Antes de se tornar uma das principais lideranças estudantis brasileiras durante a ditadura militar, Honestino Monteiro Guimarães era um menino de Itaberaí, no interior de Goiás, que gostava de ler, acompanhava os debates políticos e frequentava os comícios realizados na cidade. Aos 13 anos, deixou o município com a família e foi para Brasília, mas levou consigo uma formação que, segundo o biógrafo Benedito Magno Vieira, ajudaria a moldar sua visão de mundo.

Mais de cinco décadas depois de seu desaparecimento, a história do goiano voltou aos cinemas. O filme “Honestino”, dirigido por Aurélio Michiles e com Bruno Gagliasso no papel do líder estudantil, estreou em 13 de agosto. A produção mistura documentário e ficção, utilizando cartas, poemas, imagens de arquivo e depoimentos de familiares, amigos e companheiros de militância para reconstruir a trajetória do jovem que chegou à presidência da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Para Benedito, recuperar essa história também significa recolocar Itaberaí no mapa de uma das páginas mais importantes da história política brasileira. “Eu gostei demais da história. O cara é extraordinário. Teve um papel tão importante na vida política, na história do Brasil, na década de 60 e 70, e é da minha cidade”, afirma o escritor, que pesquisa a vida de Honestino desde 1998.

A origem em Itaberaí

Honestino nasceu em Itaberaí, em 28 de março de 1947. Era filho de Benedito Monteiro Guimarães e Maria Rosa Leite Monteiro. A família deixou Goiás em 1960, quando Brasília ainda começava a se consolidar como capital federal. A mudança colocaria o jovem em contato com um ambiente político que se tornaria decisivo para sua trajetória.

Antes disso, porém, Honestino viveu parte da infância e da adolescência em Itaberaí. Segundo Benedito informou ao Jornal Opção, estudou no município e era conhecido pela inteligência e pelo interesse pelos livros.

“Ele estudou aqui. Aqui, ele conversava em política. Ele lia muito”, conta o biógrafo.

A influência familiar também teria sido importante. O pai, Benedito Monteiro, tinha pouca formação escolar, mas era considerado por familiares e conhecidos um homem inteligente e interessado em política. Trabalhava no cartório e também tinha relação com o antigo Cine Edson, em Itaberaí. Foi ele, segundo Benedito, quem incentivou os filhos a ler.

“O Ernestinho lia muito. […] Ele foi influenciado pelo pai. O Benedito Monteiro era socialista”, relata.

Do lado materno, havia outra referência política. Benedito cita o avô de Honestino, Belarmino Leite, como um homem identificado com ideias socialistas. Para o biógrafo, essa combinação entre ambiente familiar, leitura e observação das desigualdades sociais ajudou a formar a consciência política do futuro líder estudantil.

“Começou a questionar essa questão das desigualdades. Aí ele passou a ser um socialista”, afirma.

A documentação histórica confirma que Honestino deixou Itaberaí ainda jovem e mudou-se para Brasília em 1960. Na nova capital, estudou no Colégio Elefante Branco, instituição marcada pela intensa mobilização política de estudantes e professores.

O estudante brilhante que virou liderança

Aos 17 anos, Honestino foi aprovado em primeiro lugar no vestibular para Geologia da Universidade de Brasília (UnB), em 1964. O resultado acadêmico foi apenas o começo de uma trajetória que rapidamente o levaria à política estudantil.

Ele passou a atuar no movimento estudantil, presidiu o diretório acadêmico de Geologia e chegou à Federação dos Estudantes da Universidade de Brasília (FEUB). Também integrou a Ação Popular (AP), organização de esquerda com forte presença no movimento estudantil. Mais tarde, a organização se transformaria na Ação Popular Marxista-Leninista (APML).

Para Benedito, a primeira prisão foi um dos momentos decisivos para a transformação de Honestino em uma liderança nacional.

“Ele foi preso […] e, a partir desse momento, passou a ser uma grande liderança”, afirma.

