Hospital da Criança e do Adolescente foi acordo político entre Zacharias Calil e Ronaldo Caiado

Nova unidade substitui o Materno Infantil, hospital que operou por 50 anos e se tornou referência no atendimento a a crianças e adolescentes, sobretudo na cirurgia de siameses, especialidade que deu ao lugar e a Calil projeção mundial

A viabilização do Hospital da Criança e do Adolescente (Hecad) foi condição para que o médico Zacharias Calil (DEM) aceitasse o convite do atual governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), para entrar na política e fazer parte da chapa que deu a vitória para ambos. O acordo, feito em 2017, foi cumprido. A unidade entrou em operação na semana passada, absorvendo serviços que durante 50 anos foram prestados pelo Hospital Materno Infantil (HMI), onde o agora deputado federal atuou por 35 anos e que lhe deu projeção mundial depois de separar as gêmeas siamesas Larissa e Lorrayne.


Ao Jornal Opção, Zacharias contou que aceitou o desafio de entrar para a vida pública com a condição de que o Estado investisse em um hospital bem equipado para realizar o atendimento de crianças e adolescentes. Caiado aceitou. O compromisso entre os políticos foi reafirmado em 2018, agora com ambos já eleitos – um para chefe do executivo goiano, o outro para a Câmara dos Deputados -, à caminho da solenidade de posse do presidente Jair Bolsonaro (PL). Na ocasião, Zacharias lembra que mostrou para Caiado uma mensagem que tinha acabado de receber do Hospital Materno Infantil. Nela, falava que eles teriam que fechar por não terem medicamentos. Depois da posse, os dois foram ao HMI e viram que as enfermeiras estavam fazendo vaquinha para conseguir comprar medicamento para uma criança que estava tendo crises compulsivas. Ali, Caiado se comprometeu novamente a melhorar a situação daquela unidade pública.


Assim, o Materno foi transformado em Hecad. O Governo de Goiás, por meio da Secretaria de Estado da Saúde (SES), adquiriu o Hospital do Servidor, que antes pertencia ao Instituto de Assistência dos Servidores Públicos do Estado de Goiás (Ipasgo), e transformou neste centro especializado. Zacharias, que ao longo da carreira política não deixou de atender e realizar cirurgias no Materno, inclusive destinando emendas parlamentares para ajudar na melhoria do hospital, agora trabalha no Hospital da Criança e do Adolescente.
“Vamos trabalhar numa estrutura de primeiro mundo. Eu acho que são poucos hospitais no Brasil que tem uma estrutura como aquela. Em Goiás talvez o Órion tenha uma estrutura semelhante”, comemora Zacharias, que é pré-candidato ao Senado Federal. Para Calil, o Hecad é uma conquista médica e também política.

O Materno e as gêmeas siamesas

Mesmo com a moderna estrutura oferecida no Hecad, Zacharias conta que sentiu nostalgia ao deixar a sede Materno Infantil, agora desativado, mas prefere não olhar “no retrovisor”. Apesar de querer manter o foco no presente e no futuro, ele conversou com o Jornal Opção sobre a trajetória no HMI, onde trabalhava desde 1986. Ao longo dessa história, o Materno ficou conhecido nacional e internacionalmente por realizar cirurgia de separação de gêmeos siameses e no tratamento de hemangiomas, muitas delas feita pelo médico pediatra e também deputado federal.

Calil conheceu o Materno Infantil em 1979, pouco depois da inauguração, em 1972. Ele relata que, desde quando estagiava como estudante de medicina, o hospital já apresentava uma infraestrutura muito precária. “Os estudantes não queriam ir para lá porque era muito ruim”, conta. O HMI sempre ofereceu atendimento de urgência, emergência e ambulatorial aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).

Em 1986, já como médico cirurgião pediátrico, Zacharias relata alguns dos inúmeros problemas que o hospital tinha. “Era muito cheio de gambiarra, a campainha do hospital era pendura com esparadrapo. Os armários do centro cirúrgico estavam caindo, enferrujados, o piso era precário. As paredes tinham infiltrações. Quando chovia lá era o caos”, relata. “Lá tem uma fila enorme de crianças com má formações que precisam de cirurgias, mas para isso você tem que ter vaga de UTI, porque não dá para fazer um pós operatório numa enfermaria”, explica.

Com a precariedade da infraestrutura, era difícil até realizar cirurgias, porque não havia UTIs no hospital nem neonatal. Os investimentos vieram aos poucos. “Conseguimos colocar UTI pediátrica depois de muita luta, depois de muita confusão por tentar convencer os governos estaduais. Só nos anos 90 que a gente começou a fazer mais cirurgias complexas, de grande porte”. Contudo, a situação continuava ruim. “Tinha dia que a gente estava operando e a energia caia, tudo desligava. Várias vezes eu terminei a cirurgia tendo que usar a luz do celular”, lembra Calil.

A falta de aparelhos para realizar exames básicos também eram frequente. As vezes uma criança precisava fazer uma tomografia, mas não tinha como. Então, o paciente tinha que ir entubado numa ambulância até outro centro para realizar esse exame.

Nos anos 2000, veio a primeira cirurgia de gêmeos siameses. A mãe adotiva de Larissa e Lorrayne veio a público pedir ajuda para que alguém realizasse a cirurgia. Calil se propôs a fazer o desafio, mesmo com os obstáculos do hospital. “Fizemos a cirurgia com muita dificuldade, pedindo material emprestado. Tinha muita pouca gente acreditando no sucesso daquela cirurgia”, lembra o médico.

Na época, Zacharias convidou o professor da residência médica dele, Célio Pereira, para acompanhar a cirurgia. Calil lembra que Pereira disse que ele era um “louco” por querer realizar aquela cirurgia num hospital como aquele e que operar as gêmeas no Materno era “fazer milagre”. Mas Calil sempre afirmou que o corpo clínico do hospital era muito bom e compensava as dificuldades.

Larissa e Lorrayne eram unidas pelo abdômen e pela pelve, compartilhando rins, estômago, bexiga, intestino grosso, uretra, vagina e ânus. A cirurgia foi um sucesso. Por causa do procedimento, Larissa, ficou apenas com uma das pernas, a esquerda, um rim e o coração dela é do lado direito. A irmã Lorrayne, veio à falecer sete anos depois, em decorrência da paralisia cerebral que tinha e que ocasionou uma embolia pulmonar. Hoje em dia, Larissa quer seguir os passos de Zacharias e cursar medicina.

“A separação de Lorraine e Larissa foi emblemática para Goiás por ter sido a primeira. Na época, não tínhamos orientação da experiência e nem mesmo da literatura médica, que era escassa. Tivemos de estudar a fundo o caso específico, que era muito complexo”, relembra Zacharias.

Depois dessa cirurgia houve algumas reformas, “puxadinhos”, como diz o médico. A procura por cirurgias começou a aumentar. Zacharias relembra que tinha dias que ele fazia de oito a 10 cirurgias por dia, totalizando no mês cerca de 120 operações. Mas mesmo com a repercussão das cirurgias de siameses (já são cerca de 20 na conta de Calil) o hospital continuava a enfrentar muita dificuldade.

Ao ser questionado do por quê de ter continuado no Materno Infantil, mesmo com a situação extremamente precárias e as inúmeras dificuldades, Zacharias declarou que foi por causa da preocupação com as crianças. “Você tem que investir na criança para que ela seja um adulto saudável, com boa educação, e que ela possa ter as oportunidades que eu tive na vida”, concluiu.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.