Os marqueteiros da presidente Dilma ficaram para trás. A candidata assumiu a direção do conteúdo dos programas da propaganda do PT na televisão e rádio, com uma certeza na cabeça: o tempo à disposição do partido nas emissoras é um latifúndio que torna a reeleição imbatível quando usado para divulgar obras e programas sociais com a presença da candidata no local.

O PT, com 11 minutos e 24 segundos diários, possui quase o dobro do tempo somado pelos dois maiores adversários. O PSDB tem 4 minutos e 10 segundos. O PSB, dois minutos e cinco segundos. Eduardo Campos discursou, na paulista Araçatuba, que não trocava o seu tempo minguado com o gorducho de Dilma. “Porque eu vou ganhar a eleição, mas vou ganhar a eleição com as mãos livres e limpas”, disse que não inchou o horário com barganhas políticas.

Na terça-feira, a presidente voltou a visitar a obra da Ferrovia Norte-Sul em Anápolis. Foi mais uma visita que repetiu para gravar novas imagens junto a obras e trabalhadores, para passar a ideia de que acompanha os trabalhos atentamente, como uma gerente zelosa com a engenharia e o bem-estar dos operários. “Quem manda aqui sou eu”, impôs as mudanças ao marketing.

O risco que a candidata corre é o de transformar os quase 12 minutos do programa eleitoral num relato maçante de obras e inspeções, daqueles que provocam no público a vontade de ir ao banheiro. É o que ocorre a cada ato público com a presença da presidente nos últimos anos, transformar o discurso num relatório enfadonho sobre obras e programas sociais.

A cena se repetiu há 11 dias, Dilma foi a um debate na Con­federação Nacional da Agricultura e Pecuária ao lado dos concorrentes. Era uma discussão estranha onde os candidatos não trocavam perguntas entre si. A presidente aproveitou e leu um relatório de realizações, que recebeu reclamações discretas de ruralistas, aqueles que aplaudiram Aécio em pé. Pura provocação.

Lembre-se. A vice de Campos, Marina Silva, queixou-se porque não subiu ao palco junto com o companheiro de chapa, Aécio e Dilma. Ela queria estar lá em cima, mesmo que também estivessem lá embaixo dois vices concorrentes, o tucano Aloysio Nunes Ferreira e o peemedebista Michel Temer.

Outro presidenciável que realiza um circuito de obras é Aécio. Mas o projeto dele é desconstruir a fala de Dilma. Mostrar obras federais inacabadas, dinheiro público malgasto, pessoas insatisfeitas… A ideia é demonstrar que, na prática, as coisas não são propriamente como Dilma promete. Também tomou uma resolução, a de ir apenas a debates onde a presidente estiver. No PSB, a ordem a Campos era ir a todos.

O consenso entre o PT e o PSDB será a homenagem a Eduardo Campos no programa de abertura do horário eleitoral. Dilma e Aécio estarão de olho na conquista dos eleitores que se sentem órfãos do presidenciável que morreu. O PSB também prestará o seu tributo, até pelo dever de explicar ao público a ausência do companheiro como candidato do partido.