Goiano trabalha em três empregos, incluindo de gari, para bancar faculdade e se forma usando uniforme: “Realizei meu sonho e o da minha mãe, de ver alguém da família formado”
14 setembro 2026 às 11h50

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“Me lembro que, há 2 anos, você fez uma corrida comigo no app. Te contei minha situação, trabalhando em três empregos, inclusive de gari, para poder me formar enfermeiro. Consegui!”
Essa foi a mensagem que chegou no celular deste jornalista no último sábado de manhã, seguida de algumas fotos de um rapaz sorridente, com um canudo de diploma na mão. Ela foi enviada por Luiz Junio Cardoso, ou simplesmente Junio, de 36 anos, que, no início deste mês, colou grau após concluir o curso de enfermagem em uma universidade de Goiânia.
As vestes escolhidas por Junio para a cerimônia, um uniforme de gari, que ele “mesclou” com a beca, não foram aleatórias. Segundo ele, foram uma resposta àqueles que desacreditavam que chegaria ali. “Me diziam que eu não seria nada”.
O rapaz é natural de Goiânia e, hoje, vive em Goianira. Ele conta que, desde muito cedo, a vida era difícil e que teve que trabalhar para ajudar nas despesas de casa. “Minha mãe se aposentou há pouco tempo. Ela pelejou muito para conseguir se aposentar. Passou a vida todinha costurando. Nunca vi minha mãe em outro serviço além da costura, e ela me ensinou a costurar também. Ajudei minha mãe na minha infância”, conta.
Dona Heracilia, natural da Bahia, no entanto, tinha um sonho: ver os filhos se formarem no ensino superior. O desejo da mãe, segundo Junio, fez com que ele não se contentasse apenas com o certificado do curso técnico que havia concluído.
“Minha mãe mexeu muito comigo nesse sentido, porque eu fiz o curso técnico de enfermagem e já era para eu ficar trabalhando. Trabalhei um tempo na área, mas vi que minha mãe queria me ver com um diploma de faculdade”, lembra.
O sonho pode ter sido postergado, mas nunca foi descartado. Em 2009, Junio foi aprovado em um concurso da Companhia de Urbanização de Goiânia, a Comurg, e, desde então, se dedicou a manter limpas as ruas e os locais públicos da capital. Em 2020, mais de 10 anos depois, decidiu que era hora de retomar o sonho.
“A gente cansa de ser humilhado, maltratado, não tem respeito na rua. Eu, como gari, tive que passar por uns bocados bem feios, fui humilhado por chefes. Então, eu decidi. Falei: ‘Cara, eu não quero mais isso para mim, não. Vai doer, vou sofrer, mas vou estudar’”.
A situação, no entanto, não estava a seu favor. Já com um filho pequeno, que precisa de atenção especial devido ao autismo, e dispondo de poucos recursos para bancar uma faculdade, Junio decidiu assumir mais duas ocupações como forma de aumentar a renda.

Ele conta que registrou sua moto em um aplicativo de corridas e também comprou uma máquina roçadeira. De manhã, das 6h até o fim da manhã, fazia corridas pelo app. Da tarde até a noite, trabalhava na limpeza urbana da cidade e, aos fins de semana, fazia “bicos” de roçagem com a máquina adquirida.
Fiquei um ano juntando dinheiro antes de entrar na faculdade, porque eu não queria correr o risco de começar e parar por falta de dinheiro
Em 2020, Junio ingressou no curso de enfermagem em uma universidade particular de Goiânia, na modalidade semipresencial. Por causa dos três trabalhos que precisou manter para custear o curso e suas despesas, fez um acordo com a ex-esposa para que ela cuidasse do filho durante a graduação.
Mas foi aí que surgiram novas dificuldades. Mesmo se desdobrando para ter tempo de trabalhar como motorista de app, gari e roçador e, ainda assim, assistir às aulas on-line, Junio precisava de tempo para cumprir o estágio. “Eu disse: ‘Olha, eu não estou pedindo o dia inteiro de folga. Estou pedindo para chegar uma hora mais tarde. Vocês têm como me ajudar? É só para eu chegar uma hora mais tarde no serviço’”.
No entanto, segundo ele, alguns dias em que precisava chegar mais tarde passaram a ser descontados, o que significava menos dinheiro no fim do mês. Para conter a situação, o rapaz relata ter feito um acordo com a universidade e, para não precisar mais chegar tarde no trabalho, passou a cumprir horas de aula nos fins de semana.
“Ainda bem que, como eu te disse, eu tinha guardado um dinheiro. Era para eu ter me formado no ano passado e não me formei por causa dessas adversidades”, relata.

Na primeira semana deste mês de setembro, mais de cinco anos depois de ingressar no curso de enfermagem, Junio Cardoso finalmente se formou. De capelo e beca, vestiu a calça verde de gari e colocou o tradicional jaleco laranja da Comurg sobre os ombros.
Tive superiores mesmo falaram que eu não ia ser nada na vida, que não adiantava. Então, eu fiz questão de ir lá pegar meu uniforme. Falei assim: ‘No dia em que eu colar grau, vou tirar uma foto, vou postar e mostrar que eu venci’. Eu consegui, apesar das barreiras, das paredes que eles mesmos colocaram para tentar me impedir. Isso não me impediu, porque a gente sempre tem fé que Deus é maior que tudo
Na foto tirada no dia da cerimônia, Dona Heracilia aparece admirando o filho com brilho nos olhos. Não à toa. O sonho de sua vida havia sido conquistado.
“Minha mãe se emocionou, chorou. No dia em que me formei, peguei o canudo e não trouxe para mim, deixei com ela. Falei: ‘Aí, ó, seu prêmio’. Ela pendurou na cabeceira da cama dela. Falei: ‘Pode dizer que a senhora tem um filho formado’. Agora, vou procurar trabalho na minha área e seguir em frente”.
Junio levou o filho de volta para morar com ele. Segue trabalhando na limpeza urbana enquanto estuda para um concurso. Desta vez, na área de enfermagem. Na entrevista para esta reportagem, o agora enfermeiro garantiu: “Quando eu passar, vou te ligar de novo pra contar que eu consegui”.

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