“Goiânia precisa de uma administração com planejamento, criatividade e pulso firme”

Candidato do PSD explica que grandes problemas da capital poderiam ter sido evitados se o Plano Diretor tivesse sido aplicado

Francisco Jr. criticou a falta de um instituto de Planejamento em Goiânia

Francisco Jr. criticou a falta de um instituto de Planejamento em Goiânia

Fotos: Fernando Leite/ Jornal Opção 

O deputado estadual Francisco Júnior (PSD) é, talvez, o candidato à prefeitura com o conhecimento mais amplo de Goiânia.

Ex-vereador, ex-presidente da Câmara e ex-secretário de Planejamento da capital, o pessedista participou ativamente da discussão do Plano Diretor de 2007 e assegurou que vários dos problemas atuais poderiam ter sido evitados caso as diretrizes tivessem sido seguidas.

Quase que independente — não é o candidato do governo de Goiás, que preferiu apoiar Vanderlan Cardoso (PSB), nem da atual gestão, que apoia Adriana Accorsi (PT) –, Francisco Jr. defende parcerias com o setor privado, mas sob o comando da gestão municipal — todas as políticas de desenvolvimento da cidade serão definidas por sua equipe, caso eleito.

Segundo o deputado do PSD, Goiânia tem crescido à revelia do poder público, que se ausenta das grandes discussões e, por isso, oferece serviços de má qualidade. Como todos os outros candidatos, ele defende uma renegociação no contrato do transporte coletivo e, se preciso, fará nova licitação.

“Planejamento” (ou a falta dele) foi o assunto mais citado na última da série de entrevistas que o Jornal Opção realizou na última semana com os candidatos ao Paço Municipal em 2016. Apenas Iris Rezende (PMDB) não atendeu ao pedido deste veículo.

Alexandre Parrode – O sr. durante a pré-campanha teve que responder, inclusive para mim durante várias vezes, que seria mesmo candidato a prefeito de Goiânia e que não abriria mão. Como o PSD chega na disputa de 2016 na capital?

Decidimos ter candidatura própria no ano passado e informamos isso à sociedade, mativemos nossa postura e fomos coerentes. Para se ter uma ideia, a candidatura do PSD passou por várias situações, como uma disputa interna, que resultou na saída do deputado estadual Virmondes Cruvinel (atualmente no PPS), depois ficou os comentários de que não iríamos, mas acho que fomos coerentes e chegamos unidos e fortes à disputa. Temos a oportunidade de mudar a resposta… Se antes era “O PSD vai ter mesmo candidato?”, hoje é “O PSD vai ter prefeito?”. Queremos que sim. Estamos trabalhando para ter uma campanha diferenciada, entendendo que a política mudou. Temos a ousadia não só de propor projetos que vão resolver os problemas de nossa cidade, mas a partir da campanha ter o propósito de inovar o jeito de fazer política, com um diálogo mais próximo à sociedade.

Alexandre Parrode – Eu sempre defendi que você é um dos candidatos mais preparados, conhece Goiânia como poucos, como pretende utilizar sua experiência para poder tocar a campanha? Como bem disse, é uma campanha diferente, o tempo de TV e rádio será menor, a própria propaganda eleitoral. Como pretende apresentar sua proposta?

Ao mesmo tempo que diminui o tempo de campanha, por outro lado, mudou a forma. Na TV, por exemplo, você tem uma menor tempo, mas tem uma presença diária. Isso é positivo, pois agora o programa é diário, antes era alternado, programa do prefeito em um dia, programa dos vereadores no outro. Agora não, será do prefeito todos os dias, com menos tempo, dez minutos a tarde, dez minutos a noite, e as pílulas. Mesmo assim, a internet mudou muito isso… Temos as redes sociais a disposição full time. As pessoas hoje terão oportunidade de conhecer os candidatos talvez mais do que tinha antes. Depende da iniciativa… Nós estamos contando com a mudança e a politização da sociedade.

