“Policial é líder, nobre e sem ele não teríamos democracia”, diz secretário

Em conferência na Academia Brasileira de Letras, Balestreri criticou sistema atual de Segurança Pública e defendeu melhor formação às polícias 

Balestreri durante conferência na ABL | Foto: reprodução

Em palestra na Academia Brasileira de Letras (ABL), o secretário de Segurança Pública e Administração Penitenciária de Goiás (SSPAP-GO), Ricardo Balestreri, disse que o modelo excludente de desenvolvimento do país é o principal responsável pela geração de criminalidade. “Os policiais são, na sua maioria, heróis que arriscam a própria vida e salvam a de cidadãos e cidadãs, mas o sistema não funciona”, lamenta.

Para o professor, embora pareça uma visão romântica, o modelo de polícia de proximidade reduz em até 70% a violência e o crime em qualquer lugar do mundo. Ele defendeu o policial militar das ruas, “nos moldes do Cosme e Damião”, em contato direto com as comunidades.

“O policial é um ente tão líder, tão nobre, que sem ele não teríamos democracia, teríamos um mundo dominado pelo crime organizado. Polícia é força de proteção, não é força de guerra; os pobres não são seus inimigos”, opina.

O Brasil tem hoje mais de 60 mil homicídios por ano e que menos de 8% são apurados. O país pune, em média, apenas 3% dos assassinatos. “Em 97% dos casos, matar alguém não corresponde a nenhum tipo de pena”, lamenta.

Segundo o secretário, sobre furtos e roubos, “apuramos menos de 0,5%, ou seja, 99,5% dos casos não são sequer averiguados”. De acordo com ele, “somos o nono país mais rico do mundo, mas quase a totalidade do povo brasileiro não foi incluída; a pobreza não gera crime, mas a ideologia consumista, sim”.

Além da mudança do atual modelo de polícia que, segundo defendeu, precisa ter sua atuação em ciclo completo e conhecimento científico, faz-se necessária a municipalização de parte da segurança pública. Conforme lembra, por lei as guardas municipais já têm função policial, por isso é preciso fortalecê-las, armar essas forças para que estejam preparadas para contribuir no combate ao crime.

Há também a necessidade de unir as polícias para o controle das fronteiras que é “um grande problema” no país. “Precisamos do apoio das polícias estaduais para cuidar das fronteiras do Brasil”, ressalta, lembrando que as organizações criminosas recebem armamentos pesados de fora e que a entrada desse poder bélico é de difícil controle.

“O problema da violência é complexo e requer uma visão complexa e científica”, diz o secretário. “As pessoas não se deram conta, ainda, que o crime é o negócio mais lucrativo do planeta; e enquanto tiver demanda, vai ter gente para atendê-la”, continua.

Desenvolvimento

Antes de entrar especificamente no tema central de sua conferência (“O modelo policial brasileiro. O que precisaria mudar?”), o professor Ricardo Balestreri disse que não é possível haver desenvolvimento sem segurança. Observa que o Brasil é país subdesenvolvido, com 95% da população miserável ou pobre.

Ele citou o cientista político Robert Putnam, que chegou à conclusão de que os lugares que se desenvolviam, ou que deram bem-estar para as populações, passaram por um período de formação de redes de engajamento cívico, ou participação social, quando o cidadão assume o poder de ação, cobra de si mesmo e do grupo as soluções para os entraves.

E justificou que, num país como o Brasil, onde os territórios pobres são quase sempre assumidos por bandidos, ou há a supremacia cultural deles, não há como as pessoas se organizarem e lutarem pelos seus direitos, lembrando que, a partir daí, há toda uma apologia da droga, da violência, do machismo, da misoginia, do racismo, da homofobia, entre outras deformações. “São formas de controlar corações e mentes por meio da atividade criminal”, acentua, observando que “o estado transversal do crime é sempre tirânico”.

Balestreri cita também o historiador David Landes que, de outro ponto de vista, de se investigar as causas da pobreza e da riqueza, percebeu que as nações que passaram por uma larga rede de empreendedorismos, haviam se desenvolvido. “Onde não há um ambiente de segurança pública não há como se empreender pequenos negócios; onde predomina o crime, as pessoas não se sentem motivadas a tirar o dinheiro da poupança e abrir um armazém, se a vizinha foi assaltada”, diz. “Não há como estabelecer redes de engajamento cívico, nem pequenos negócios, quando o medo predomina”, acentua.

Da mesma forma que esses dois fatores, para Balestreri, a educação de qualidade é outro ponto decisivo para o desenvolvimento. “Como falar em educação sem liberdade? Podemos falar em escolarização, e é isso que está acontecendo em quase todo o Brasil, onde professores vão tremendo para a sala de aula. Onde não há liberdade de ensinar e de aprender, não há educação”, diz o secretário. “Piaget falava que, sem autonomia moral e intelectual, para que a pessoa possa julgar com o próprio juízo, não há educação, no máximo a escolarização”, finaliza.

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