Poeta esquece de toda uma vida destinada à poesia e escreve a última obra sem usar nenhuma palavra

“Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos”, já dizia Torquato Neto no seu poema “Pessoal Intransferível”

Jack Agüeros morreu no dia 4 de maio deste ano com o agravamento da doença Foto: Reprodução

Jack Agüeros morreu no dia 4 de maio deste ano com o agravamento da doença|Foto: Reprodução

Desculpa aí, mas não tenho o que dizer. Pensei por várias horas no que iria escrever, pra só agora perceber, só agora definir, que só no silêncio poderei me esvair, me pronunciar. Na ausência é que a gente é presente, já deu pra notar? Olha a saudade que chega, quando a gente inventa de se ausentar. Tem melhor poesia que dizer sem ao menos falar?

“Não ficou nada na minha cabeça”, disse o poeta americano Jack Agüeros. Tantos anos de fazer poético. Tantos frases de puro amor. Se esvaiu tanto, mas tanto que nada ficou. A memória adoeceu. Alzheimer chegou. O silêncio se instalou ali e não se queixem não, não chorem sobre o leite derramado. Após a doença ter se instalado, tudo ficou mais amor, cada detalhe, esqueceu foi da dor. Duvida sobre esse fato? Veja o vídeo. Tá lá, tudo registrado.

Até mesmo o brasileiro, nosso Torquato Netto, por exemplo, como poeta-anjo-torto-tropical, agora morto, no silêncio astral, dizia algo parecido no poema “Pessoal Instransferível”. “escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos”, disse. Ainda sobre o silêncio-poético, mas agora no plano astral, o conselheiro e mestre espiritual, Eckhart Tolle, define o ato como um portal ao interior. “Cada som nasce no silêncio e morre no silêncio. O silêncio torna possível que o som aconteça. É uma parte intrínseca mas não manifesta de cada som, cada nota musical, cada melodia, cada palavra”, disse.

Por fim, sei que falei sem nada dizer, mas é assim que as coisas deveriam ser. Sem palavras. Sem amarras. Com vazão para o vazio do esquecer. Jack Agüeros, esqueceu de ler, esqueceu de escrever, tornou-se um poeta completo dispensando o símbolo principal e poético, fez poesia sem ao menos saber. Fiquei sem palavras agora, já não sei mais o que dizer.

Abaixo, um poema de Jack Agüeros antes que ele também se cale:

Salmo pelas mulheres

Senhor,
obrigado por teres feito as mulheres.
Obrigado por me teres dado olhos
para as olhar, nariz para as cheirar,
dedos para folhear lentamente as suas páginas,
língua para as saborear,
doces momentos para enlearmos os nossos pêlos encaracolados.

Obrigado por as teres feito
como o melhor dos géneros,
por as teres dotado com uma inteligência
que eu nunca compreendi.

E, Senhor, escuta,
pessoalmente eu não acredito no pecado,
mas por favor perdoa-me
se alguma vez fiz mal a uma mulher.

Uma resposta para “Poeta esquece de toda uma vida destinada à poesia e escreve a última obra sem usar nenhuma palavra”

  1. Fabia Nobre. disse:

    “Tem melhor poesia que dizer sem ao menos falar?”
    Adorei Walacy! Beijos.

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