No dia do voto feminino, André Fortaleza diz não ter sido machista ao cortar microfone de Camila Rosa

Na ocasião, Fortaleza chegou a alegar que “não existe machismo na Câmara de Aparecida” e “que as mulheres só não estão na política porque não querem”

Gabriela Macêdo
Ysabella Portela
Rafaela Rocha

Durante a sessão plenária desta quinta-feira, 24 – dia em que se comemora os 90 anos do voto feminino -, a Câmara de Goiânia contou com a presença do presidente da Câmara de Aparecida de Goiânia, André Fortaleza (MDB), como convidado. Ao assumir a tribuna livre, o presidente da Casa de Aparecida utilizou o microfone para resgatar o caso em que interrompeu o microfone da vereadora Camila Rosa (PSD). Na ocasião, Fortaleza chegou a alegar que “não existe machismo na Câmara de Aparecida” e “que as mulheres só não estão na política porque não querem”.

“Temos 24 vereadores na Câmara de Aparecida. Lá não tem machismo, se tivesse, projeto de relevância da mulher não passava. Naquele momento, na condição de presidente, me senti desrespeitado e cortei o microfone dela, assim como cortei o de vários e que não teve repercussão”, justificou o presidente da Casa de Aparecida. Ele ainda alegou não fazer diferença entre homens e mulheres dentro do parlamento e que não cometeu um crime ao cortar a palavra da vereadora.

“Assédio?  É ridículo, mas vou deixar para a Justiça. Quem falou que foi assediada vai provar”, afirmou, além de completar que “as mulheres já provaram que tem capacidade; se não estão na politica, é porque não querem”.  Com a saída do presidente Romário Policarpo (Patriota) do plenário, pela ocorrência de demais agendas, a presidência da sessão ficou a cargo da vereadora Aava Santiago. No entanto, os ânimos ficaram acirrados. Vereadores dividiram opiniões a favor e contra André Fortaleza. O vereador Ronilson Reis chegou a gritar pedindo que o presidente da Casa, Romário Policarpo, retomasse o controle da presidência. “Presidente, assuma a mesa. Não deixe essa anarquista aí”, se referindo a Aava Santiago.

Em resposta, Aava o respondeu dizendo que ela também foi eleita para a mesa diretora, podendo, dessa forma, ocupar este espaço. Policarpo chegou a justificar sua agenda, pontuando que, como presidente, tem outras agendas, e que, por isso, as vereadoras Aava Santiago e Leia Klebia poderiam assumir a Presidência quando preciso for. “Elas têm total liberdade para comandar a sessão na minha ausência e tomar as decisões”, afirmou. Aava, inclusive, fez questão de fornecer direito de resposta a Fortaleza, após todos os pronunciamentos realizados, ao enfatizar que não iria cortar a palavra do parlamentar “como ele teria feito com Camila, em Aparecida”.

“No dia que nós celebramos 90 anos de conquista do voto feminino, o senhor saiu do seu município, que deve ter muito mais coisa para fazer, e vem na câmara de Goiânia insultar as mulheres e o parlamento. Volte pra sua casa”, disparou Aava. Ao ter a palavra, a vereadora Lucíola do Recanto (PSD), que convidou a vereadora Camila Rosa, defendeu a vereadora de Aparecida de Goiânia.

“Não a convidei para esclarecer os fatos, pois os fatos já estavam bem esclarecidos, mas principalmente para que ela recebesse nosso apoio perante esse crime que foi cometido. Se não fosse crime, não teria repercussão. Não estaríamos debatendo isso”, declarou. A pessedista, inclusive, chegou a rebater uma fala específica de Fortaleza, em que ele afirmou que mulheres eram usadas como laranjas em partidos: “o senhor chama a gente de laranja, mas o senhor é uma bela mexerica”.

Na defesa de Fortaleza, o vereador Sargento Novandir também se manifestou, caracterizando Fortaleza como um “defensor das mulheres” que está sendo “injustiçado”. “Tenho certeza que se as pessoas tivessem estudado sua trajetória política, não estariam falando isso. Não estaria sendo crucificado. Parabéns pela coragem. Tenho certeza que o senhor não é contra as mulheres. A politicagem existe e as pessoas tiram proveito dessa situação”, declarou Novandir.

Microfone cortado

No início deste mês, autoridades foram acionadas para denunciar a violência política envolvendo a vereadora Camila Rosa (PSD) e o presidente da Câmara de Vereadores de Aparecida de Goiânia, André Fortaleza (DEM), quando este interrompeu a vereadora que fazia uso da palavra. No ocorrido, a pessedista  argumentava acerca de uma publicação que ela teria feito nas redes sociais. Durante a fala, o presidente da Câmara ordenou que o microfone da parlamentar fosse desligado, interrompendo o que seria dito. 

A vereadora defendia uma maior participação na política quando o caso ocorreu. O motivo da discussão foi a cota de gênero, que limita a quantidade mínima de parlamentares do gênero “minoritário” da chapa, seja do gênero feminino ou masculino. No discurso na Câmara Municipal, durante o retorno das atividades, o presidente teria se posicionado contra a legislação vigente.

Com o caso, a Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres, do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (SNPM/MMFDH) acionou a Procuradoria Geral do Estado (PGE), a Secretaria de Segurança Pública, a Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos e mais outros órgãos para investigar o ocorrido. Camila ainda chegou a denunciar o presidente no Tribunal Regional Eleitoral (TRE-GO).

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