Problema de Biden na América Latina é mais a China do que Bolsonaro e Maduro

Grandes produtores agrícolas e industriais sabem que, por tradição, os democratas são protecionistas. Mas agora há uma pedra no caminho, a China

O “Estadão” transcreveu um texto de uma revista britânica, sob o título “The Economist: Joe Biden mudará marcha na América Latina” (tradução de Augusto Calil). Não há dúvida de que se trata de uma análise competente e bem informada, mas, ao discutir a América Latina, não deixa de ser estranho que a publicação europeia não cite, nenhuma vez, a China. O país mais rico da região, o Brasil, não é o maior parceiro comercial dos Estados Unidos, e sim da China. Portanto, ainda que a China não se preocupe com “intervenção” política, é um país influente na área. Veja-se no caso da vacina chinesa CoronaVac. Não há como — e “Economist” já discutiu a questão noutras edições — desconsiderar a nação dirigida pelo comunista Xi Jinping. Trata-se do segundo maior player global, cada vez mais próximo do poderio da terra de Elizabeth Bishop e Toni Morrison.

Joe Biden e a vice-presidente Kamala Harris | Foto: Reprodução

Há outra questão, não mencionada por “Economist”: o governo de Joe Biden será muito diferente do governo de Donald Trump? O republicano era isolacionista, e o Partido Democrata não é. Mas os democratas tendem a ser protecionistas, o que, no geral, não é positivo para a América Latina, notadamente para o Brasil, que concorre com os Estados Unidos em algumas áreas, como produção de soja e etanol.

Pode-se sugerir, portanto, que os Estados Unidos de Biden serão melhores para o Brasil do que o governo de Trump? Talvez sim, talvez não. Países podem ter identidades e presidentes podem ter afinidades. Mas, em termos comerciais, países que são grandes produtores agrícolas ou industriais são rivais. No momento em que o país de Joyce Carol Oates e Louise Glück luta para manter a hegemonia internacional, que tende a perder para a China — está sendo derrotado até na produção de supercomputadores —, é preciso esperar para ver os resultados da suposta política do soft power do gestor democrata.

Nicolás Maduro, presidente da Venezuela | Foto: Reuters/Marco Bello

Postas as ressalvas, sobre o que artigo não diz, vamos ao que discute. Quando vice-presidente de Barack Obama, Biden era um de seus homens para a América Latina. Ante um mercado poderoso, com países economicamente fortes como Brasil, México, Venezuela (por causa do petróleo), Argentina, Chile e Colômbia, o democrata não terá como ignorá-los. “Economist” ressalva: “Uma vez que Biden assumir o posto mais alto, não seria surpresa se seu interesse na América Latina minguasse, dadas as outras demandas que pesam sobre ele”. De fato, embora a revista não diga, terá de enfrentar a China, um adversário dos mais temíveis da história. Porém, quando estiver “investigando” a China, Biden vai verificar que está se tornando onipresente na América Latina — via, “estúpido!”, a economia. Portanto, não há como “minguar” o interesse pela América Latina, um dos grandes parceiros comerciais dos Estados Unidos. Perdê-la para a China, do ponto de vista comercial, é perder, digamos, o “quintal de Deus”.

“Economist” frisa que Biden vai promover “o estado de Direito e esforços para combater as mudanças climáticas”. O presidente americano “deverá ser”, este ano, “o anfitrião da trienal Cúpula das Américas”.

Xi Jinping, presidente da China, e Jair Bolsonaro, presidente do Brasil:  o pragmatismo sugere que será feita uma reaproximação | Foto: Alan Santos/PR

O Brasil do “Arnesto” Araújo

A América Latina vive pelo menos duas crises graves — a econômica e a pandemia do novo coronavírus, que matou mais de 541 mil pessoas na região (América Latina e Caribe). A pandemia, por sinal, potencializou uma crise econômica que, em alguns países, já existia. “Os corruptos estão vencendo a guerra contra a corrupção”, sublinha “Economist”. O populismo de direita, no Brasil, e de esquerda, na Venezuela e na Argentina, está a postos. “O êxodo da América Central, pausado pela pandemia, foi retomado”, assinala a revista. “A democracia está em retrocesso.” No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro sugere que, se perder a reeleição em 2022, pode acontecer alguma “coisa” — talvez uma reação militar. Democratas verdadeiros não ameaçam a democracia. Portanto, quando o brasileiro fala suas diatribes, é preciso ficar atento. Podem não ser apenas diatribes. O alto investimento que está fazendo nas Forças Armadas certamente diz alguma coisa. Quiçá muitas coisas.

A revista nota que, em El Salvador, o presidente Nayib Bukele, “lançou as bases para uma ditadura”. Este ano, governos populistas podem ser eleitos (ou confirmados) no Equador, Peru e Nicarágua. O que Biden poderá fazer para contê-los? Talvez pouco, ou nada. É provável que possa fazer mais na América Central, que é mais dependente dos Estados Unidos.

