A crise que assola o clã Bolsonaro e, consequentemente, o PL ultrapassou o continente e chegou à América do Norte após uma forte declaração de Paulo Figueiredo, influencer bolsonarista que conta com mais de 830 mil seguidores. Após o vídeo em que Michelle Bolsonaro expõe a crise com o pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, Paulo destacou que “mulher vota muito mal, principalmente as solteiras”. Além disso, Paulo ainda foi enfático ao questionar sobre o que o PL Mulher tinha feito para mudar a realidade: “Nada.” Flávio Bolsonaro, até o momento, não se pronunciou sobre as falas.

A fala foi feita na última quinta-feira, 25. Segundo Paulo, o vídeo de meia hora em que Michelle afirma que foi “apunhalada” e “humilhada” por Flávio Bolsonaro tirou totalmente o enfoque de temas que deveriam ser trabalhados melhor pela direita: a investigação sobre o Banco Master conduzida pela Polícia Federal que chegou ao então líder do PT no Senado, Jaques Wagner.

Paulo começou o vídeo alfinetando Michelle comparando-a com madrastras más das histórias de desenhos animados. Em determinado momento do vídeo, o jornalista questiona sobre o que o PL Mulher tem feito para ajudar na pré-candidatura de Flávio Bolsonaro.

“Ora, peguem todas as pesquisas, onde o Flávio vai pior é justamente no eleitorado feminista. E agora, a gente tem a presidente do PL Mulher gravando um vídeo, como a gente vai tratar logo mais, dizendo que foi humilhada pelo candidato do PL. Parabéns, bela ajuda”, disse na gravação.

Na continuação dos dizeres, Paulo faz uma linha do tempo sobre as eleições americanas e afirma que, “se você pegar todos os presidentes dos Estados Unidos até hoje e separar demograficamente e só mulher votassem, todos os eleitos teriam sido democratas até hoje, inclusive a Kamala Harris.”

Mulher, em geral, vota muito mal, a única exceção é o Ronald Reagan, que teria ganhado junto às mulheres também na reeleição. Mulher vota estatisticamente muito mal, principalmente mulheres solteiras, mulheres casadas em geral tendem a acompanhar o voto do marido. Mulheres solteiras não, isso que eu tô dizendo, pode arrancar os pentelhos das calcinhas, pode fazer o que você quiser, principalmente os feministas que tem mais pentelhos. Mas eu quero dizer uma coisa a vocês, isso é estatística. Ora, quem lidera hoje o voto feminino? Lula.Quem liderou o voto feminino na última eleição? Lula. Pega pra trás, é sempre a esquerda. E o que o PL Mulher tem feito para melhorar essa história? Rosca. Zero, disse na gravação.

Mas quem é Paulo Figueiredo?

Paulo Figueiredo é neto de João Figueiredo, que foi o último presidente da ditatura militar que governou o país entre 1964 e 1985. O avô de Paulo foi o responsável pela assinatura da “Lei da Anistia” que “perdoou ” opositores ao regime, o que permitiu com que exilados retornassem ao Brasil, ao mesmo tempo que evitou que as autoridades acusadas de tortura respondessem criminalmente pelas suas ações.

Ele caiu nas graças do eleitor bolsonarista ao começar a atuar como comentarista na rádio Jovem Pan, em 2020. Ele foi afastado do cargo em 2021 e demitido dois anos depois, quando já estava sendo investigado por disseminar desinformação. Em 2019, ele chegou a ser detido em Miami, nos Estados Unidos, suspeito de integrar um suposto esquema de propina a dirigentes do BRB em troca de recursos para a construção do Trump Hotel.

Anos antes, inclusive, chegou a ser sócio de Trump na construção do hotel que leva o nome do presidente americano no Rio de Janeiro. Em 2015, em entrevista ao El País, ele afirmou que mantinha uma “relação amistosa” com o empresário.

Além disso, ele é crítico do governo de Lula da Silva e estava atuando junto a Eduardo Bolsonaro nas articulações das tarifas impostas pelo governo americano contra o Brasil. Em 2025, a Procuradoria Geral da República (PGR) denunciou Paulo por propagação de desinformação golpista e antidemocrática no âmbito das investigações da tentativa de golpe de 2022. O nome dele também foi apontado como parte do grupo responsável por incitar militares a participarem da insurreução, segundo relatório do Supremo Tribunal Federal (STF).

Na ocasião, o relator, ministro Alexandre de Moraes, determinou a prisão preventiva do influencer e determinou o cancelamento do passaporte. Como mora nos EUA, ele foi encontrado pela Justiça e passou a ser considerado foragido.

Fala corrobora com momento crítico para o PL

A fala de Paulo não foi o estopim, mas de certo modo contribuiu com a crise que a cada dia parece que estar longe de chegar ao fim dentro do partido. Nesta terça-feira, 30, Michelle causou rebuliço mais uma vez na mídia: ela cogita não sair mais ao Senado e se afastou da presidência do PL Mulher após uma reunião com o presidente nacional da sigla, Valdemar Costa Neto.

Em um comunicado publicado em suas redes sociais, Michelle destacou que a decisão foi tomada para se dedicar de maneira integral aos cuidados de Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar e com problemas de saúde, e da filha do casal. Michelle já vinha diminuindo o ritmo da agenda do PL Mulher para ficar mais próxima do marido. Mas parlamentares próximos à ex-primeira-dama dizem que ela afirmou estar emocionalmente esgotada com os desdobramentos do conflito, especialmente pela repercussão nas redes sociais e pelos impactos do episódio sobre sua família. Apesar da sinalização de desistência, dirigentes do PL e integrantes do núcleo político bolsonarista trabalham para convencê-la a manter a candidatura.

O colunista Igor Gadelha, do Portal Metrópoles, noticiou que o tom da reunião com o presidente do PL não foi dos melhores e que Michelle, inclusive, chegou a sair do encontro decidida a se desfiliar da legenda. Situação que, até o momento, foi revertida após encontro com a governador do DF, Celina Leão (PP), e Damares Alves, onde as duas teriam a convencido de, por ora, deixar apenas a presidência do PL Mulher. A expectativa é que, até as conveções, ela seja convencida a continuar na disputa ao Senado Federal.

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