“Não estamos surpresos. Estamos envergonhados”, diz enfermeiro do Samu

Profissional relata que desconfiança existia entre servidores, mas, como direcionamento de pacientes é de competência exclusiva da regulação, pouco podiam fazer 

Desde que o Ministério Público de Goiás (MPGO) deflagrou uma operação para investigar um suposto esquema envolvendo médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, donos de UTIs e hospitais e até bombeiros da capital, a vida de servidores do Samu virou de ponta cabeça.

Isso porque mais de uma dezena de servidores do órgão foi presa, todos acusados de se beneficiar do conluio que direcionava pacientes atendidos pelo Atendimento de Urgência, que possuíssem planos de saúde, a determinadas Unidades de Terapia Intensiva, fraudando a respectiva regulação do acesso aos leitos de UTI.

As acusações do MPGO são tão graves que envolvem até encaminhamentos desnecessários de pacientes — ou seja, pacientes atendidos pelo Samu que não demandavam internação em unidade de terapia intensiva eram desnecessariamente internados.

Para simular a gravidade do estado de saúde desses pacientes, os envolvidos no esquema chegavam a usar o método de ‘rebaixamento artificial de consciência do paciente’, obtida com a aplicação de medicamentos de efeito sedativo, para poder mantê-lo na UTI de hospitais particulares.

Na tarde desta quarta-feira (22/6), o Jornal Opção se encontrou com alguns servidores do Samu de Goiânia para tentar entender como funcionava o esquema e, principalmente, qual a abrangência dentro da instituição. Todos eles preferiram não se identificar por razões óbvias: receio de que haja retaliação superior.

Um enfermeiro fez questão de ressaltar que não tem notícia de nenhum colega de profissão envolvido. Segundo ele, se havia algum tipo de direcionamento, era a partir das Unidades de Suporte Básico (USB), que fazem atendimentos gerais. Essas ambulâncias são compostas apenas por técnicos em enfermagem e motorista — que são a maior parte dos presos na operação.

“Nas Unidades de Suporte Avançado (USA), atendemos os casos mais críticos, que, por vezes, nem chegam a ir para os hospitais. Quando conseguimos reanimar o paciente, solicitamos ao departamento de regulação uma vaga em alguma UTI. Não decidimos nada”, explicou.

De fato, todos insistiram em um ponto: o “x” da questão está na regulação. É neste setor que médicos responsáveis avaliam no sistema quais hospitais têm vagas em suas UTIs para que o encaminhamento seja feito ao mais próximo. A fraude, segundo o MPGO, estaria justamente aí. O critério passava a ser quais eram os hospitais e UTIs “aliados” para que o paciente fosse enviado para lá.

“Como não temos nenhum acesso à relação, apenas cumprimos as ordens. Mas, estamos sempre ligados nos rádios e é claro que desconfiamos de algo. Direcionamentos para determinados hospitais, sempre os mesmos…”, complementou.

O enfermeiro citou um caso específico, de um hospital que foi alvo de busca e apreensão, tendo seu diretor sido preso na operação. “Não é uma surpresa para nós. Tínhamos suspeitas que isso acontecia, mas nunca passou pela nossa cabeça que colegas estivessem envolvidos diretamente”, lamentou.

Questionado pela reportagem se a suspeita de direcionamento era recorrente, por que ninguém havia denunciado nada ou procurado algum superior até então, ele explica que era uma questão de hierarquia: “Quem vai criar problema com o chefe, que poderia estar envolvido, diga-se de passagem.”

Não obstante, ele cita a rotina pesada de enfermeiros que, muitas vezes, têm até quatro empregos. “Não adianta, as pessoas acabam sendo omissas porque há outras preocupações”, sustentou e completou visivelmente abatido: “Não estamos surpresos. Estamos envergonhados. ”

Foi ventilada, mais de uma vez, a possibilidade de alguns servidores, em especial os motoristas das ambulâncias, terem sido ameaçados a aceitar o esquema. “Ou eram pagos como parte, ou para ficarem calados”, elucubrou. Contudo, o MPGO não divulgou nada neste sentido. As investigações correm em segredo de Justiça.

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