A vitória do radicalismo anarcocapitalista na Argentina tem pouca ou nenhuma chance de efetivação das propostas apresentas por Javier Milei durante as eleições. A dolarização completa da economia, eliminação do Banco Central e adoção da competição livre de moedas, são na prática, impedidas pela realidade econômica. É o que acredita o professor de economia da Universidade Federal de Goiás Everton Rosa, que lembra que o País já passou por um processo fracassado de dolarização da economia.

“O plano foi um tiro no pé pois, quando o País passa por uma instabilidade, ninguém quer mais o peso. E como foi adotado modelo ‘bimonetário’, você aumenta a demanda pelo dólar e precisa satisfazer essa demanda de alguma forma”, explica.

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A escolha do modelo ‘bimonetário’ e um processo de dolarização da economia teve início com a crise hiperinflacionária que abalou as economias latino americanas. A implementação foi colocada em prática pelo economista Domingo Cavallo, durante o governo de Carlos Menes. Durante a gestão no começo dos anos 90, foi criada a “lei da conversibilidade”, que estabeleceu a paridade entre o peso argentino e o dólar. Diferente do que fez o Brasil, no entanto, a Argentina permitiu que a população sacasse ou depositasse em qualquer uma das duas moedas.

Com a instabilidade econômica e a alta inflação do País após a desvalorização da moeda interna, o dólar é frequentemente utilizado como reserva de valor. “Quando você tem a crise do final dos anos 90 na América Latina, por mais que as pessoas quisessem fugir correr do real para o dólar, a economia como um todo permaneceu com o real e você não tem uma fuga da moeda interna”, explica Everton. Vizinho do Brasil, porém, adotou um modelo que “permitiu essa fuga para o dólar em detrimento da moeda interna”.

Professor de economia da Universidade Federal de Goiás (UFG) | Foto: Reprodução

A desvalorização do peso, explica Everton, é “parte do problema de inflação da Argentina”. “Hoje a Argentina e qualquer país emergente vive num sistema em que você economiza o dólar e gasta a moeda doméstica. Se você dolariza, a necessidade por dólar é muito maior. É infactível você dolarizar por completo a economia argentina”, aponta.

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Crise e inflação na Argentina

Entre 1991 e 1998, a Argentina teve um crescimento médio de 5%, contra 3,4 do restante da América Latina. A produtividade estava em alta. Mas, em 1998, a crise hiperinflacionária que atingiu praticamente todos os Países latino americanos, esmagou a economia argentina e impôs uma inflação de 4.900% ao ano. A superação temporária, a partir dolarização da economia, porém, levou ao País a situação quase tão calamitosa quanto a vivida naquele ano.

“A Argentina tem uma crise cambial e uma crise bancária, mas a forma como eles lidaram com a crise foi pior que a nossa. São economistas diferentes, mas ambas sul americanas que sofreram com a desconfiança internacional”, explica o economista.

Everton conta a instabilidade política e econômica num país emergente, provoca a saída do Capital de investimento. “Desvalorizam o dólar, derrubam a cotação das Bolsas e geram uma fragilidade do ponto de vista de inserção do mercado financeiro”, conta.

Extinção do Banco Central

Presidente eleito na Argentina, o economista Javier Milei tem como plano central de proposta econômica a extinção do Banco Central. A fragmentação do Congresso Nacional com o peronismo, de centro-esquerda, se impondo novamente como a principal força no parlamento, dificilmente deixará o ultraliberal tomar medidas radicais. Serão 107 deputados na próxima legislatura e 34 deputados.

Por sua vez, a aliança ‘A Liberdade Avança (LLA)’, de Milei, aumentou sua bancada de três para 39 deputados e chegou a 8 senadores. Já a coalização de direita garantiu 94 cadeiras na Câmara e 24 no Senado.

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“Acredito que eles vão pelo menos propor um plano de estabilização monetário para controlar a inflação, além de uma tentativa de redução do déficit público”, defende Everton. Para isso, uma das ideias é o corte de subsídio para combustíveis, energia e outros itens.

“Medidas para reduzir déficit público são necessariamente inflacionárias. Caso o governo resolva cortar o subsídio o preço vai chegar cheio para o consumidor e terá um agravamento da inflação”, argumenta.

Relação com Brasil e Mercosul

A relação entre o agora eleito presidente da Argentina e o governo brasileiro começou com o pé esquerdo já durante os debates para a eleição. Milei disse chamou o presidente Lula de “comunista” e afirmou que não se encontraria com o brasileiro em caso de vitória.

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Para Everton, apesar da bravata de corte das relações, a Argentina é dependente tanto do Brasil quanto do Mercosul para a venda dos produtos. “Se a Argentina não exportar para a gente vai exportar para quem?”, questiona. O Brasil é, ao lado da China, os principais parceiros comerciais da Argentina e as relações são favorecidas graças à uma série de “condições favoráveis” para a exportação e importação.

Essa relação, explica Everton, já foi mais benéfica para ambos os países. “O Brasil sobrevive em uma eventual saída da Argentina do Mercosul. Qual poder de barganha tem um país sozinho para negociar com as grandes economias? Importamos muitos carros, sempre tivemos uma balança comercial de automóvel superavitário por que a gente era a base de exportação de carros deles. Isso foi mudando aos poucos e passamos a ter um déficit com a Argentina”.

Exportação de comodities não é negócio seguro

Assim como o Brasil, a Argentina tem uma economia dependente da exportação de comodities. “Exportar comodities não é um negócio sustentável do ponto de vista de relações internacionais”, revela. Ele explica que as maiores economias mundiais como Coreia do Sul, Alemanha e Japão, investiram na exportação de produtos com alto valor agregado. “Os latinos tem uma grande dificuldade de entrar no mercado da Europa se não for com comodities. Aliás, até com as comodities, não atoa que nosso principal parceiro comercial é a China, então não estamos livres da instabilidade e vulnerabilidade de mercado”.

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