Para Gleisi, PT não tem responsabilidade na polarização do País

Presidente do partido falou ao Opção sobre oposição, democracia, reforma da previdência, gestão Bolsonaro, Lula, Marielle a mais

Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, esteve na Capital, na última quinta-feira, 11, em cumprimento de agenda, organizada pela presidente estadual da sigla, Kátia Maria. No período da tarde a deputada federal esteve na Central Única dos Trabalhadores (CUT) e, no começo da noite, na Faculdade de Direito da UFG, onde conversou por 20 minutos com o jornal Opção.

Confira a seguir, na íntegra, o que ela falou.

Entrevista

Francisco Costa: A que deve sua vinda à Goiânia?

Gleisi Hoffmann: Nós estamos visitando todos os Estados. Como presidente do PT, estamos fazendo contato com nossa militância, direções estaduais, com dois objetivos bem definidos: o primeiro é a organização do partido para oposição do governo federal. Somos oposição ao governo Bolsonaro, achamos e avaliamos que cada vez mais se requer uma participação maior da população nesse processo e, portanto, o partido tem essa responsabilidade de fazer essa mobilização. Pela capilaridade que nós temos, pela representatividade do PT. Então nós vamos visitar todos os Estados brasileiros.

E o segundo [objetivo] é para falar sobre a organização partidária. No final do ano vamos ter o nosso congresso nacional e vamos no segundo semestre iniciar o processo das renovações partidárias, então devemos estimular o partido a estar organizado, participar do debate, enfim, fazer as filiações… Isso tudo é muito importante.

FC: Você falou em organizar a oposição e hoje o PT é o partido com mais deputados na Câmara Federal. Porém, houve um racha, há dois blocos de oposição dentro da Câmara. Como você avalia isso? Não seria melhor unir essas oposições?

GH: Nós lutamos muito para unir, o PT sempre teve disposição e fez gestos e ações para unir a oposição, tanto que fizemos um bloco na disputa da presidência da Casa entre PT, PSOL, PSB e Rede, quatro partidos. Só não vieram nesse momento PDT e PCdoB. Mas agora já estão incorporados, inclusive, nesse processo de contrariedade a reforma da Previdência. A Jandira Feghali (PCdoB) é a líder do bloco de minoria, o [Alessandro] Molon (PSB) é o líder da oposição, os partidos estão trabalhando de forma integrada. O Fernando Haddad (PT) assinou um manifesto, também junto com o [Guilherme] Boulos (PSOL) e a Sônia Guajajara (PSOL), com o Ricardo Coutinho (PSB), isso também é importante… Então, aos poucos, a luta vai fazendo com que a gente se aproxime. A luta contra a reforma da previdência é aquela que tem unificado mais.

“PT sempre teve disposição e fez gestos e ações para unir a oposição”

Previdência

FC: Hoje parece haver um número maior de pessoas que não é a favor da reforma do jeito que ela está. Existe uma contraproposta dentro dos grupos de oposição? Você entendem que ela é necessária?

GH: Não. O PT entende que não. Se nós tivéssemos sido eleitos, se Haddad tivesse sido eleito, não iniciaríamos, jamais, um governo com uma proposta de reforma Previdenciária. Não achamos que o problema do País é fiscal, o problema do País não é econômico. Uma reforma da previdência pra resolver um problema fiscal, decorrente de um problema econômico. Nós faríamos uma reforma tributária, taxando os mais ricos, tentando aumentar a arrecadação, mas, principalmente, faríamos um projeto contracíclico da economia. Colocando investimento público para gerar emprego, gerar renda, gerar crescimento, com programas sociais para proteger os mais pobres, ou seja, faríamos o que o Lula fez nos momentos de crise, quando ocorreu a crise de 2008 e 2009.

FC: Mas em relação a militares e cargos públicos? Vocês pretenderiam rever?

GH: Claro que todo sistema precisa de ajuste. Mas não faríamos uma reforma. Obviamente que ao longo do governo poderia se ajustar as coisas. Nós já fizemos duas reformas em nossos governos: uma com Lula e outra com Dilma. É verdade que os militares precisam, mas a proposta que veio para eles é uma proposta mais benéfica ainda. Não é uma proposta que corrige distorções. Mantém as distorções entre eles, inclusive. Entre os altos escalões dos militares e a base, o que é muito ruim…

Democracia

FC: Mas outro ponto que gostaria de discutir… Entre os temas de sua visita à Goiânia estava a democracia. Você vê a democracia em risco, de alguma forma?

GH: Total. Vejo a democracia muito em risco. As medidas que estão sendo tomada, o incentivo à violência, desrespeito aos direitos humanos… Completamente em risco a democracia. O que é muito preocupante, porque a democracia não se sustenta só por isso, ela se sustenta pelos direitos da população a ter acesso as questões básicas. Não existe uma democracia se parte da população está passando fome. Se parte da tua população está desemprega. Não tem segurança social e nem proteção social.