Ouve-se demais que a população mudou, o eleitor mudou, que está mais exigente. Eu desejo isso para que ele possa fazer uma avaliação mais crítica. Isso acontecendo, a legislação está certa. Com isso, você prioriza propostas e a solução dos problemas e menos a baixaria. Nós não vamos participar disso.

Bruna Aidar – Nós vimos isso no último debate, o sr. não foi para o enfrentamento, não atacou e até mesmo rebateu algumas críticas. Mas, temos dois candidatos populistas, que são extremamente conhecidos e carismáticos, temos o candidato do governo, e a candidata do prefeito. E a sua candidatura que fica quase que independente… Como enfrentar os adversários?

Digo que, se você tem candidatos carimbados, eu também tenho um: o meu é da população. Minha preocupação é com a melhora de vida na qualidade de vida da população, quero apresentar soluções reais, deixarei eles brigarem entre si, defendendo quem os patrocina. Quero defender a população, porque sinceramente é preciso mudança.

Vou dar dois exemplo: primeiro, não tem uma campanha nos últimos 30 anos, ou desde que eu sou eleitor, que os candidatos não criticam profundamente o transporte público e a saúde. Só que é sempre mais do mesmo… Ninguém nunca entrou com uma proposta para mudar o modelo, fazer diferente, eu sou a favor de fazer o que estiver ao alcance do gestor para mudar a realidade. Posso errar, mas vou tentar. Temos que mudar o conceito do transporte e do atendimento da saúde. Então, penso que a população sofre tanto que não dá para perder tempo defendendo bandeira disso ou daquilo, ficar magoado ou acusar a imagem do outro homem público. Acredito que as pessoas querem isso.

Bruna Aidar – O sr. foi secretário de Planejamento e citou dois problemas que são recorrentes na cidade. O que pretende fazer para mudar a realidade do transporte coletivo?

Hoje temos uma situação estranha em Goiânia. Além do modelo falido, temos empresas que fazem a gestão entrando com recuperação judicial, a população extremamente mal atendida e o município também insatisfeito. Veja bem, o modelo que aí está não atende ninguém. Nem as empresas, que dominam o transporte, nem a administração municipal e, acima de tudo, não atende aos anseios da população. A cada pesquisa que se faz, o transporte público perde usuários, cada vez menos cidadãos utilizam o serviço.

Temos que entender o transporte como um conceito de modalidade e não como prestação de serviço isolada, ônibus separado das outras coisas. Preciso mudar o modelo de gestão. Hoje, temos a CMTC [Companhia Metropolitana de Transporte Coletivo], que faz a gestão do transporte coletivo, e temos a SMT [Secretaria Municipal de Trânsito, Transportes e Mobilidade], que gere o trânsito. Precisamos fundir essas duas coisas. Quem administra o transporte, precisa comandar e ter a visão do tráfego da região, para entender que o ônibus tem seu espaço, o carro tem o dele e o pedestre tem que ter o seu. Superado isso, temos que entender a necessidade de onde as pessoas querem ir. Hoje, se a pessoa mora em Senador Canedo, trabalha em Trindade e estuda em Goiânia, para ele ir para Trindade, ele precisa vir a Goiânia primeiro. Temos que atender a demanda conforme a necessidade.

Passou da hora de implantarmos os eixos e coloquemos uma quantidade muito maior de ônibus neles. As linhas chamadas de alimentadoras (que levam do bairro para o terminal) devem ser atendidas por veículos menores, como vans, em um sistema mais dinâmico e melhor. Esse tipo de transporte pode entrar em ruas mais estreitas , não precisa ficar só na avenida e, digo mais, não precisa sequer fazer o mesmo trajeto toda hora. Podemos, como em Portugal e Espanha, fazer esses carros “on demand”, ou seja, conforme as pessoas solicitam — tendo apenas ponto de origem e de chegada. Outra coisa, a linha alimentadora pode ser conectada à bicicleta.

