O Brasil precisa de uma política nacional para o Feijão
15 setembro 2026 às 16h09

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Marcelo Eduardo Lüders, presidente do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe)
O Feijão não pode ser lembrado apenas quando falta produto ou os preços aumentam. Por sua importância econômica, social, cultural e nutricional, precisa ocupar posição permanente na agenda do Brasil.
Produzido em grande parte por pequenos e médios agricultores, o Feijão está presente em praticamente todas as regiões. Mesmo assim, seus produtores convivem com custos elevados, riscos climáticos, oscilações de preços e margens apertadas.
A principal expectativa em relação ao próximo governo é construir uma política nacional para o Feijão, com continuidade e visão de longo prazo. Ela deve integrar crédito, seguro, pesquisa, assistência técnica, armazenagem, inteligência de mercado, compras públicas, consumo e abertura de mercados.
O produtor assume o risco, mas não controla o preço
Os custos de produção permanecem elevados. Ao mesmo tempo, o Feijão é sensível tanto à seca quanto ao excesso de chuva, especialmente durante a colheita.
Um dos maiores gargalos está na falta de previsibilidade comercial. O agricultor decide plantar sem saber qual será o preço na colheita. Quando há redução da oferta, os preços podem subir, mas quem perdeu produção não possui volume para aproveitar a valorização. Quando há boa safra, os preços podem cair rapidamente e comprometer a renda.
A falta de armazenagem agrava o problema. Muitos agricultores precisam vender quando a oferta é maior e os preços estão pressionados. Sem rentabilidade, não existe segurança alimentar duradoura: preços artificialmente baixos desestimulam o próximo plantio.
Crédito, seguro e proteção de renda
Pronaf e Pronamp são fundamentais, mas anunciar recursos não é suficiente. O crédito precisa estar disponível, chegar no momento correto e ter condições compatíveis com a cultura. Além do custeio, é necessário financiar irrigação, reservação de água, armazenagem, secagem, beneficiamento, energia, máquinas e tecnologias de redução de risco.
Pequenos e médios produtores precisam de apoio para elaborar projetos. O seguro rural, por sua vez, deve ter orçamento previsível, cobertura ampliada, valores atualizados e indenizações ágeis.
Precisamos proteger a renda. O seguro agrícola cobre principalmente perdas físicas causadas pelo clima, mas não resolve uma queda severa dos preços. O produtor necessita de instrumentos que combinem proteção da produção e da receita, além de preços mínimos atualizados e operacionais.
Adaptação climática permanente
Seca, calor excessivo e chuvas intensas já fazem parte da realidade do campo. É preciso atualizar o Zoneamento Agrícola de Risco Climático, melhorar as previsões regionais e financiar conservação do solo, irrigação, reservação de água, drenagem, secagem e cultivares mais tolerantes.
Não existe uma solução única para todo o Feijão brasileiro. Pesquisa, crédito, seguro e assistência técnica devem considerar cada região e perfil de produtor, reconhecendo quem reduz riscos sem impor exigências inviáveis aos agricultores de menor porte.
Tecnologia precisa chegar à propriedade
O Brasil possui conhecimento para elevar a produtividade, mas muitas soluções não chegam às propriedades ou não se adaptam à escala dos pequenos e médios produtores. É preciso fortalecer pesquisa, extensão rural, unidades demonstrativas e programas coletivos. Por meio de cooperativas e associações, máquinas, armazenagem, classificação e agricultura de precisão podem ser compartilhadas. Produtividade deve significar também estabilidade, qualidade, eficiência e renda líquida.
Informação, comercialização e compras públicas
O produtor precisa de informações confiáveis sobre área plantada, estoques, qualidade, preços e consumo. Também precisamos avançar na classificação comercial, rastreabilidade, armazenagem regional, comercialização coletiva, contratos equilibrados e integração entre os elos da cadeia.
As compras públicas oferecem oportunidades, especialmente para a agricultura familiar, mas não representam contratos garantidos. Desde 2026, pelo menos 45% dos recursos federais repassados ao PNAE devem ser destinados à aquisição de alimentos da agricultura familiar. Para aproveitar essa abertura, produtores e organizações precisam estar preparados para as chamadas públicas, com documentação, qualidade, logística e regularidade de entrega.
Dentro das regras aplicáveis, os cardápios institucionais também podem estimular Feijões regenerativos, aproximando segurança alimentar, agricultura familiar e recuperação do solo.
Consumo, inovação e novos mercados
O Feijão precisa ser reposicionado como alimento contemporâneo, nutritivo, sustentável e alinhado à procura por proteínas vegetais. Há espaço para produtos prontos, porções individuais, farinhas e ingredientes.
Essa inovação não pode ser penalizada. É necessário preservar o benefício fiscal da cesta básica para apresentações práticas de Feijão que mantenham sua natureza essencial e seu valor nutricional.
Também devemos valorizar os Feijões carioca, preto, caupi, vermelho, branco, rajado e as variedades regionais. Origem, identidade territorial, rastreabilidade e agricultura regenerativa podem gerar valor. Campanhas como o Viva Feijão devem aproximar o alimento das novas gerações, combinando nutrição, praticidade e cultura alimentar.
No exterior, a exportação não pode ser apenas uma saída para excedentes. Conquistar mercados exige estratégia, protocolos sanitários, promoção e regularidade de oferta. O Brasil pode exportar grãos, ingredientes e produtos de maior valor agregado.
Do gerenciamento de crises à construção do futuro
Pronaf, Pronamp, Proagro, Seguro Rural, Política de Garantia de Preços Mínimos, PAA, PNAE, pesquisa e assistência técnica devem ser fortalecidos. Precisam ser revistos preços mínimos desatualizados, interrupções no orçamento do seguro, burocracia e baixa capilaridade da assistência técnica.
O setor pede condições justas para competir, administrar riscos e investir. O governo deve aproveitar a Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Feijão do MAPA e implementar o Movimento Pró-Feijão com metas, responsabilidades e acompanhamento.
O Brasil precisa deixar de administrar crises periódicas e construir uma cadeia do Feijão organizada e inovadora, capaz de gerar renda, aumentar o consumo, abastecer a população com preço justo e conquistar mercados. Valorizar o Feijão é valorizar quem produz, proteger a segurança alimentar e reconhecer um dos alimentos mais importantes da identidade brasileira.

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