“Vejo a democracia muito em risco”

Então, a democracia está em risco sim. A maneira autoritária deles se relacionarem, as ideias que eles divulgam, isso tudo compromete. Nós avaliamos que o governo Bolsonaro é um governo de destruição. Não é um governo para governar a partir de uma base já estruturada. Ele veio para destruir. Destruir a Constituição de 1988, os direitos que foram conquistados, destruir o legado dos nossos governos, principalmente, que iniciou com o presidente Lula… É um governo da destruição.

Sindicatos

FC: Eu até quero que você faça um balanço desses 100 dias de governo, mas queria pontuar algo específico, primeiro. Mais cedo você esteve na Central Única dos Tralhadores e eu gostaria que você comentasse sobre o decreto 9.735/2019, que dificulta ainda mais o trabalho dos sindicatos, por meio da arrecadação.

GH: Um absurdo. Eles já tinham enfraquecido a representação sindical dos trabalhadores na reforma Trabalhista. Eles já tiraram o imposto sindical e deixaram os sindicatos fragilizados. E agora determinam que não pode mais ter desconto em folha, a contribuição sindical que o trabalhador quer dar. É óbvio que isso pesa contra os sindicatos. Vou te dar exemplo de uma categoria: pega Asseio e Conservação. Você tem que mandar o boleto para a casa das pessoas, individual; é uma categoria que tem alta rotatividade de emprego e de residência. Um pessoal mais pobre, mais a base da pirâmide. Dificilmente vai conseguir estruturar um sindicato. E é o pessoal que mais precisa de sindicato, que mais tem dificuldade de negociar com o patrão. É mais fragilizado.

Então, você tira um instrumento importante de proteção, de mediação, de representação. É por isso que a democracia está em risco. Quem é que fica com o poder e a capacidade de mediar? Quem tem acesso aos altos cargos. Por exemplo, vamos ter uma situação que é uma barbaridade: a anistia da dívida do agronegócio com o Funrural (Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural). R$ 11 bilhões.

Para quem está com o orçamento curto, abrir mão de R$ 11 bi é um problema. Para trabalhador e muitas outras áreas você jamais conseguiria um negócio desses. Porque não tem pressão. Não tem poder de pressão. Agora, o pessoal do agronegócio tem poder de pressão. Vai pra dentro do governo e pressiona. Vai pra dentro do congresso e pressiona.

Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

FC: Inclusive, nesta semana o presidente se reuniu com representantes de países árabes e houve uma sinalização de que não se deve mexer na embaixada [de Tel Aviv para Jerusalém], uma vez que são grandes importadores de carne do Brasil…

“Corremos o risco de perder importantes compradores dos nossos produtos, e também de se subordinar aos interesses de um país, que não é o nosso”

GH: Claro. Eles já tinham dito isso abertamente, representantes da comunidade Palestina já tinham dito… O Bolsonaro fez uma afronta. Além de ir lá [Israel] e abrir um escritório, recuou da embaixada, mas abriu um escritório, assinou um livro apoiando a construção de um templo judaico em cima de uma área sagrada muçulmana. Para que fez isso? Para que ele tem que se meter nessas situações? É muito ruim…

Então, balanço de 100 dias de governo, vamos começar pela nossa soberania: totalmente ameaçada. Porque o Bolsonaro, primeiro, bate continência para a bandeira dos Estados Unidos, vai para os EUA e junto com o seu ministro, que é o [Sergio] Moro, visita a CIA, o FBI… Quase que rompe relações com a China, aí quase rompe relações com o mundo Árabe… E aí coloca os Estados Unidos como prioritário nas relações comerciais e políticas.

Ou seja, nós corremos o risco de perder importantes compradores dos nossos produtos, e também de se subordinar aos interesses de um país, que não é o nosso. Além de já ter entregue boa parte do petróleo. Aí descobrimos que a Operação Lava Jato tem um acordo, Ministério Público do Paraná, Justiça Federal do Paraná, tem um acordo com o departamento de justiça americano para poder entregar informações da operação e da Petrobras, sem formalidades, de maneira fácil. E, em troca disso, o DOJ (Departamento de Justiça) vai dar 80% das multas que a Petrobras pagou para acionistas internacionais para eles. Para fazer política. Uma loucura isso. Então, a soberania está altamente ameaçada com o Bolsonaro.

FC: Nesse ponto, qual a avaliação você faz do vice-presidente, Hamilton Mourão, que tem tido falas mais moderadas, até diferente do Mourão da campanha, inclusive…

GH: Parece que ele está com outros interesses, né? Que não a mediação e a centralidade. Bolsonaro e Mourão são tudo a mesma coisa. Não tem diferença, nenhuma.

Marielle

FC: Aqui, onde estamos conversando, tem um pôster da Marielle Franco, no local em que você vai conversar com os alunos. Perto de se completar um ano do assassinato da vereadora e do motorista Anderson apontaram quem cometeu o crime, mas não o mandante. Como o PT tem acompanhado isso?

