O que é isso, “companheiro” Weintraub? “Nós”, zebras gordas?

Não foi só ofensivo o ministro nos chamar de zebras gordas, mas errôneo dizer que professores em dedicação exclusiva cumprem 8 horas em sala de aula

Diego Tarley Ferreira Nascimento*

No último dia 26 de setembro de 2019, o Ministro da Educação, Abraham Weintraub, disse que é preciso “atacar a zebra mais gorda, que é o professor de uma federal, com dedicação exclusiva, que dá oito horas de aulas por semana e ganha de R$ 15 mil a R$ 20 mil por mês.”

O que pretendo esclarecer nesse artigo é o conjunto de atribuições dos professores de Universidades Públicas que o senhor ministro Weintraub demonstra desconhecer, apesar dele também ser professor, na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desde 2014, ou seja, um “companheiro” de profissão. Acredito que seja oportuno demonstrar para a sociedade, e talvez até explicar para o próprio senhor ministro da Educação, que um professor universitário atua nas áreas de ensino, pesquisa, extensão e gestão.

No âmbito do ensino, o professor não apenas “dá oito horas de aulas por semana”, como informado pelo ministro, mas, na verdade, cumpre entre 8 e 12 horas em sala, ministrando aulas na graduação; e caso ele também atue na pós-graduação (mestrado, doutorado), essa carga horária pode alcançar 14 horas semanais, ou mais. Porém, para ministrar uma aula, é preciso planejá-la e avaliar a aprendizagem dos alunos, o que envolve o dobro ou mais de horas semanais para o estudo do conteúdo, a organização dos slides, a elaboração e a correção de atividades avaliativas, etc. Além disso, as atividades de ensino também envolvem a orientação e a avaliação de trabalhos de conclusão de curso de graduação, dissertações de mestrado e teses de doutorado. Pensem o tempo gasto para ler e fazer a análise crítica de uma tese de 400 páginas antes de ir para a banca de defesa de doutorado…

A pesquisa envolve a coordenação e participação em projetos de pesquisa e desenvolvimento científico e tecnológico, pelos quais muitas vezes se arrecadam recursos financeiros para a compra de equipamentos e de insumos para as Universidades e para o pagamento de bolsas para os alunos, em nível de graduação (iniciação científica) e pós-graduação. Após investigarem, os professores precisam dar publicidade aos resultados de suas pesquisas, escrevendo livros, capítulos e artigos que são apresentados em eventos ou publicados em revistas nacionais e internacionais. Além da produção e divulgação científica, os professores também atuam na condição de consultores em suas respectivas áreas do saber, emitindo pareceres em projetos, relatórios e artigos.

No contexto da extensão, os professores trabalham em contato direto com a comunidade, proferindo palestras, participando de audiências públicas, dando entrevistas em programas de televisão e rádio, organizando eventos, ministrando cursos e oficinas e prestando serviços gratuitos à sociedade. Apenas a título de exemplo, há a prestação de serviços de saúde, por meio do Hospital das Clínicas a Universidade Federal de Goiás.

Em último lugar, porém não menos importante, os professores também atuam na gestão (coordenador, diretor, pró-reitor, reitor etc.), além de uma infinidade de atribuições administrativas, como participação em reuniões, representações e atuação em comissões de processos administrativos.

Ao atuar em todas essas esferas, os professores são responsáveis pela formação de profissionais nas diferentes áreas do conhecimento (ensino), pela produção e divulgação de conhecimento científico e tecnológico (pesquisa), pela prestação de serviços para a sociedade (extensão) e até pelo próprio funcionamento das Universidades (gestão).

Dessa forma, não foi apenas ofensivo o ministro da Educação nos chamar de zebras gordas, mas certamente errôneo dizer que professores doutores e em regime de dedicação exclusiva cumprem apenas 8 horas em sala de aula. Aliás, a fala do ministro foi indevida, primeiramente, porque o último salário bruto de Abraham Weintraub como professor universitário estar justamente na faixa entre 15 e 20 mil reais, conforme indicado pelo Portal da Transparência (http://www.portaltransparencia.gov.br/servidores/5506210), e, segundo, pelo fato do próprio apresentar um raquítico currículo na Plataforma Lattes (http://lattes.cnpq.br/5940134985399027).

Portanto, ao invés de caçar zebras nas Universidades Federais, talvez seja mais oportuno que o Abraham Weintraub reflita a própria atuação como professor na UNIFESP e como Ministro da Educação, de modo a buscar a manutenção e melhoria educação superior pública.

E para não deixar de fazer menção à Paralisação Nacional da Educação nos dias 02 e 03 de outubro, deixo a seguinte mensagem:

* Diego Tarley Ferreira Nascimento é professor da Universidade Federal de Goiás

Uma resposta para “O que é isso, “companheiro” Weintraub? “Nós”, zebras gordas?”

  1. Avatar Selma Marsson disse:

    Ótimo artigo, bem esclarecedor! Só faço uma observação: o último salário dele como professor não deve ter sido de 15/20 mil reais, pois o que aparece no site da transparência é referente a março,quando já estava no ministério. Aliás, ele está licenciado desde final de 2018, por isso o salário acima do normal para um professor que foi admitido há apenas 5 anos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.