A repressão acompanhou sua ascensão política. Honestino foi preso diversas vezes. Em 1968, após a invasão da UnB pelas forças de segurança, voltou a ser detido. No mesmo ano, depois da decretação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), passou à clandestinidade. A partir daí, sua atuação política passou a ocorrer sob constante perseguição.

A documentação histórica registra que, mesmo perseguido, Honestino continuou ligado ao movimento estudantil e à direção da UNE. Ele acabou se tornando presidente da entidade em um dos períodos mais duros da repressão política brasileira.

O presidente da UNE na clandestinidade

Honestino não era apenas mais um militante. Sua atuação o colocou no centro da resistência estudantil ao regime militar.

Depois da prisão e da perseguição aos dirigentes estudantis, passou a atuar clandestinamente. Segundo documentos históricos, entre 1969 e 1971 viveu em São Paulo com a companheira Isaura Botelho Guimarães, enquanto exercia atividades de dirigente da UNE e militava na AP. Em 1970 nasceu Juliana, sua única filha.

Para Benedito, havia em Honestino uma característica que o diferenciava: a capacidade de mobilização por meio da palavra.

Benedito Magno Vieira, presidente da Academia Itaberina de Letras | Foto: Arquivo

“Ele queria fazer uma revolução, mas não através de arma, mas através de um discurso, das palavras, através de manifestações”, afirma.

A atuação política, entretanto, não significava ausência de risco. A repressão se intensificava e a clandestinidade passou a fazer parte da rotina do jovem dirigente.

Segundo o biógrafo, Honestino chegou a permanecer escondido em uma propriedade rural ligada à família em Itaberaí. Benedito também relata que ele teria tido a oportunidade de deixar o país, mas optou por permanecer no Brasil porque acreditava na possibilidade de uma mobilização popular capaz de derrubar o regime.

“Ele teve um passaporte falso nas mãos e não quis fugir. Ele achou que o lugar dele era aqui”, conta Benedito.

O relato ajuda a dimensionar o grau de convicção política de Honestino. Para o jovem militante, segundo o biógrafo, a resistência deveria reunir estudantes, trabalhadores urbanos e trabalhadores do campo.

O desaparecimento

Em 10 de outubro de 1973, aos 26 anos, Honestino foi preso no Rio de Janeiro. Depois disso, nunca mais foi visto.

Documentos reunidos pelas comissões da verdade confirmam que ele foi preso por órgãos de segurança do Estado e desapareceu na mesma época. O caso foi posteriormente reconhecido oficialmente como uma morte ocorrida em contexto de violência praticada pelo Estado durante a ditadura.

O que aconteceu com o corpo, entretanto, permanece sem resposta.

Ao longo das décadas, diferentes hipóteses foram levantadas sobre o destino dos restos mortais de Honestino. Entre elas estão relatos de que ele poderia ter sido levado para o mar ou enterrado clandestinamente. Nenhuma dessas versões resultou na localização do corpo.

“Uma das hipóteses é que levou ele de avião […] e jogou ele no alto-mar. Isso é uma hipótese. Ele foi enterrado em algum lugar também, que ninguém sabe, e essa é uma hipótese também”, relata Benedito.

A própria Comissão Nacional da Verdade concluiu que as circunstâncias da morte e o paradeiro do corpo permaneciam desconhecidos e recomendou a continuidade das investigações para localização dos restos mortais e identificação dos agentes envolvidos.

Reprodução da portaria concedendo anistia a Honestino Guimarães (Foto: Reprodução)

Para a família, a ausência do corpo tornou o luto ainda mais doloroso.

A mãe de Honestino, Maria Rosa, passou décadas buscando informações sobre o filho. O pai morreu ainda em 1968, poucos anos antes do desaparecimento. Segundo Benedito, a família viveu durante anos com a expectativa de descobrir o que havia acontecido.

“Além de perder um filho, né? Uma mãe… Foi difícil”, resume o biógrafo.