GH: De maneira bem apreensiva, porque não se esclarece as coisas. Um crime como esse leva um ano para ter esclarecimento, mas não se consegue ter. Aí depois têm as coincidências, que também são estarrecedoras. Ou seja, as pessoas que foram presas, milicianos ligados a gente do gabinete do [senador] Flávio Bolsonaro (PSL). Morando no mesmo condomínio que o pai Bolsonaro. Pode não ser nada, mas pode ser tudo. A família Bolsonaro envolvida com milícias.

Então, é muito assustador. Aliás, não só envolvida, mas já congratulou as milícias… Então, é muito assustador, isso. Com quem que a gente está lidando? O nível de periculosidade desse pessoal… E é lamentável que o caso da Marielle continua assim. Marielle virou um símbolo de resistência da população que é perseguida diariamente. Nas favelas, nas comunidades do Rio. População negra que sofre com preconceito, violência policial. Assim como essa questão do exército que matou o músico, né? 80 tiros. Vai esclarecer? Quem que é responsável? Quem deu ordem de comando? Por que isso aconteceu?

Lula

FC: Agora, sobre o ex-presidente Lula

“Lula tem muita lucidez do que ele está passando. O papel que ele cumpre na política, o que ele tem que fazer. Se preocupa muito com o Brasil”

GH: Não tem provas, nenhuma prova contra o Lula nos processos. Temos prova da inocência do Lula. Não de culpa.

O Lula está injustamente preso, um absurdo o Lula estar preso. Injustificável, a gente não conforma disso. Porque que o Lula tá preso? Qual o nível de periculosidade que ele oferece a sociedade, a partir de uma sentença de segunda instância, que teria que ser altamente justificada?

E agora descobrindo essas questões do envolvimento do DOJ, do Departamento de Justiça Americano com a Operação Lava Jato, aí isso acende mais a nossa luz amarela. Sobre a conspiração que foi para levar a Lava Jato direcionada, seu alvo, a Lula. Tem a ver com a questão da defesa da nossa soberania, tem a ver com a criação dos Brics, com a exploração do Pré-Sal, com os novos mercados brasileiros, ou seja, Lula reposicionou o Brasil na geopolítica mundial. Isso teve peso grande, inclusive, interviu nas relações Brasil-Estados Unidos.

FC: Nós estamos perdendo esse reposicionamento?

GH: Estamos perdendo, já perdemos muito. Basta ver o enfraquecimento do Brics. O Brasil era um grande articulador, quando se retira dos Brics, já fez isso com o Temer, nós já perdemos… A questão do Mercosul. Da América do Sul, da América Latina, nós criamos, além de fortalecer o Mercosul, a Unasul (União de Nações Sul-Americanas), a Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos). Ou seja, instrumentos para fazer blocos regionais para você se posicionar de maneira mais forte perante o mundo e as grandes potências. Então, já perdemos, com certeza. Hoje o Brasil é motivo de chacota e preocupação.

FC: Você continua se encontrando semanalmente com o ex-presidente Lula?

GH: Semanalmente não. Tiraram a minha procuração da Ordem [dos Advogados]. Disseram que eu não posso ir como advogada, porque sou deputada. Então tenho me encontrado com ele a cada 15 dias, 20, 25 dias. Mas ele está bem. Ficou muito abatido com a morte do neto, mas recuperou, agora… O Lula tem muita lucidez do que ele está passando. O papel que ele cumpre na política, o que ele tem que fazer. Se preocupa muito com o Brasil.

Essa gente está destruindo tudo, vai ser muito difícil recuperar, depois deles. A gente tem resistir, não pode deixar eles avançarem muito. Tem que falar com o povo, falar o que está acontecendo, explicar. E é isso que a gente está tentando fazer.

Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

Polarização

FC: Sobre o caso do neto do Lula, apesar de ter sido uma situação muito triste, terrível, e houve uma polarização que não tem explicação. Você acredita que o PT tem responsabilidade na polarização que vivemos?

GH: No caso do neto do Lula a maioria foi solidária ao presidente, não teve uma polarização meio a meio, não. Teve um grupo da extrema direita, desse pessoal que não tem nem sentimento, um pessoal que gosta de matar, vive com arma, fazendo arminha, e quer sair espancando todo mundo, aí desses não dá para esperar muita coisa. Mas eu não acho que o PT tenha responsabilidade na polarização.

O PT sempre foi firme na defesa do povo brasileiro. Sempre esteve ao lado do povo e vai continuar estando. Se isso é ser radical, então nós somos.

“Eu não acho que o PT tenha responsabilidade na polarização. O PT sempre foi firma na defesa do povo brasileiro”

FC: Por fim, sobre os ministros do presidente. Bolsonaro sempre celebrou as escolhas técnicas. O que pode dizer sobre isso?

GH: Não existe ministro técnico. Ministro é um cargo político. Se fosse técnico haveria concurso e não indicação. Eu indico uma pessoa e ela aceita se concordar com as minhas ideias, a forma como eu penso. Ninguém é ministro neutro em um governo. Não existe isso. Então não tem técnica nenhuma, ali tem política e incompetência. Muita política e muita incompetência. E também os filhos mandando, né? Também interferência familiar. Então é um governo muito ruim. Muito ruim. Acho que o Brasil vai sofrer muito se não enfrentar isso.

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