Os Estados Unidos anunciaram nesta terça-feira, 4, a revogação do visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. De acordo com o Departamento de Estado, a decisão foi tomada em resposta à demora do governo brasileiro em conceder o agrément — autorização diplomática necessária — para a nomeação de Daniel Perez como novo embaixador norte-americano no Brasil.

A medida foi divulgada dez dias após o Itamaraty negar vistos de entrada a dois diplomatas do Departamento de Estado dos EUA. Eles haviam sido mencionados pelo jornal The Washington Post como integrantes de uma estratégia voltada a questionar o sistema eleitoral brasileiro, interpretação rejeitada pelo governo americano. Nos bastidores, integrantes da diplomacia brasileira já consideravam possível uma resposta por parte de Washington.

Segundo o governo dos Estados Unidos, a revogação do visto não representa a expulsão de Maria Luiza Viotti do território americano. A diplomata poderá permanecer no país, mas ficará sem um visto válido. O Departamento de Estado afirmou ainda que o documento poderá ser restabelecido caso o Brasil autorize oficialmente a indicação de Daniel Perez.

Indicado pela Casa Branca em junho, Perez teve sua nomeação aprovada por uma comissão do Senado dos Estados Unidos, mas ainda depende da confirmação do plenário para assumir o posto. O cargo de embaixador americano no Brasil está vago desde janeiro de 2025, após o retorno de Donald Trump à Presidência.

A indicação do parlamentar republicano provocou desconforto no governo brasileiro porque foi anunciada publicamente antes da consulta reservada às autoridades brasileiras, procedimento normalmente adotado em nomeações diplomáticas. O pedido formal de agrément foi encaminhado ao Itamaraty somente semanas depois do anúncio.

Segundo o governo americano, interlocutores brasileiros indicaram que a autorização para Perez só deverá ser concedida após as eleições presidenciais de outubro. Washington afirmou que a reciprocidade orienta sua política diplomática e não descartou novas medidas caso o impasse permaneça.

“Lamentamos a situação em que nos encontramos, mas deixamos muito claro que a reciprocidade é a regra do jogo. Se outro governo não permitir que realizemos nosso trabalho da maneira adequada, responderemos com medidas recíprocas”, afirmou o Departamento de Estado.

Até a publicação desta reportagem, o Itamaraty não havia se pronunciado oficialmente sobre a decisão. Reservadamente, diplomatas brasileiros classificaram a revogação do visto da embaixadora como uma forma de “chantagem”.

Quem é Daniel Perez

Daniel Perez, de 38 anos, preside a Câmara dos Deputados da Flórida e integra o Partido Republicano. Filho de imigrantes cubanos, nasceu em Nova York e mudou-se ainda criança para a Flórida, onde construiu sua carreira política.

Caso tenha a indicação confirmada pelo Senado, Perez será o primeiro embaixador dos Estados Unidos no Brasil desde a saída de Elizabeth Bagley, indicada durante o governo Joe Biden.

Relação entre Brasil e EUA

O episódio ocorre em meio ao agravamento das tensões diplomáticas entre os dois países. Nos últimos meses, a relação foi marcada por disputas comerciais, novas tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros e divergências sobre temas políticos.

Também contribuíram para o desgaste recente a decisão americana de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, além da negativa do Itamaraty em conceder vistos a dois integrantes do Departamento de Estado que viajariam ao Brasil para encontros sobre temas como integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão.

A resposta anunciada nesta terça-feira amplia a crise diplomática entre Brasília e Washington e sinaliza que o impasse em torno da nomeação do novo embaixador dos Estados Unidos poderá gerar novos desdobramentos nas relações entre os dois governos.

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