“Na sexta eu era policial; na segunda, estava desempregado”: ex-Simve relata período de Marconi Perillo
02 outubro 2026 às 08h00

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“Na sexta-feira eu era policial; na segunda-feira estava desempregado, procurando emprego.” Mais de uma década depois, um ex-integrante do Serviço de Interesse Militar Voluntário Estadual (Simve) ainda se recorda de como terminou sua passagem pela Polícia Militar de Goiás. Ele foi um dos milhares de homens incorporados temporariamente às forças de segurança durante o governo de Marconi Perillo (PSDB) e aceitou contar ao Jornal Opção, sob condição de anonimato, como era a rotina de quem foi colocado nas ruas para exercer atividade policial sem ter os mesmos salários, direitos e, segundo ele, estrutura dos militares efetivos.
O relato ganha relevância em meio à campanha eleitoral de 2026. Candidato novamente ao governo de Goiás, Marconi Perillo tem colocado a valorização das forças de segurança entre as prioridades defendidas para uma eventual nova gestão. Para quem esteve dentro da estrutura policial durante uma de suas administrações, entretanto, a palavra “valorização” traz lembranças diferentes.
O ex-Simve conta que ingressou no programa após passar por um processo seletivo que, segundo ele, incluía prova escrita, redação, exames clínicos e médicos, teste de aptidão física, investigação da vida pregressa e avaliação de títulos. Depois da seleção, veio o curso de formação e, posteriormente, o trabalho nas ruas.
As atribuições se aproximavam daquelas exercidas pelos policiais militares. A remuneração, não. “O salário de um policial do Simve, na época, estava em torno de R$ 1,3 mil, enquanto um policial soldado de primeira classe estava ganhando na faixa de R$ 4 mil. A gente melhorava o nosso salário fazendo serviços extras. Então, o salário era quase um terço do policial soldado de primeira classe”, relata.
Segundo ele, os integrantes do programa eram classificados como soldados de segunda classe. A diferença em relação aos militares efetivos, porém, não era percebida apenas no contracheque.
“Se sentir valorizado é bem difícil, porque, além de ser temporário, às vezes a gente não tinha armamento equiparado ao dos outros policiais. Eles tinham pistola calibre .40; nós tínhamos revólver .38 ou .357.”
O ex-integrante afirma que também havia limitações na quantidade de equipamentos disponibilizados para o trabalho. Segundo ele, em algumas ocasiões, faltavam até itens básicos para quem precisava sair às ruas.
“Não tinha colete para todo mundo e não tinha viatura para todo mundo. Tinha vezes em que a gente precisava trabalhar a pé porque não tinha viatura. Fazia o serviço policial ostensivo a pé. Então tinha essas questões de desvalorização.”
Mesmo trabalho, direitos diferentes
O Simve foi instituído em Goiás em 2012 como uma alternativa para reforçar o efetivo das forças de segurança. O programa permitia o ingresso temporário de egressos das Forças Armadas para atuar na Polícia Militar e no Corpo de Bombeiros.
Durante o curso de formação, os selecionados recebiam R$ 939,33. Depois de concluírem a etapa, a remuneração passava para R$ 1.341,90. O contingente chegou à casa dos milhares.
Na prática, segundo o entrevistado, os integrantes exerciam atribuições diretamente relacionadas ao policiamento. Tinham poder de polícia e poderiam, inclusive, realizar prisões. Quando o assunto eram direitos e benefícios da carreira, porém, havia diferenças.
“Nós tínhamos poder de polícia, poder de prisão, as prerrogativas do Estado que todo policial tem. Só não tínhamos algumas coisas que os outros policiais tinham. A gente não podia ter promoção por ato de bravura.”
Ele conta que chegou a participar de ocorrências nas quais, caso fosse um militar efetivo, poderia buscar o reconhecimento por ato de bravura.
“Tive algumas ocorrências em que poderia entrar com ato de bravura e não podia. A gente não tinha direito a algumas licenças, não tinha alguns direitos. Mas a prerrogativa para trabalhar nós tínhamos.”