Porém, tudo isso só tem sentido se eu baixar o preço da tarifa… O cidadão precisa ser convencido de que o transporte coletivo é seguro, pontual e mais interessante do que o transporte individual, como a moto. Transporte coletivo precisa competir. Se atendermos aos quesitos, conseguiremos aumentar o número de passageiros e, fazendo isso, terei uma receita maior. Se conseguirmos aumentar de 40% para 60% da população de Goiânia os usuários, conseguiremos melhorar, inclusive, o trânsito — pois retiraremos motos e carros das ruas.

Outra receita interessante, que é desperdiçada, é o estacionamento pago. Não precisa ser necessariamente só do Centro, a área azul. Pode ser expandida, desde que financie também a segurança. Hoje, a prefeitura te dá o direito de para na via pública, mas não dá garantia que seu carro não será roubado ou furtado. Se começarmos a trabalhar a ideia do estacionamento público com fiscais, com segurança, mudará. Não é cobrar vaga, é prestar serviço de qualidade.

O candidato do PSD durante entrevista aos repórteres Alexandre Parrode e Bruna Aidar

O candidato do PSD durante entrevista aos repórteres Alexandre Parrode e Bruna Aidar

Alexandre Parrode – Essa nova configuração que o sr. apresentou precisará de investimento inicial. As empresas não conseguem manter os ônibus que têm na rua, falam que a tarifa é insuficiente para a manutenção da frota. Como adquirir as vans e micro-ônibus que o sr. citou para o transporte interbairros?

Tudo que é novo gera curiosidade e pode sim ser feita uma nova licitação. Estamos estudando os contratos, existem ações que denunciam quem estes não estão sendo cumpridos e vamos chamar as empresas para uma reavaliação total. Não descartamos, inclusive, o rompimento. Temos planos para curto, médio e longo prazo.

No momento em que fazemos a junção das pastas (CMTC e SMT), há novas receitas para investimentos. Na verdade, esse é um problema, Goiânia não é pensada com uma gestão ampla… Dou um exemplo: o Conselho Municipal de Políticas Urbanas (Compur) que é subutilizado. Há receitas administradas por ele, o Fundo Municipal de Desenvolvimento Urbano (FMDU), por exemplo, que são mal aplicadas. Quando se constrói um equipamento privado, é permitido que a empresa que esteja construindo, que dá uma contrapartida para a cidade, desenvolva algum projeto. Não precisa ser uma contrapartida apenas financeira. Podem ser feitas, até 60%, em obras. Isso não é usado em Goiânia…

Por exemplo, as paradas de ônibus. É possível transformá-los, com qualidade e beleza, basta fazer parceria com a iniciativa privada. Existe a possibilidade de investir no mobiliário urbano com a iniciativa privada. São várias, na verdade: banco de praça, iluminação, banca de revista, padronização de fachadas. Um volume de oportunidades que podem significar receita nova para o município e melhoria para a cidade. O próprio subsolo de Goiânia, não é utilizado, poderia ser fonte de renda e de atividades. Existem várias oportunidades de receita que são deixados de lado, nada é feito, falta gestão. Precisamos ousar. E não é necessário viajar ao exterior, cito Curitiba, mas também Recife, que não é uma cidade moderna, mas tem conseguido se reinventar. Precisamos de ações ousadas, como a revitalização do Centro de Goiânia.

Bruna Aidar – Que é tão necessária…

Não existe, hoje, nenhuma ação efetiva para ativar o Centro, para limpar a cidade,

Alexandre Parrode – Mas, hoje, temos grupos econômicos que dominam Goiânia. Eles decidem quais são as políticas, o que será feito… O Plano Diretor foi assim. Mas, falando do Centro especificamente, Paulo Garcia (PT) tentou criar uma padronização das fachadas do Centro, limpar mesmo. Temos um acervo de Art Déco ali que em qualquer lugar do mundo seria considerado patrimônio, mas aqui fica escondido pelos comerciantes.

