Uma simulação em 3D produzida a pedido do Ministério Público Federal (MPF) passou a ser uma das principais bases do relatório da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), que aponta que o ex-presidente Juscelino Kubitschek pode ter sido vítima de uma ação da ditadura militar em 1976 — e não de um simples acidente automobilístico.

O material foi elaborado pelo designer Ricardo Dachtelberg e pelo engenheiro especializado em transportes Sergio Ejzenberg, responsável pelo laudo técnico encomendado pelo MPF. AsJK imagens reconstituem, em diferentes ângulos, o momento da colisão na Rodovia Presidente Dutra, em Resende (RJ), onde JK viajava ao lado do motorista Geraldo Ribeiro.

Na animação, o Chevrolet Opala em que estavam o ex-presidente e o motorista atravessa para a pista contrária diante de um ônibus da Viação Cometa e, em seguida, colide frontalmente com uma carreta. O ponto central da perícia é que, em nenhum momento, o carro toca o ônibus — contrariando a versão oficial sustentada por décadas e reforçada anteriormente pela Comissão Nacional da Verdade.

O estudo conduzido por Ejzenberg revisou laudos produzidos em 1976 e 1996 pelo Instituto de Criminalística Carlos Éboli, da Polícia Civil do Rio de Janeiro. Segundo o engenheiro, as análises originais apresentavam falhas técnicas, omissões, contradições e conclusões baseadas em hipóteses não comprovadas.

Entre as conclusões da perícia, o especialista afirma que não houve excesso de velocidade nem por parte do ônibus nem do carro de JK. O laudo também destaca a ausência de marcas de frenagem do Opala, fator que, segundo o perito, impede descartar uma possível sabotagem do veículo.

Ainda de acordo com o estudo, a dinâmica da colisão não corresponde a um acidente de trânsito comum. O relatório aponta que o automóvel seguiu em direção à pista contrária “sem reação evasiva mínima” do motorista, comportamento considerado incomum pelo especialista.

Apesar disso, o próprio perito afirmou não ser possível confirmar nem eliminar completamente hipóteses como um mal súbito do condutor ou eventual sabotagem. Ele ressaltou, porém, que a investigação foi comprometida pela perda e destruição de provas materiais ao longo dos anos.

As conclusões técnicas passaram a integrar o parecer da historiadora Maria Cecília Adão, documento com mais de 5 mil páginas que está em análise pela CEMDP. O texto sustenta que JK foi morto no contexto da repressão da ditadura militar. Para que essa interpretação se torne oficial, o relatório ainda precisa ser aprovado pelos integrantes da comissão.

Mesmo com os apontamentos da perícia, o MPF decidiu arquivar o caso em 2019 por considerar que não havia elementos suficientes para adoção de novas medidas judiciais. O órgão reconheceu, no entanto, que o ex-presidente era monitorado pela ditadura militar por representar uma importante liderança política e popular da época.

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