O jornalista que inspirou “Animal Farm”, de Orwell

Filme  “Mr. Jones”, da realizadora Agnieszka Holland, conta um provável encontro de Gareth Jones com o escritor George Orwell, que teria inspirado o livro “Animal Farm”

Gareth Jones, o primeiro jornalista a revelar a fome na URSS nos anos 30, é filme em Berlim. Foto: Reprodução


Por Rui Martins*
De Berlim

¨A grande fome na URSS nos anos 30, causadora de milhões de mortos, foi um terrível crime humanitário de Stalin, muito pouco conhecido. Hoje, com a realização desse filme, é como se os fantasmas das vítimas tenham vindo para pedir justiça. O jornalista Gareth Jones era alguém muito inteligente corajoso, embora um tanto ingênuo, tanto que acabou sendo assassinado na Manchúria, onde fazia outra grande reportagem, com menos de 30 anos, por um agente soviético¨, conta a realizadora polonesa Agnieszka Holland.

Ela aproveitou para ressaltar a importância do trabalho dos jornalistas livres, mas alertou para o mal causado pela imprensa corrupta e pelos jornalistas vendidos. A democracia só pode funcionar com uma imprensa livre. Entretanto, no mundo de hoje a informação pode ser alterada e controlada pelas redes sociais da Internet. Para ela, Stalin foi um dos maiores assassinos da história, mas acabou se tornando um herói por ter ganhado a guerra contra Hitler.

O filme conta um provável encontro de Gareth Jones com o escritor George Orwell, que teria inspirado o livro “Animal Farm” (“A Revolução dos Bichos”, em português) , escrito no final dos anos 30 mas só publicado em 1945, graças ao sucesso de 1984.

Em março de 1933, o jornalista galês Gareth Jones tomou um trem de Moscou para Kharkov, na Ucrânia. Desembarcou numa pequena estação e partiu a pé numa viagem pelo país onde estemunhou, em primeira mão,os horrores da fome.

Por toda parte, há pessoas mortas e em todos os lugares encontram-se policiais e agentes do serviço secreto soviético, encarregdos de impedir que notícias sobre essa catástrofe da fome sejam divulgadas ao público em geral. A coletivização forçada da agricultura por Stalin tinha provocado miséria e ruína, conta Gareth Jones, a política agrícola de Stalin tinha sido um fracasso.

Apoiado por Ada Brooks, uma repórter do New York Times, em Moscou, Jones consegue levar essas notícias chocantes ao Ocidente, desmentindo seu rival, o jornalista americano pró-Stálin Walter Duranty, ganhador em 1933 do Prêmio Pulitzer, que, mais tarde, foi contestado.

Filmado na Polônia, na Escócia e em locações originais na Ucrânia.

Rui Martins, de Berlim, convidado pelo Festival Internacional de Cinema.

5 respostas para “O jornalista que inspirou “Animal Farm”, de Orwell”

  1. Avatar Walterson Almeida disse:

    O filme informa, em seu final, que o Pulitzer do Walter Duranty nunca foi contestado.

  2. Avatar Alexandre Pessôa disse:

    Caro Rui,

    Coincidentemente eu havia acabado de reler a revolução dos bichos e, curioso para saber mais sobre Orwell, encontrei um livro chamado Churchill & Orwell – A luta pela liberdade (Thomas E. Ricks). Lá, no que me parece uma pesquisa cautelosa sobre a vida dos dois, a informação de que Orwell poderia ter sido influenciado por Jones para criar Animal Farm parece bem longe da realidade. Posso tranquilamente tomar como uma licença poética da realizadora. Mas nem as datas batem. Pois, três anos depois do “dito encontro” com Jones, Orwell estava na Espanha, filiado ao Poum (grupo trotskista) lutando contra os Facistas. As experiências desse episódio ele imortalizou em LUTANDO NA ESPANHA, lançado em 1938… então, me parece no mínimo contraditório que Orwell tenha se influenciado, ou mesmo tenha se encontrado com Jones, e mesmo assim foi pra Espanha, lutar ao lado dos Comunistas. De lá, inclusive, saiu fugido, quando soube que Moscou mandou os Stalinistas “dar fim” a todos os Trotskistas, não só do Poum. Documentos secretos russos, tornados públicos décadas depois, mostram que o nome de Orwell estava listado como um dos que deveriam ser eliminados. Então, o filme, me parece, usa de licenças poéticas, para contar a melhor história da cabeça dos seus realizadores. Mas se afasta bastante do que parece ser a verdade. Bola de neve, inclusive, me parece um pouco o próprio Orwell, talvez bem intencionado, mas que se vê caçado pelos seus próprios “camaradas”… os registros históricos das datas também não batem mesmo. Pois tudo indica que Orwell só passou a se dedicar Animal Farm em 1943… e o livro não saiu na esteira do sucesso de 1984… saiu em 1945, pelo menos 4 anos antes de 1984. E a citação de Ada à Jones de “o grande irmão” me parece o cúmulo da forçação de barra… mas como já disse; “licença”… assisti ao filme Mr. Jones ontem, por coincidência 3 dias depois de acabar a leitura de Churchill & Orwell, então, acabei ficando bem incomodado com as incongruências e licenças nele. Não posso dizer que gostei. Achei fraco. Já o livro, é sensacional e recomendo.

    O que lamento é que na sua resenha, parecem haver uma série de informações que me parecem, no mínimo, passíveis de checagem. E como no seu texto tem uma frase que fala exatamente disso; “Entretanto, no mundo de hoje a informação pode ser alterada e controlada pelas redes sociais da Internet.”, acho que seria bom um segundo olhar seu sobre as informações que constam no texto.

    Cordialmente,

    Alexandre.

    • Avatar LUIS EDMUNDO SCOTT disse:

      Resenha de livro ou de filme é opinião. O olhar é do autor da resenha. Está posto. O “segundo olhar” é de cada um. Aproveito para deixar o meu olhar: fatos marcantes influenciam pessoas e essas influências podem transparecer décadas depois.

  3. Avatar AR Souto disse:

    Filme magnífico. Mostra a doença do socialismo real na consecução do Holodomor. Este guarda proporções similares — sórdidas e hediondas — com o igualmente doentio nacional-socialismo, no empreendimento do Holocausto. Queiram notar que a doença chamada socialismo — seja qual for, venha de onde vier — supera qualquer pandemia da história da humanidade.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.