Pesquisa publicada na revista Nature pode explicar o porquê do Covid ser mais letal em determinados grupos

Cientistas da rede Iniciativa para o Estudo da Genética do Hospedeiro (Covid-19-HGI) detalharam fatores genéticos que podem contribuir para o agravamento da doença em alguns grupos familiares

Imagem vírus molécula Covid-19 coronavírus — Foto: Peter Linforth/Pixabay

No dia 1 de dezembro deste ano, o mundo vai completar dois anos em que o primeiro caso de Covid-19 foi registrado. De lá para cá, o planeta viveu uma crise sanitária sem precedentes e muitas incertezas que até hoje não conseguiram ser solucionadas. No entanto, também vemos um trabalho árduo de cientistas e profissionais de saúde que tentam a todo custo trazer respostas para uma doença ainda tão desconhecida. Uma delas, seria a de porquê o Covid matar pessoas sem comorbidades, pessoas jovens e saudáveis.

Em uma pesquisa realizada pela Iniciativa para o Estudo da Genética do Hospedeiro (Covid-19-HGI), que contava com cerca de 3.300 pesquisadores, e publicado pela revista Nature, cientistas colheram os dados de 49 mil pessoas com Covid-19 e outros 2 milhões de indivíduos e analisaram os dados de 46 estudos, de 19 países. Essa análise minuciosa, permitiu que os pesquisadores descobrissem que existem mutações em 13 regiões do genoma humano, em oito cromossomos (3, 6, 8, 9, 12, 17, 19 e 21) que podem sim ser um fator determinante no adoecimento e, consequentemente, na morte de alguns pacientes.

Para o biomédico, geneticista e professor Universitário, Marc Alexandre Duarte Gigonzac, com essa pesquisa podemos afirmar que o fator genético pode ser a causa determinante do Covid, em alguns casos, ter dizimado quase todos os membros de uma mesma família ou matar pessoas sem comorbidades aparentes. “Como as famílias têm um perfil genético relativamente parecido, dentro de uma família muitas vezes nós vemos inúmeros casos de pessoas sucumbindo a doença”, afirmou.

Mutações genéticas seriam a causa do agravamento da doença

As mutações identificadas no genes estão ligadas a doenças do sistema imunológico, a tuberculose, a doenças autoimune, a fibrose e ao câncer pulmonar. Das 13 áreas do genoma identificadas que apresentaram mutação, alguns genes se mostraram mais frequentes nos casos de Covid mais grave, provando que existe a maior suscetibilidade de se infectar com Sars-CoV-2.

A variação reconhecida na posição no cromossomo 3, onde fica o gene SLC6A20, ajuda a invasão do Covid na célula através da proteína ACE2. Outro gene que apresentou mutações nos casos estudados é o TYK2. Mutações nessa posição podem gerar suscetibilidade em doenças autoimunes e até casos de tuberculose. O gene FOXP4, no cromossomo 6, foi identificado em casos graves da doença e a mutação nessa posição é mais presente em pessoas de ascendência latina e asiática. Variações nesse gene também podem causar doenças como fibrose e câncer pulmonar.

O biomédico Gigonzac, explica que mutações nos genes são normais e frequentes. “Todos nós sofremos mutações o tempo todo, é próprio da natureza humana. Essas mutações ocorrem naturalmente no processo evolutivo sempre que estão sofrendo processos mutacionais tanto na própria divisão celular quanto fatores externos, fatores ambientais, radiação, e vários outros compostos químicos que podem levar ao processo mutacional”, diz Gigonzac. Ele explica que as mutações identificadas podem causar formas de Covid mais graves, porque “essas mutações poderiam gerar um processo inflamatório mais agudo, poderiam gerar um processo respiratório mais complicado, então geralmente são variantes que estão associadas aos casos de covid mais graves”.

Como foi visto, algumas dessas variações genéticas causariam uma maior facilidade do vírus contaminar as células humanas através da proteína ACE2. Gigonzac explica que essas “proteínas na superfície dessas células que são as portas de entrada desse vírus. Você poderia ter mais portas de entrada, ou seja, mais proteínas na superfície celular ou portas de entrada maiores, então quando tem uma mudança genética, a porta de entrada ela fica maior ou então ela não tem uma fechadura adequada o que facilita o vírus entrar nessas células”. Por isso que “de acordo com o tipo de mutação (no gene), você vai ter mais portas de entrada, portas maiores ou portas já com uma abertura mais simples para o vírus conseguir entrar dentro da célula e infectar a célula humana”.

Gene identificado com mutação que agrava a doença é mais frequente em países latinos

Mesmo que a pesquisa tenha sido realizada com a maioria dos pacientes apresentando ascendência europeia, os dados conseguiram detectar que a mutação no gene FOXP4 é mais frequente em latinos e asiáticos e que causaria uma forma mais severa da doença. Para Gigonzac, o fato dessa variação estar mais presente em países latinos é fruto da miscigenação e evolução genética do nosso continente. “Durante milhares e milhares de anos, as populações foram sofrendo mutações e antigamente não tinha tanto fluxo genético, não tinha tanta migração, então as populações eram mais isoladas e mutações que aconteciam específicas naquelas populações acabaram ficando naquelas populações. Hoje com o fluxo migratório existe uma mistura.”

Na história do Brasil, o fluxo migratório aconteceu de diversas regiões do mundo o que resultou em uma variabilidade genética gigantesca. O biomédico conta que “dentro do Brasil nós temos uma variabilidade genética muito grande, é a própria composição étnica do brasileiro” e que “um porte maior de alguns grupos populacionais pode para alguns casos, favorecer um quadro mais grave, mas não somente nessas populações, mas também de várias outras populações” e conclui dizendo que “cada população foi evoluindo de formas diferentes e apresentam variantes genéticas diferentes numa frequência maior ou menor”.

Os resultados desse estudo ainda podem auxiliar na prevenção de casos mais graves de Covid e no desenvolvimento de medicamentos que operem nas mutações genéticas analisadas, conseguindo assim, um tratamento mais eficaz contra o Sars-CoV-2.

 

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