A neurocirurgia que pode curar a obesidade

DSC_0632 (1)Ledismar José da Silva

A obesidade é um problema de saúde pública, crescente em todo o mundo, que acomete, atualmente, 300 milhões de pessoas. Aproximadamente metade da população adulta brasileira tem excesso de peso; enquanto 12,5% dos homens e 16,9% das mulheres apresentam obesidade. O Brasil ocupa a 77ª posição no ranking que define o país mais “gordo” do mundo. Além disso, o excesso de peso representa o quinto fator de risco de morte em nível mundial, matando cerca de 2,8 milhões de adultos anualmente, como consequência de diversas complicações e comorbidades advindas desta enfermidade.

As projeções para os próximos anos indicam que em 2015 o mundo terá 2,3 bilhões de pessoas com excesso de peso e 700 milhões de obesos. Para 2030, os dados se tornam ainda mais alarmantes: estima-se que aproximadamente 3,3 bilhões de adultos apresentarão sobrepeso ou obesidade.

O sobrepeso e a obesidade também estão associados a distúrbios psicológicos, incluindo depressão, distúrbios alimentares, imagem corporal distorcida e baixa auto-estima. A prevalência de ansiedade e depressão é de três a quatro vezes mais altas em indivíduos obesos.

Com base nesses fatos, há, no meio científico, propostas para que a obesidade seja incluída na lista de diagnóstico de doenças psiquiátricas na próxima edição do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM). Tem origem multifatorial, incluindo fatores neuroendócrinos, psíquicos, intestinais e genéticos;

causa desequilíbrio metabólico-energético, predispondo ao acúmulo de tecido adiposo, o que se relaciona com diminuição da qualidade de vida, comorbidades e redução da expectativa de vida.

A opção terapêutica mais eficaz, na atualidade, é a cirurgia bariátrica. No entanto, além de não controlar todos os fatores etiopatogênicos, principalmente no que concerne ao aspecto neuropsiquiátrico, esse procedimento apresenta altas taxas de recidiva a longo prazo e pode causar complicações graves, como as nutricionais, neurológicas, psicológicas e psiquiátricas.

A estimulação cerebral profunda (neuromodulação), técnica já consagrada no tratamento de distúrbios do movimento, como doença de Parkinson e doenças psiquiátricas refratárias, surge como outra opção terapêutica promissora para o controle da obesidade. Consiste na implantação de eletrodos acoplados a um marca passo que envia impulsos elétricos para o cérebro. Esse tratamento neurocirúrgico atua no hipotálamo lateral e ventromedial, centros da fome e da saciedade, respectivamente, podendo suprimir ou diminuir o apetite, propiciando, consequentemente, perda de peso.

O hipotálamo faz parte do sistema límbico que é responsável pelo comportamento emocional e desta forma pode atuar no aspecto neuropsiquiátrico associado a obesidade, como a compulsão e ansiedade. Existem atualmente várias pesquisas em andamento tentando comprovar sua segurança e eficácia. Até o presente momento este procedimento é considerado experimental e apenas pode ser realizado em caráter de pesquisa científica. Mas, não demora, será a solução para que se revertam os índices deste que já está sendo considerado o mal do século.

*Ledismar José da Silva é neurocirurgião e professor de Medicina da PUC-GO

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