O Sentido da Quarta-Feira de Cinzas em T.S. Eliot

Em Ash Wednesday, o grande poeta anglo-americano T. S. Eliot (1888-1965) conseguiu esgar├ºar a realidade humana por meio da imagina├º├úo moral, abrindo caminho para poemas posteriores, como aqueles que comp├Áem os ÔÇ£Quatro QuartetosÔÇØ. Temos, por assim dizer, uma “caminhada em espiral do Purgat├│rio ao Para├¡so”

T.S. Eliot, autor dos poemas “Terra desolada”, “Homens ocos”, “Quarta-feira de Cinzas” e “Quatro Quartetos”

Antes de lermos ÔÇ£Quarta-feira de CinzasÔÇØ, na tradu├º├úo de Ivan Junqueira, vejamos um dos coment├írios elucidativos do historiador e cr├¡tico americano Russell Kirk (1918-1994) ao poema, presente na obra ÔÇ£A Era de T.S. EliotÔÇØ:

“Quarta-Feira de Cinzas” segundo Russell Kirk

Russell Kirk, biografo de Eliot

O feito de Eliot em Ash Wednesday era exatamente expressar a experi├¬ncia transcendente sob nova forma. N├úo estava simplesmente renovando velhas formas: o que importava para aqueles que o compreenderam ou quase o compreenderam era o fato dele relacionar a pr├│pria experi├¬ncia do sonho superior, ao ÔÇ£sonho mais sublimeÔÇØ, ├á realidade percebida pela imagina├º├úo moral. Embora n├úo admitisse o impulso prof├®tico, falava com autoridade: vira com os olhos da mente, sentira com profunda emo├º├úo. Empregando antigos s├¡mbolos, renovara-lhes a liga├º├úo com o homem contempor├óneo. Por interm├®dio da contri├º├úo, a culpa poderia ser purificada ou consumida pelo fogo. A ÔÇ£d├║bia face de esperan├ºa e desesperoÔÇØ poderia ser deixada para tr├ís. O Verbo ainda poderia ser ouvido no mundo; renunciando aos desejos da carne, Gerontion poderia se tornar Gerontius; bem superior a Grishkin com sua promessa de ÔÇ£beatitudes pneum├íticasÔÇØ, poderia ser detectado um verdadeiro brilho de imortalidade, enquanto a sublime Senhora se persigna.

As vis├Áes infernais de Eliot foram aceitas como descri├º├Áes v├ílidas da realidade do s├®culo XX, donde se pode concluir que as vis├Áes purgatoriais deveriam ser levadas a s├®rio. Tinha realizado o que eminentes eclesi├ísticos de sua ├®poca n├úo conseguiram: relembrar a sua era que o mito poderia ser verdade, uma express├úo simb├│lica das coisas permanentes da realidade experimentada em todos os tempos. Nas palavras de Voegelin, ÔÇ£Uma verdade cujo s├¡mbolo se tornou obscuro e suspeito n├úo pode ser redimida por concess├Áes da experi├¬ncia que originalmente p├┤s em perigo os s├¡mbolos. O retorno produzir├í a pr├│pria exegese (…) e a linguagem exeg├®tica far├í com que os s├¡mbolos fiquem novamente transl├║cidosÔÇØ.

(KIRK, Russell. A Era de T.S. Eliot ÔÇô A imagina├º├úo moral no s├®culo XX. Trad. M├ícia Xavier de Brito. S├úo Paulo: ├ë Realiza├º├Áes, 2011. pp. 324-35)

***

QUARTA-FEIRA DE CINZAS (1930)

T. S. Eliot

(Tradução: Ivan Junqueira)

I

Porque não mais espero retornar
Porque não espero
Porque não espero retornar
A este invejando-lhe o dom e àquele o seu projeto
Não mais me empenho no .empenho de tais coisas
(Por que abriria a velha águia suas asas?)
Por que lamentaria eu, afinal,
O esvaído poder do reino trivial?

Porque não mais espero conhecer
A vacilante gl├│ria da hora positiva
Porque não penso mais
Porque sei que nada saberei
Do ├║nico poder fugaz e verdadeiro
Porque não posso beber
Lá, onde as árvores florescem e as fontes rumorejam,
Pois lá nada retorna à sua forma

Porque sei que o tempo ├® sempre o tempo
E que o espa├ºo ├® sempre o espa├ºo apenas
E que o real somente o ├® dentro de um tempo
E apenas para o espa├ºo que o cont├®m
Alegro-me de serem as coisas o que são
E renuncio à face abençoada
E renuncio à voz
Porque esperar não posso mais
E assim me alegro, por ter de alguma coisa edificar
De que me possa depois rejubilar

E rogo a Deus que de nós se compadeça
E rogo a Deus porque esquecer desejo
Estas coisas que comigo por demais discuto
Por demais explico
Porque não mais espero retornar
Que estas palavras afinal respondam
Por tudo o que foi feito e que refeito não será
E que a sentença por demais não pese sobre nós

Porque estas asas de voar já se esqueceram
E no ar apenas são andrajos que se arqueiam
No ar agora cabalmente exíguo e seco
Mais exíguo e mais seco que o desejo
Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo
Ensinai-nos a estar postos em sossego.