Tem que ter pulso. Kassab [Gilberto Kassab, do PSD] conseguiu fazer isso em São Paulo, na maior cidade da América Latina. Então é possível. Só que tem que querer… O poder público é responsável pelo diálogo, pela democracia e pela participação social. Porém, deve garantir que as decisões que beneficiam o coletivo se sobreponham aos ganhos individuais. Goiânia precisa ser limpa, em todos os sentidos. Quando se há regras claras, bem definidas, você consegue implantar, o problema é quando fica obscura como é agora. Com critérios claros, é possível.

Bruna Aidar – Como fazer isso? O Centro é considerado um lugar perigoso, sem acesso e sem equipamentos públicos de qualidade.

É uma pena mesmo porque é a região mais bem atendida pelo transporte coletivo. Costumo dizer que para resolver os problemas, é preciso fazer o caminho inverso. Se quero colocar gente no Centro, o que precisa acontecer? Criar um ambiente de segurança, um ambiente visualmente agradável, gerar atividades interessantes e respeitar o que já existe. Bem, se quero que lá seja seguro, tenho que investir nisso. Nosso programa, a Rede de Prevenção ao Crime, implantará câmeras de vigilância, disponibilizará agentes fardados nas ruas e gerará oportunidades de estacionamento. O que quero dizer com oportunidade de estacionamento: as pessoas acham que tem que estacionar na porta do destino e não é assim. Inclusive, isso mata o negócio. É uma distorção que o goianiense colocou na cabeça… Você mata a fachada e não funciona no mundo inteiro. O que queremos é ter locais onde a pessoa sabe que vai chegar e conseguirá parar seu veículo de forma segura. Sabe onde você estaciona melhor? Nos shoppings e, não por acaso, são os lugares onde se para mais longe do destino. Pessoas não se incomodam em estacionar longe da loja que ela vai, por exemplo. Ela para longe e caminha tranquilamente. Só que está se sentindo segura, está em um local visualmente agradável. Temos que gerar esse ambiente nos centros comerciais.

Hoje Goiânia cria uma situação que vai na contramão do que acontece nos grandes centros. Estamos tirando o poder público, que é um grande gerador de demanda, das regiões centrais e o afastando. Prefeitura foi para periferia e tudo foi, não tem retorno mais. O lógico seria assumir os prédios históricos, reformá-los internamente e mantê-los como patrimônio cultural da cidade. Como isso não aconteceu, temos outras oportunidades. Apartamentos no Centro estão se esvaziando, pois são pequenos e sem vagas de estacionamento. Qual o perfil que se utiliza desse tipo de moradia? Estudantes. Então tenho que levar as universidades para lá. Quando fui secretário, tive uma dificuldade muito grande para aprovar uma — que até nem conseguiu se viabilizar –, porque as pessoas achavam que não era o lugar. O Centro de Goiânia é o único que não tem redes de fast-food, mas tem alguns dos restaurantes mais tradicionais da cidade porque no passado era assim. Que tal se bolassemos um polo gastronômico ali? Por que não gerar? Mas tem que ser bem organizado, não pode ser aquela coisa de que um abre uma portinha, faz um puxadinho, o poder público precisa assumir a responsabilidade. Interpretar como funciona a sociedade… Se você vai à Paris, sentar em uma mesinha na calçada é chique. Em Goiânia, na capital do boteco, se colocar uma cadeira na calçada é contravenção.

Alexandre Parrode – Mas as calçadas de Goiânia são muito curtas, dependendo do lugar. Aliás, quase não se tem calçada em Goiânia.

Mas não se faz nada específico, se faz uma regra geral, independente se a calçada é larga ou estreita. Vamos fazer um projeto específico para o Centro? A chamada Rua do Lazer, que é só calçadão, está morta. Lá, por exemplo, não é um lugar bacana para se desenvolver atividades culturais, comerciais? É preciso o poder público entrar e determinar. O que é preciso para ocupar nosso centro? Boas ideias existem, só que falta a presença do poder público. A iniciativa privada está à disposição, quer ganhar lucro, óbvio, mas ninguém abre um negócio sem garantia. E nós podemos incentivar essas atividades.