Apesar das diferenças, o entrevistado não renega a decisão de ter participado do Simve. Para ele, o programa representava uma oportunidade de trabalhar na atividade policial. “Teve essa oportunidade. Para quem quis ir, eu quis ir.”
Havia também uma expectativa de que a experiência pudesse ajudá-los futuramente a ingressar definitivamente na corporação. Segundo o ex-integrante, a legislação do programa previa pontuação adicional em concurso de acordo com o período trabalhado. A trajetória, entretanto, foi interrompida.
“Na sexta-feira eu era policial”
Em 2015, o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou inconstitucional a legislação que sustentava o Simve. O entendimento foi de que as atividades desempenhadas pelos integrantes tinham caráter permanente e ordinário e, portanto, deveriam ser exercidas por servidores admitidos mediante concurso público.
O Supremo apontou ainda que a legislação permitia a contratação de até 2,4 mil policiais temporários enquanto havia aproximadamente 1,4 mil candidatos aprovados em concurso no cadastro de reserva.
Depois da decisão, segundo o entrevistado, alguns integrantes ainda permaneceram temporariamente desempenhando funções administrativas. Ele foi deslocado para o Centro de Operações da Polícia Militar (Copom).
Pouco tempo depois, o vínculo chegou ao fim. “Ainda nos mantiveram por dois meses trabalhando administrativamente. Eu fiquei no Copom. Depois disso, todos nós fomos demitidos, vamos dizer assim. Não fomos exonerados porque não éramos estatutários.”
Foi quando viveu uma situação que resume sua passagem pelo programa. “Numa sexta-feira eu era policial; na segunda-feira estava desempregado, procurando emprego.”
A experiência relatada ao Jornal Opção representa a percepção de um dos integrantes do Simve e não necessariamente a de todos que passaram pelo programa. Ainda assim, as diferenças de remuneração e de vínculo entre os temporários e os militares efetivos estavam previstas no próprio modelo adotado pelo Estado.
O relato também se soma a outros episódios ocorridos durante os governos de Marconi que marcaram a relação do Executivo com profissionais da Segurança Pública.
Greve de policiais durou meses
Em 2013, policiais civis iniciaram uma paralisação em busca de melhorias salariais e mudanças na carreira. Entre as reivindicações estavam reajuste, reestruturação da carreira e questões relacionadas ao bônus por produtividade.
A mobilização se prolongou por quase três meses. Segundo registros da época, aproximadamente 90 mil ocorrências deixaram de ser registradas durante a greve.
Em meio ao impasse, o governo Marconi determinou medidas que incluíam o corte de ponto dos servidores que permanecessem paralisados. A questão chegou ao Tribunal de Justiça de Goiás (TJ-GO).
Representantes dos trabalhadores e do governo participaram de negociações, inclusive com intermediação do Ministério Público de Goiás (MP-GO), mas a relação entre o Executivo e a categoria permaneceu tensionada durante o movimento.
O episódio ocorreu durante o terceiro mandato de Marconi e se tornou um dos principais embates de seu governo com os servidores da Segurança Pública.

Reajuste também virou motivo de insatisfação
No ano seguinte, a Assembleia Legislativa aprovou reajustes escalonados para diferentes carreiras da Segurança Pública.
Para policiais militares e bombeiros, o cronograma estabelecia aumento de 18,5% em dezembro de 2014 e outras três parcelas de 12,33%, inicialmente previstas para dezembro de 2015, 2016 e 2017. O calendário, porém, foi alterado.
A parcela prevista para 2015 não foi concedida naquele ano. A Lei estadual nº 19.122/2015 postergou os pagamentos seguintes para dezembro de 2016, dezembro de 2017 e novembro de 2018. Em setembro de 2016, Marconi anunciou a retomada do pagamento da parcela de 12,33%. À época, entidades representativas manifestaram insatisfação com o adiamento.
Os conflitos trabalhistas coexistiram com investimentos realizados nas gestões do tucano. Durante seus governos, foram adotadas medidas como a criação do Comando de Operações de Divisas (COD), construção de unidades prisionais e aquisição de viaturas e outros.



