Pai de santo é denunciado por abuso sexual

Segundo advogada, homem “utilizava das entidades para obter vantagens sexuais”

Há dois anos, uma estudante de direito ingressou na religião kimbanda, a convite de seu professor, o pós-doutor Oli Santos da Costa, que é também o pai de santo do terreiro. O local, na Rua Ormezina Naves, Setor Balneário Meia Ponte, na Capital, não era meramente um ponto para congregação de fé, mas, supostamente, um antro de abusos sexuais, com semelhanças ao caso João de Deus.

Essa estudante que, ao lado de outras 17 mulheres [inclusive menores], esteve na terça-feira, 25, na delegacia da Mulher, no Centro, revela que, desde que entrou no terreiro, teria sofrido esses abusos, na época atribuídos a um tratamento espiritual feito por uma entidade, o Monge Rasputin [o próprio místico russo do século XIX]. A desconfiança começou, quando o pai de santo, conforme ela, saiu do personagem, segundo ela.

“Ele fingia estar incorporado e dizia que para curar as meninas era preciso do tratamento. A ‘entidade’ mandava que as mulheres tirasse a roupa”. A denunciante revela que o pai de santo mudava a voz, bebia, alterava a personalidade para dar mais credibilidade ao seu Gregorio Yefimovich Rasputin, autoproclamado homem santo de grande influência política.

Conforme relatado, o professor universitário dizia que as meninas eram escolhidas para fazer um tratamento com essa entidade. “E elas [inclusive eu] acreditava. É um abuso mediante fraude, estelionato sexual. Com menores, inclusive”, denunciou.

Desde o início

A fonte que pediu para não se identificar afirmou que, apenas há duas semanas, compreendeu que se tratava de estupro – conforme dito, o ato teria ocorrido de forma “desincoporada”. Ela também relatou ao Jornal Opção que, ao conversar com outras membros do terreiro, foi descoberto que esses abusos ocorreriam desde o início da fundação, há quatro anos. “No começo, duas meninas saíram sem explicação, sem falar com ninguém. Provavelmente pelos abusos”, especulou.

Ao denunciar Oli, a polícia teria informado as vítimas que já haviam dois Boletins de Ocorrência contra religioso, mas ambos foram arquivados. Inclusive, segundo a fonte, quando ela resolveu fazer a denúncia, há cerca de duas semanas, quando ocorreu o seu entendimento, e relatou o ocorrido a outras participantes, muitas disseram para não fazer e, apesar de estarem na mesma situação, permaneceram do lado do suposto abusador.

“As pessoas têm medo. Ele dizia que se a gente contasse, morria. Temíamos a entidade”. Apesar disso, ela pontuou que, posteriormente todas resolveram ir prestar depoimentos.

Confronto

Os cultos ou gira, como é chamado o encontro, ocorre às segundas e sábados, dias em que ocorriam os abusos em um quarto reservado com esculturas de falos, que seriam nos moldes da entidade. Porém, nesta segunda-feira, 24, as jovens abusadas resolveram confrontar o religioso.

De acordo com a estudante, para elas ele assumiu o tratamento e que tinha, de fato, que haver sexo, mas que sempre foi feito pela entidade. Vale destacar que nem só mulheres teriam sido abusadas. O marido da vítima também teria sofrido investidas.

Inclusive, foi apontado pela estudante que o público do terreiro eram mulheres jovens e bonitos, em sua maioria. “Ele escolhe, ou melhor, ‘as entidades’. Ele queria me separar do meu marido. Dizia que as meninas não podiam ter relacionamentos”. Ela revela que os poucos esposos não sabiam o exato teor do tratamento. “Éramos ameaçadas a não falar. Ficávamos muito cegas”. Vale destacar que Oli é casado e tem filhos.

Doloroso

Segundo a vítima que conversou com o Opção, tudo tem sido muito doloroso [a voz dela, durante a entrevista, estava embargada]. Os supostos estupros ocorreram com outras vítimas, inclusive menores, dentre elas uma dos 16 aos 19 anos. Segundo a estudante, todos ainda acreditariam nele, se ele estivesse sempre “incorporado”, no ato.

Defesa

A advogada Mariana Costa cuida do caso das 18 vítimas, nesse momento. Ela confirmou o relato da estudante e reforçou.

“É um pai de santo, que utilizava das entidades para obter vantagens sexuais. Fazia elas acreditarem que a ascensão no terreiro, com vantagens espirituais, viria com atos sexuais com as entidades dele e até com ele. As entidades, inclusive, diziam para se aproximarem dele”.

Segundo a defensora, todas que faziam o tratamento sexual precisavam deles [as entidades] para aflorar a espiritualidade, que estava ligada à sexualidade.

Conforme ela, se condenado, ele poderá ser enquadrado nos crimes de violência sexual mediante fraude. Em alguns casos, que envolveram menores ou que houve força bruta, trata-se de estupro. A defesa requereu o mandado de prisão.

A Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), do Centro, confirmou ter feito o registro do caso, na terça, 25. Porém, foi repassado que esta não irá se pronunciar, uma vez que a demanda foi encaminhada para a 2ª Deam, no Jardim Curitiba.

Delegacia

Como as diligências chegaram à 2a Deam nesta quarta-feira, 26, a delegada Cássia Sertão diz que ainda está colhendo os depoimentos, pois são muitas mulheres. Apesar disso, ela afirma que as supostas vítimas têm contado as mesmas histórias. “Usava a entidade e fazia as vítimas crerem que teriam que fazer a prática sexual, inclusive menores, encaminhadas a DPCA”.

Sobre a informação de fuga ou do dinheiro recolhido no terreiro, a delegada não confirmou. Ela também disse que o homem possui dois endereços em Goiânia. Para o mandado de prisão ainda são necessárias mais análises, explicou a delegada.

Foi tentado contato, também, com o próprio suspeito. Porém, o telefone cai direto na caixa de mensagens.

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