Rogai por n├│s pecadores agora e na hora de nossa morte
Rogai por n├│s agora e na hora de nossa morte.

    II

Senhora, três leopardos brancos sob um zimbro
Ao frescor do dia repousavam, saciados
De meus braços meu coração meu fígado e do que havia
Na esfera oca do meu crânio. E disse Deus:
Viverão tais ossos? Tais ossos
Viverão? E o que pulsara outrora
Nos ossos (secos agora) disse num cicio:
raças à bondade desta Dama
E à sua beleza, e porque ela
A meditar venera a Virgem,
É que em fulgor resplandecemos. E eu que estou aqui
dissimulado
Meus feitos ofereço ao esquecimento, e consagro meu amor
Aos herdeiros do deserto e aos frutos ressequidos.
Isto ├® o que preserva
Minhas vísceras a fonte de meus olhos e as partes indigestas
Que os leopardos rejeitaram. A Dama retirou-se
De branco vestida, orando, de branco vestida.
Que a brancura dos ossos resgate o esquecimento.
A vida os excluiu. Como esquecido fui
E preferi que o fosse, tamb├®m quero esquecer
Assim contrito, absorto em devoção. E disse Deus:
Profetiza ao vento e ao vento apenas, pois somente
O vento escutará. E os ossos cantaram em uníssono
Com o estribilho dos grilos, sussurrando:

Senhora dos silêncios
Serena e aflita
Lacerada e indivisa
Rosa da mem├│ria
Rosa do oblívio
Exânime e instigante
Atormentada tranq├╝ila
A ├║nica Rosa em que
Consiste agora o jardim
Onde todo amor termina
Extinto o tormento
Do amor insatisfeito
Da aflição maior ainda
Do amor já satisfeito
Fim da infinita
jornada sem termo
Conclusão de tudo
O que não finda
Fala sem palavra
E palavra sem fala
Louvemos a Mãe
Pelo Jardim
Onde todo amor termina.

Cantavam os ossos sob um zimbro, dispersos e alvadios,
Alegramo-nos de estar aqui dispersos,
Pois uns aos outros bem nenhum fazíamos,
Sob uma árvore ao frescor do dia, com a bênção das areias,
Esquecendo uns aos outros e a n├│s pr├│prios, reunidos
Na quietude do deserto. Eis a terra
Que dividireis conforme a sorte. E partilha ou comunhão
Não importam. Eis a terra. Nossa herança.

    III

Na primeira volta da segunda escada
Voltei-me e vi lá embaixo
O mesmo vulto enrodilhado ao corrimão
Sob os miasmas que no f├®tido ar boiavam
Combatendo o dem├┤nio das escadas, oculto
Em dúbia face de esperança e desespero.

Na segunda volta da segunda escada
Deixei-os entrançados, rodopiando lá embaixo;
Nenhuma face mais na escada em trevas,
Carcomida e ├║mida, como a boca
Imprestável e babugenta de um ancião,
Ou a goela serrilhada de um velho tubarão.

Na primeira volta da terceira escada
Uma t├║mida ventana se rompia como um figo
E al├®m do espinheiro em flor e da cena pastoril
A silhueta espada├║da de verde e azul vestida
Encantava maio com uma flauta antiga.
Doce ├® o cabelo em desalinho, os fios castanhos
Tangidos por um sopro sobre os lábios,
Cabelos castanhos e lilases;
Frêmito, música de flauta, pausas e passos
Do espírito a subir pela terceira escada,
Esmorecendo, esmorecendo; esforço
Para al├®m da esperan├ºa e do desespero
Galgando a terça escala.

Senhor, eu não sou digno
Senhor, eu não sou digno

mas dizei somente uma palavra.