A verdade é que temos que criar centros de desenvolvimento em todas as regiões de Goiânia. Há diversas partes da cidade, como o Vera Cruz e o Eldorado, que estão crescendo à revelia da administração municipal… Isso não pode acontecer. O poder público precisa entrar, comandar isso.

Alexandre Parrode – O Plano Diretor serve para isso, não é?

Sim. Um exemplo, deixamos criado o Instituto de Pesquisa e Planejamento da cidade, com autonomia. E na primeira reforma, tiraram. Defendíamos, no Plano Diretor de 2007, que, inclusive, o diretor do instituto funcionasse como o Banco Central: deveria ser homologado na Câmara, com mandato. Depois de eleito, nem o prefeito conseguiria tirá-lo, ou seja, teria autonomia. O princípio básico, que não é seguido em Goiânia, é de que, quem planeja não pode fiscalizar.

Alexandre Parrode – Esse foi um dos problemas que levou à CEI das Pastinhas…

Exatamente. A secretaria de Planejamento, a Amma, a Secretaria de Finanças, todas autorizam e fiscalizam… Isso é um negócio completamente surreal em termos de gestão pública. Aqui, quem autoriza, executa e fiscaliza… Aí você abre para uma série de confusões e inseguranças na administração.

francisco-montagemAlexandre Parrode – O sr. me disse uma vez que o Plano Diretor de Goiânia é bom, o problema é que 80% não foram implantados. Aliás, precisávamos estar discutindo um novo para aprovar em 2017 e nem está na pauta da Câmara.

Sim, deveria ser revisado no ano que vem, mas, deixa eu te dizer outra coisa, o plano prevê atualizações a cada dois anos, regulamentação em 180 dias e revisão depois de dez anos. Ele não foi regulamentado, não foi atualizado (houve algumas modificações, mas não atualizações, como previa a lei) e não tem nenhum órgão pensando a revisão. Detalhe: o sistema de planejamento das cidades, pela Constituição e pelo Estatuto das Cidades, funciona assim: faz um Plano Diretor que dura dez anos, que deve orientar o PPA [Plano Plurianual], que dura quatro anos, que direciona a LDO [Lei de Diretrizes Orçamentárias], que define a LOA [Lei Orçamentária Anual]. Então, o Orçamento do município necessariamente tinha que ser uma resposta objetiva e financeira ao Plano Diretor em dez anos. Na prática, não existe ligação nenhuma dessas coisas.

Bruna Aidar – O que faltou? O sr. já foi vereador, presidente da Câmara, agora deputado estadual. Faltou pulso dos prefeitos?

As duas primeiras coisas que faltaram foram: primeiro, compreender de fato o que é planejamento. Nós, brasileiros, temos dificuldade de aceitar isso. Somos imediatistas… Daí a importância do instituto de planejamento, para nos obrigar a fazer o que é certo. Depois, faltou a vontade política. Dou um exemplo, é previsto no Plano Diretor a revisão de várias legislações, que são pilares da gestão. O Código Tributário de Goiânia está completamente defasado, sequer contempla uma série de atividades modernas, vai sendo feito por analogia. Um Código Ambiental… Goiânia não tem um, dá para acreditar?

Digo mais, agora vocês vão assustar: nós não temos uma lei de parcelamento de solo.

Alexandre Parrode – Mas a lei que eles estão tentando implantar, hoje, que está na Câmara, é uma expansão urbana disfarçada. Goiânia está sendo expandida, e está crescendo de forma desordenada, à revelia do poder público.

Eu defendo uma política de expansão muito ousada. Hoje, você tem na cidade uma linha de expansão. O projeto original do Plano Diretor, que não conseguiu passar para a Câmara e foi mudado, previa o fim dessa linha de expansão urbana, o que acabava com a área rural e urbana, passando a ter um município de Goiânia, mas com critérios muito bem definidos para esta expansão. Muito mais importante que uma linha de expansão, que acaba se tornando uma oportunidade de negócios, é eu ter critérios claros e definidos de crescimento. Por exemplo, eu não posso crescer a cidade se eu não tiver um plano para atender a Educação e a Saúde das pessoas que forem morar lá. Então, a gente tem que ter uma visão de desenvolvimento da cidade, e não só uma visão de ocupação ou crescimento.