Uma história que não terminou

O desaparecimento não apagou a presença de Honestino na memória política brasileira. Seu nome permaneceu associado à resistência estudantil e à luta contra a ditadura.

A história também continuou sendo contada pela própria família. A mãe escreveu livros sobre o filho, entre eles “Duas Vidas” e “Honestino, o Bom da Amizade e a Não-Cobrança”, segundo Benedito. Outras obras também foram produzidas sobre o líder estudantil.

Agora, a trajetória chegou ao cinema.

“Honestino”, dirigido por Aurélio Michiles, combina documentário e ficção. A produção utiliza materiais de arquivo, cartas e poemas, além de depoimentos de pessoas próximas ao líder estudantil. Bruno Gagliasso interpreta Honestino nas cenas ficcionais. O filme estreou nacionalmente em 13 de agosto.

O longa também resgata a dimensão pessoal do personagem, além do militante. A relação com a companheira, a filha e os amigos aparece ao lado da trajetória política e da repressão sofrida durante a ditadura.

A produção chega aos cinemas em um momento simbólico. Em 10 de agosto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu no Palácio da Alvorada familiares de mortos e desaparecidos políticos para uma sessão do filme. Na ocasião, foi apresentada uma nova certidão de óbito de Honestino, que passou a reconhecer sua morte como não natural, violenta e causada pelo Estado brasileiro.

No filme, Honestino é interpretado por Bruno Gagliasso | Foto: Reprodução

O reconhecimento, porém, não encerra a história. O corpo de Honestino continua desaparecido.

A memória de Itaberaí

É nesse ponto que a história de Honestino volta para Goiás.

Benedito Magno Vieira trabalha atualmente na produção de um novo livro sobre o personagem. O projeto, que inicialmente seria uma biografia tradicional, ganhou outro formato. O título previsto é “A Cidade do Honestino”, obra que pretende relacionar a trajetória do líder estudantil à própria história de Itaberaí.

“Eu mudei um pouco o foco do livro. O meu livro vai chamar ‘A Cidade do Honestino’. Aí eu estou fazendo muita coisa de Itaberaí, da história, da economia”, explica.

A pesquisa começou em 1998, quando Benedito teve contato com Maria Rosa, mãe de Honestino. Desde então, o personagem passou a fazer parte de sua trajetória como pesquisador e escritor.

“Passei a ser um fã da memória dele, do que ele fez”, afirma.

Mais do que recuperar a trajetória de um personagem político, o trabalho busca devolver a Honestino uma dimensão que, para Benedito, acabou ficando esquecida: a de um jovem que nasceu no interior de Goiás, cresceu em uma família marcada pela leitura e pelo debate político e, antes de desaparecer, chegou a ocupar uma das posições mais importantes do movimento estudantil brasileiro.

“Poderia ter sido presidente”

É impossível saber o que teria acontecido se Honestino tivesse sobrevivido à ditadura. Ele morreu aos 26 anos, antes de concluir a carreira de Geologia e quando ainda estava no início da vida política.

Benedito, entretanto, imagina um futuro possível para o personagem.

“Ele seria um grande geólogo e um grande político”, afirma. Para o biógrafo, Honestino poderia ter chegado ao Congresso Nacional, ao ministério ou até mesmo à Presidência da República.

A especulação tem origem, segundo ele, em algo que Honestino dizia ainda menino em Itaberaí: que, quando crescesse, queria ser presidente do Brasil.

A história tomou outro rumo.

O menino que saiu de Itaberaí aos 13 anos tornou-se presidente da UNE, enfrentou a ditadura, passou anos na clandestinidade e desapareceu depois de ser preso por agentes de segurança do Estado. Não deixou um túmulo nem um local onde a família pudesse prestar homenagem.

Deixou, porém, uma história.

E, 53 anos depois de seu desaparecimento, essa história voltou às telas do cinema — e também às ruas da cidade onde tudo começou.