Outro desfecho para o último ato

Falar sobre suicídio não coloca a ideia na cabeça, isto é um mito. O melhor modo de descobrir se alguém tem pensamentos de suicídio é lhe perguntando

 

A persistência da memória | Salvador Dalí, 1931

A persistência da memória | Salvador Dalí, 1931

Cristina Vianna
Especial para o Jornal Opção

Início do semestre, os estagiários já estão postando mensagens otimistas sobre o fim do ano e a formatura, sobre como é bom ser psicólogo sem nunca ter sido. Fico sorrindo. Estão cursando o último ano, estágio em Psicologia, fase de treinamento profissional. Meus estagiários fazem atendimentos em situação de emergência e crise. Combinamos de conversar sobre o filme Gênio Indomável. Isto antes da notícia, da notícia do último ato. Do último ato de Robin Williams.

Cada um de nós tem seus filmes preferidos dele. Quem não curtiu o clássico Uma babá quase perfeita? Eu gosto mesmo de Gênio Indomável e sou da geração que assistiu Sociedade dos Poetas Mortos no cinema. Nestes filmes os personagens são terapeuta e professor, e sua prática é subversiva e revolucionária. Robin Williams marcou seu público com personagens dramáticos e cômicos que arrancaram risadas sinceras, lágrimas amargas e doces. Eis que então, por todo mundo houve choque e surpresa, tristeza e comoção quando a notícia chegou fatal.

Difícil mesmo é assumir que a gente não perdoa quem decide tirar a própria vida. Lidamos ainda com o suicídio por meio do julgamento moral. Interpretar o suicídio como um ato de coragem ou de covardia simplifica sua complexidade. Lamentar a perda e julgar o que irá acontecer com o suicida após sua morte também não ajuda a refletir seriamente sobre o caso. O suicídio é um problema de saúde e um problema social, complexo e resultado de múltiplos fatores. Na pesquisa clínica do professor Marcelo Tavares da UnB, pessoas que fazem tentativas graves, com danos médicos, relatam sobrecarga emocional, experiência de sofrimento psíquico insuportável, do qual sentem a necessidade definitiva e imediata de alívio. Esta morte é evitável, considerando que esses estados tendem a ser transitórios e podem ser transformados com escuta e tratamento adequados.

Desde 1990, a Organização Mundial de Saúde (OMS) reconhece o suicídio como uma questão de saúde pública e estimula que os países-membros desenvolvam programas preventivos relacionados com políticas públicas. A OMS estima dados globais para o suicídio, em torno de 1 milhão de mortes por ano. Em termos epidemiológicos, na maioria dos países, o suicídio está entre as dez causas mais comuns de morte, na população em geral. Para cada suicídio há, em média, cinco ou seis pessoas próximas ao falecido que sofrem consequências emocionais, sociais e econômicas. Pessoas com vidas marcadas por um evento extremo como o suicídio são consideradas sobreviventes.

É importante saber que dois fatores estão mais relacionados ao risco de suicídio: a maioria das pessoas que cometeu suicídio tinha um transtorno mental diagnosticável e o comportamento suicida é mais frequente em pacientes psiquiátricos. Em suicídios consumados, a depressão é o diagnóstico mais comum. Tentativas de suicídio são mais comuns do que suicídios consumados. O que muitas pessoas não sabem é que tentativas de suicídio podem ser prevenidas, principalmente se for levado em conta que, de modo geral, pessoas com comportamento suicida comunicam seus pensamentos e intenções suicidas.

O melhor modo de descobrir se uma pessoa tem pensamentos de suicídio é perguntando para ela. Falar a respeito de suicídio não coloca a ideia na cabeça das pessoas – isto é um mito. Muitas ficam agradecidas e aliviadas de poder falar, abertamente, a respeito desse dilema sobre o qual estão se debatendo no momento ou sobre o qual já se ocuparam, no passado. Se você conhece alguém que tentou suicídio ou tem pensado em se matar, você deve orientar esta pessoa a buscar ajuda profissional, psiquiátrica e psicológica. Você pode colaborar para prevenir o risco de suicídio e para mudar o desfecho do que poderia ser o último ato.

Cristina Vianna é doutora em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasília, psicoterapeuta e professora universitária.

Uma resposta para “Outro desfecho para o último ato”

  1. Avatar Henrique disse:

    Belo texto Cris, me fez lembrar das supervisões em plantão psicológico.
    Abraço.

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