IV

Quem caminhou entre o violeta e o violeta
Quem caminhou por entre
Os vários renques de verdes diferentes
De azul e branco, as cores de Maria,
Falando sobre coisas triviais
Na ignorância e no saber da dor eterna
Quem se moveu por entre os outros e como eles caminhou
Quem pois revigorou as fontes e as nascentes tornou puras

Tornou fresca a rocha seca e solidez deu às areias
De azul das esporinhas, a azul cor de Maria,
Sovegna vos

Eis os anos que permeiam, arrebatando
Flautas e violinos, restituindo
Aquela que no tempo flui entre o sono e a vigília, oculta

Nas brancas dobras de luz que em torno dela se embainham.
Os novos anos se avizinham, revivendo
Atrav├®s de uma faiscante nuvem de l├ígrimas, os anos
resgatando
Com um verso novo antigas rimas. Redimem
O tempo, redimem
A indecifrada visão do sonho mais sublime
Enquanto ajaezados unic├│rnios a essa de ouro conduzem.

A irm├ú silenciosa em v├®us brancos e azuis
Por entre os teixos, atrás do deus do jardim,
Cuja flauta emudeceu, inclina a fronte e persigna-se
Mas sem dizer palavra alguma

Mas a fonte jorrou e rente ao solo o pássaro cantou
Redimem o tempo, redimem o sonho
O indício da palavra inaudita, inexpressa

At├® que o vento, sacudindo o teixo,
Acorde um coro de murm├║rios

E depois disto nosso exílio

    V

Se a palavra perdida se perdeu, se a palavra usada se gastou
Se a palavra inaudita e inexpressa
Inexpressa e inaudita permanece, então
Inexpressa a palavra ainda perdura, o inaudito Verbo,
O Verbo sem palavra, o Verbo
Nas entranhas do mundo e ao mundo oferto;
E a luz nas trevas fulgurou
E contra o Verbo o mundo inquieto ainda arremete
Rodopiando em torno do silente Verbo.

Ó meu povo, que te fiz eu.

Onde encontrar a palavra, onde a palavra
Ressoará? Não aqui, onde o silêncio foi-lhe escasso
Não sobre o mar ou sobre as ilhas,
Ou sobre o continente, não no deserto ou na úmida planície.
Para aqueles que nas trevas caminham noite e dia
Tempo justo e justo espaço aqui não existem
Nenhum sítio abençoado para os que a face evitam
Nenhum tempo de j├║bilo para os que caminham
A renegar a voz em meio aos uivos do alarido

Rezará a irmã velada por aqueles
Que nas trevas caminham, que escolhem e depois te desafiam,
Dilacerados entre estação e estação, entre tempo e tempo, entre
Hora e hora, palavra e palavra, poder e poder, por aqueles
Que esperam na escuridão? Rezará a irmã velada
Pelas crianças no portão
Por aqueles que se querem imóveis e orar não podem:
Orai por aqueles que escolhem e desafiam

Ó meu povo, que te fiz eu.

Rezará a irmã velada, entre os esguios
Teixos, por aqueles que a ofendem
E sem poder arrepender-se ao pânico se rendem
E o mundo afrontam e entre as rochas negam?
No derradeiro deserto entre as ├║ltimas rochas azuis
O deserto no jardim o jardim no deserto
Da secura, cuspindo a murcha semente da maçã.

Ó meu povo.

VI

Conquanto não espere mais voltar
Conquanto não espere
Conquanto não espere voltar

Flutuando entre o lucro e o prejuízo
Neste breve trânsito em que os sonhos se entrecruzam
No crep├║sculo encruzilhado de sonhos entre o nascimento e a
morte
( Abençoai-me pai) conquanto agora
Já não deseje mais tais coisas desejar
Da janela debruçada sobre a margem de granito
Brancas velas voam para o mar, voando rumo ao largo
Invioladas asas

E o perdido coração enrija e rejubila-se
No lilás perdido e nas perdidas vozes do mar
E o quebradiço espírito se anima em rebeldia
Ante a arqueada virga-áurea e a perdida maresia
Anima-se a reconquistar
O grito da codorniz e o corrupio da pildra
E o olho cego então concebe
Formas vazias entre as partas de marfim
E a maresia reaviva o odor salgado das areias

Eis o tempo da tensão entre nascimento e morte
O lugar de solidão em que três sonhos se cruzam
Entre rochas azuis
Mas quando as vozes do instigado teixo emudecerem
Que outro teixo sacudido seja e possa responder.

Irmã bendita, santa mãe, espírito da fonte e do jardim,
Não permiti que entre calúnias a nós próprios enganemos
Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo
Ensinai-nos a estar postos em sossego
Mesmo entre estas rochas,
Nossa paz em Sua vontade
E mesmo entre estas rochas
Mãe, irmã
E espírito do rio, espírito do mar,
Não permiti que separado eu seja
E que meu grito chegue a Ti. 

 

 

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