Os últimos 46 sonhos de uma vida quase efêmera

Nem mesmo os ponteiros do relógio, avançando sempre em direção ao fim, impediram que Stephen Sutton realizasse os seus desejos e ajudasse outros jovens com câncer. Ele arrecadou cerca de R$ 12 milhões para a caridade. De uma vida tão efêmera a um ato tão perpétuo

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Entre os muitos sonhos de Stephen Sutton, pular de paraquedas era um deles | Foto: Reprodução

 

“Meu coração está explodindo de orgulho, mas rompido de dor pelo meu corajoso, altruísta e inspirador filho que faleceu dormindo nas primeiras horas desta quarta-feira. […] Nós todos sabemos que ele nunca será esquecido, seu espírito vai viver em tudo o que ele alcançou e foi compartilhado com muitos. Amor, sua mãe”.

A vida é tão rara que às vezes  quase me esqueço. Quase me esqueço também de que são tantas as razões que podem despedaçá-la. Mas algumas coisas me fazem lembrar — como um sopro inesperado que vem só para nos recordar da nossa fragilidade. O inglês Stephen Sutton foi um desses sopros.

Aos 15 anos, ele foi diagnosticado com câncer. Essa doença que também é um sopro, mas que muito me assombra! Stephen deixou este mundo na quarta-feira — talvez para virar estrela no céu infinito, mas isso já não sei dizer. Ele tinha apenas 19 anos, um ano a menos do que eu. Isso assusta. E muito! A vida, em toda sua ingratidão, lhe negou o direito de viver essa primeira década com a leveza que merecia.

Mas penso que se não fosse a dor, se não fossem os fardos, se não fosse a tristeza, também não seríamos exatamente os mesmo. Stephen foi mais do que sua doença. Ele não deve ser lembrado somente por estar doente, mas por ser o que era — um jovem corajoso e forte. O câncer era uma parte pequena perto do todo, mas que ajudou — mesmo que injustamente — a constituir esse todo. Ele não estava morrendo com câncer, estava vivendo com câncer. 

Stephen foi um desses sopros que me fizeram lembrar não só da nossa fragilidade, mas da nossa grandeza enquanto seres humanos — da grandeza que podemos fazer aos outros se assim decidirmos. Ele transformou sua dor em grandeza, primeiro para si mesmo e, depois, para outras almas. Depois de ser diagnosticado como paciente terminal, Stephen elaborou uma lista com 46 sonhos. Pequenas grandes coisas como pular de paraquedas e de bungee jump, fazer uma tatuagem, ir à Disney e tocar bateria na Royal Albert Hall.

Se a vida é rara, que seja vivida. E ele provavelmente viveu nos seus últimos meses mais do que muitas pessoas conseguem viver em toda uma vida. Mas, talvez, seu maior desejo, pelo qual será lembrado, não foi só para si, mas para outros jovens que viviam na pele a mesma dor que ele. Por meio de uma campanha em sua página no Facebook, Stephen arrecadou cerca de R$ 12 milhões para uma instituição de caridade, a Teenage Cancer Trust.

Stephen nos deixou, mas deixou seu legado. Mesmo diante da dor e das idas e vindas aos hospitais, ele reuniu forças, viveu e quis levar sorrisos a quem, talvez, já não tivesse motivos para sorrir. Em sua caminhada efêmera — como toda vida o é — Stephen fez algo grande e que será lembrado. Ele nos mostrou que em nossa existência — e não importa o quão curta seja — podemos fazer algo de bom para o mundo. E, sinceramente, nem precisa ser grande, basta que seja grande para quem se faça. Só isso já bastaria.

Mas Stephen foi grande sim, em uma vida (quase) efêmera. Como as borboletas, que depois que viram borboletas, não vivem mais do que alguns meses, mas ainda assim não deixam de embelezar o mundo ao seu redor, a passagem de Stephen por esse mundo foi bela.

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