Com os olhos em autoridades que se beneficiam  com o petrolão, a Procuradoria Geral inicia nova fase de apuração e começou pelo tesoureiro petista

Justiça Federal foi bem sucedida ao relacionar os tesoureiros João Vaccari e Renato Duque, ambos chegados a Lula
Justiça Federal foi bem sucedida ao relacionar os tesoureiros João Vaccari e Renato Duque, ambos chegados a Lula

A. C. Scartezini

Lula ficou mais próximo das investigações do petrolão quando, ao amanhecer a quinta-feira, policiais federais saltaram o portão da casa do tesoureiro do PT, João Vaccari, em Planalto Paulista, bairro elegante da cidade de São Paulo a seis quilômetros do centro, e o levaram à força para depor sobre o roubo de dinheiro para partidos e intermediários na Petrobrás.

Até aquele momento, havia indícios do envolvimento de Vaccari com o escândalo, mas o tesoureiro se recusava a abrir a boca. Ainda naquela manhã, negou-se a abrir a porta da casa à polícia, mas os agentes não fizeram cerimônia. Entraram no peito, vasculharam a casa em busca de provas e ainda levaram o dono ao depoimento na sede paulistana da Polícia Federal.

A investigação de um tesoureiro pelo Ministério Público Federal, com apoio policial, é algo simbólico: procura-se o caixa de uma pessoa, empresa ou instituição. O líder ou responsável pelo tesoureiro que administra o caixa que se cuide. Tudo respingará nele.

Há simbolismo especial no rigor com que agentes cercaram Vaccari, pularam o portão, revistaram a casa e levaram o dono. Comprova-se a determinação com que, aos poucos, a investigação se aproxima de políticos e partidos do petrolão, depois de colocar nas grades empreiteiros suspeitos de corromper agentes públicos na petroleira.

Algo mais simbólico do que a recusa de Vaccari em abrir o portão da casa mesmo diante de um mandado para ser levado a força à policia? Símbolo de arrogância em quem se considera poderoso, acima de qualquer suspeita ou mais igual do que os outros – à George Orwell. Ofendido, Vaccari foi e voltou para casa com a cara braba o tempo todo.

Era a mesma cara feia com que surge diante da imprensa o tesoureiro do PT antes de Vaccari, Renato Duque, igualmente chegado a Lula, porém sempre discretamente. Por sinal, Duque também esteve em evidência na quinta-feira, a propósito da delação premiada de Pedro Barusco, seu antigo gerente quando foi diretor de Serviços da Petrobrás.

Mas não houve coincidência en­tre as duas coisas, a ida de Vaccari à po­lícia e a divulgação do depoimento de Barusco, feito em novembro, quando a Operação Lava Jato prendeu empreiteiros vinculados ao petrolão. Ao revelar a fala de Ba­rus­co, a ideia da Justiça Federal em Cu­ri­tiba, onde corre o petrolão, foi mes­mo relacionar os dois tesoureiros, Vaccari e Duque, diante do público.

Coube a Barusco a informação de que o PT recebeu ao lon­go de 10 anos, entre 2003 e 2013, alguma coisa entre 150 milhões e 200 milhões de dólares como suborno de fornecedores que assinaram 90 contratos de prestação de serviço com a Petrobrás. Desse bolo, 50 milhões de dólares teriam passado por Vaccari.

O período a que se referiu Barusco parte de 2003, ano em que Lula assumiu o governo. Então, o novo presidente retirou o companheiro Duque da tesouraria do PT e o instalou como diretor de Serviços da petroleira. O período se encerra em 2013, um ano depois que o companheiro deixou a diretoria, no governo Dilma.

No entanto, segundo Barusco, Duque deixou a petroleira, mas continuou as receber repasse de dinheiro roubado a cada 15dias. Seria a quinzenada de R$ 50 mil paga em dinheiro vivo. O ex-tesoureiro negou tudo isso diante da imprensa.

Vaccari alegou numa nota lacônica à imprensa que, na PF, “respondi a tudo com transparência”. No entanto, não foi transparente ao negar-se a abrir a portão de casa para os agentes que foram busca-lo. A recusa a receber os policiais foi uma forma de resistir à ação da PF, mesmo que ela não estivesse ali para prendê-lo.

A volta de Vaccari para casa depois de responder ao interrogatório policial justificaria a liberação de sua presença maior na policia. Porém, poderia ser uma cautela do Ministério Público Federal na aproximação a Lula, autor da montagem com Duque que permitiu ao PT arrecadar contribuições durante os 10 anos, a que se referiu Barusco, iniciados em 2003, quando o partido ocupou o Planalto.

Um ano depois, a montagem se reforçou no momento em que o aliado PP também desejou uma diretoria para chamar de sua na petroleira. Lula reforçou o esquema. Por indicação de pepistas, Lula colocou Paulo Roberto Costa, o amigo Paulinho, como diretor de Abaste­ci­mento, onde ficou até 2012. Entrou depois e saiu antes de Duque.

Enquanto esteve lá, o amigo arrecadou fundos para o PP dividir com o PT e o PMDB. Duque e Paulinho foram presos pela Lava Jato em novembro, mas o primeiro ficou apenas três semanas em Curitiba. Mais ligado, a Lula Du­que recebeu habeas corpus do Supremo Tribunal Fe­deral. O segundo conquistou a prisão domiciliar com delações.