiça, muitos filmes de realizadores negros conseguem circular em festivais, mas enfrentam dificuldades para permanecer no circuito comercial. Nesse cenário, os cineclubes funcionam como alternativa para aproximar essas produções do público.
Coletânea amplia acesso
O livro também tem como proposta a democratização do conhecimento. Mais de 250 exemplares foram distribuídos gratuitamente a jornalistas, cineastas, professores, pesquisadores, artistas, agentes culturais e instituições de diferentes regiões do país.
A obra foi lançada em outubro de 2025, durante o encontro da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (Socine), em Belém, e posteriormente circulou por eventos acadêmicos e dedicados ao cinema e às artes.
A coletânea também ganhou uma versão em podcast, produzida em parceria com o Núcleo Audiovisual de Produção de Foleys (NAUFO), da UEG, responsável pela audiodescrição dos textos.
Para Ceiça, iniciativas desse tipo ajudam a fazer com que a produção acadêmica alcance públicos para além da universidade e contribuem para ampliar a presença de mulheres negras no audiovisual brasileiro.
Prêmio Jabuti Acadêmico
Em sua terceira edição, o Prêmio Jabuti Acadêmico recebeu mais de 2 mil inscrições e selecionou 135 obras finalistas em 27 categorias.
A cerimônia de premiação será realizada nesta terça-feira, 11, no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, com transmissão pelo canal da Câmara Brasileira do Livro no YouTube.
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