Ernesto Araújo: o ministro das Relações Exteriores está se tornando “inimigo” dos negócios brasileiros | Foto: reprodução

Como os dois países mais ricos da América, Brasil e México, vão se relacionar com os Estados Unidos de Biden? Se Bolsonaro tivesse uma diplomacia mais pragmática, as relações com a China seriam melhores e poderiam balizar as relações políticas e comerciais com a nação de Emily Dickinson e Marianne Moore. No momento, por causa de uma diplomacia errática — Ernesto Araújo brinca de “casinha” e “carrinho” com os negócios do país —, o governo de Bolsonaro não está bem com a China e com os Estados Unidos (de Biden). Uma mudança no jogo, com a entronização de um especialista realista e respeitado, pode reaproximar o Brasil da China — o que obrigaria os Estados Unidos, por assim dizer, a respeitarem mais o país de Darcy Denófrio e Yêda Schmaltz. O México (Andrés Manuel López Obrador) e a Argentina (Alberto Fernández) são geridos por populistas de esquerda, mas pragmáticos. A tendência é que Biden não pressione os dois países, concentrando-se mais na Venezuela de Nicolás Maduro, com incentivo à oposição, mas sem articular golpe de Estado.

Na visão de “Economist”, Biden “compartilha do consenso pré-Trump segundo o qual a estabilidade na vizinhança depende do estado de Direito, de uma sociedade civil forte e de um capitalismo mais justo”. O presidente democrata tem razão. Porém, ao longo de sua história, o país negociou alegremente com ditadores (tipo Médici, no Brasil, e Pinochet, no Chile) na América Latina. Não será surpresa se, apesar de alguma pressão, o governo de Biden fizer vistas grossas para populistas autoritários que se apresentarem como “aliados”.

Tereza Cristina: a ministra da Agricultura sabe que o Brasil precisa ficar bem com China e Estados Unidos | Foto: Reprodução

O controle da imigração será diferente do de Trump. Haverá, mas tende a ser menos cruel. O governo pretende investir recursos financeiros — cerca de 1 bilhão por ano — na Guatemala, em Honduras e El Salvador. Seria uma maneira de reduzir o êxodo para os Estados Unidos. A situação em Honduras é complicada. O presidente Juan Orlando Hernández é apontado, por promotores americanos, como integrante de um grupo que comanda o tráfico de drogas. O presidente nega. Segundo “Economist”, na região “Biden vai retomar a luta por melhor governança”.

Nicolás Maduro é um “tirano”, que quebrou a Venezuela, na visão de Biden. O que fazer? Como o presidente não é adepto do Big Stick de Theodore Roosevelt, não deve promover nenhuma intervenção; por certo, vai incentivar a oposição. No primeiro momento, no velho estilo democrata, os Estados Unidos devem promover ajuda humanitária. O governo americano vai continuar incentivando a transição democrática em Cuba, mas, ao contrário de Trump, vai trabalhar para melhorar as relações entre os países, assim como fez Barack Obama. O secretário de Estado, Antony Blinken, seguindo orientação de Biden, vai aliviar as “restrições relativas de remessa de dinheiro e turismo”.

Na questão das mudanças climáticas, grande tema do mundo, Biden planeja representar realmente um avanço. O México, que tem petróleo e “rejeitou projetos americanos de energia renovável, enfrentará a pressão verde de Washington. Assim como Bolsonaro, que permitiu a aceleração da destruição da Floresta Amazônica. Biden pretende criar um fundo de 20 bilhões de dólares para proteger a Amazônia, mas o Brasil, que interpreta iniciativas do tipo como afrontas à sua soberania, até agora tem rejeitado a ideia. As relações entre Biden e Bolsonaro, que louva o regime que torturou [Dilma] Rousseff, deverão ser difíceis”, postula “Economist”.

Bolsonaro é político e sabe que, neste momento, sua popularidade está em queda e que tanto o centro quanto a esquerda começam a ressurgir — o que poderá retirá-lo do poder em 2022. O presidente patropi precisa de mudanças internas, como incentivar de maneira maciça a vacinação — ele está perdendo terreno para o governador de São Paulo, João Doria —, e externas.

A saída de “Arnesto” Araújo do Ministério das Relações Exteriores seria o primeiro passo. Mas não basta afastá-lo — é preciso mudar a política exterior, tornando-a menos ideológica e mais pragmática. Menos “Arnesto” e mais Teresa Cristina, do Ministério da Agricultura — que sabe como poucos a importância dos Estados Unidos e da China para o Brasil —, e Paulo Guedes, do Ministério da Economia, significará “mais Brasil”, quer dizer, mais negócios e menos debate ideologizado (que não leva a nada, ou melhor, leva, pois prejudica a economia do país).

Se Bolsonaro mudar, o que não será fácil — até porque parece não entender o que está acontecendo no mundo e mesmo ao seu redor —, se aderir ao realismo (esquecendo Olavo de Carvalho e sua turma nefelibata), as relações com Biden e Xi Jinping (presidente chinês) tendem a melhorar. Os militares, que têm alguma ascendência sobre Bolsonaro, terão a missão de convencê-lo de que, por causa de uma ideologia que não entende — certamente não compreende o fundamentalismo político-religioso de Olavo Carvalho e “Arnesto” Araújo —, está prejudicando o país e, também, a si próprio. Relações mais proveitosas com China e Estados Unidos contribuirão para ampliar o crescimento econômico do país e, inclusive, para fortalecer o projeto político do líder da direita brasileira. Senão, só restarão, além das batatas, as covas…

Link para o artigo da “The Economist”

https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,the-economist-joe-biden-mudara-marcha-na-america-latina,70003587262

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.