Nos EUA, eles possuem um sistema de planejamento em que você não compra o lote, mas eles criam um bairro novo. Então, nesses bairros já têm as casas, já tem o posto médico e todas as benfeitorias. Mas você compra a casa, você não compra o lote para construir a casa do jeito que você quiser depois. Você compra, na verdade, o jeito que você quer morar. Então, há um planejamento de como você vai viver e é isso que nos falta. “Ah, mas nós não damos conta, porque somos terceiro mundo e não temos recursos.” Será que não? Será que eu não vou conseguir contruir agora, mas necessariamente um dia vou constuir e um dia terei dinheiro? Então, por que eu já não tenho agora e defino o que é urgente, o que é prioridade, e como é que deve ser feito isso? Por que eu não gero essa oportunidade agora? Então, nos falta essa coragem de fazer essa definição, de buscar esses recursos. Por exemplo, como é que se pode fazer o Minha Casa Minha Vida, que gerou milhões para o setor residencial; será que desses milhões não tinha 10% para construir já junto os equipamentos públicos? A pessoa precisa da casa, mas será que a pessoa dessa casa não adoece, ou não tem um filho para colocar no Cmei? Eu não posso imaginar um projeto sem atender tudo o que for preciso. Vou dar um exemplo prático: quando eu era vereador várias pessoas me imploravam uma linha de ônibus. Como eu autorizo a criação de um bairro sem imaginar que o ônibus tem que chegar lá?

Alexandre Parrode – Hoje, Goiânia possui um monte de vazios urbanos, que servem apenas para especulação imobiliária e, acima de tudo, a gente viu nos últimos anos que o setor imobiliário passou a dominar o poder público. A gente vê o prefeito e os vereadores reféns desse setor. O sr. tem pulso e coragem para enfrentar esses grandes empresários que dominaram a Prefeitura de Goiânia?

Eu tenho uma visão desenvolvimentista. Eu acho que a iniciativa privada quer oportunidade. Quem tem que controlar a forma e o ritmo da oportunidade é o poder público, não necessariamente ele precisa confrontar a iniciativa privada o tempo inteiro. Ele pode ser parceiro dela, mas ele tem que direcionar, porque, se o poder público é ausente, eles vão fazer da forma que eles terão mais lucro – e não sou contra de forma nenhuma ao lucro. Vou dar um exemplo: o Plano Diretor de Goiânia atende ao Estatuto da Cidade, que traz uma série de ferramentas. Da mesma forma que o Plano Diretor tem seis eixos temáticos, e a gente só conversa sobre um, o estatuto também trata de muitas coisas e a gente acaba falando só das mesmas. O Estatuto da Cidade, por exemplo, traz ferramentas para a ocupação dos vazios urbanos, que a gente não usa. Então, nós temos usar o que temos em sua totalidade, não é só uma ou outra coisa. Por exemplo, foi colocada em Goiânia o imposto progressivo. O Plano Diretor está fazendo 10 anos e o imposto progressivo, pelo Estatuto da Cidade, ele tem um progressão de até 10 anos. Então, quer dizer que o próximo prefeito vai colher o resultado do imposto progressivo, se realmente ele foi implantado. Isso eu estou dando um exemplo. O que o imposto progressivo faz? Ele vai aumentando o tamanho do imposto até chegar um ponto que, se o proprietário não cumpre a função social da propriedade, então essa área pode ser desapropriada pelo benefício social. Então, a prefeitura vai ter que responder, porque a lei foi feita e regulamentada, e o gestor é responsável por fiscalizar.
Você tem o Projeto Diferenciado de Urbanização (PDU), eu tenho a cidade e eu tenho um vazio. O poder público pode autorizar um projeto completamente específico para essa área para gerar interesse e desenvolvimento naquele momento, chama-se PDU, está previsto no Plano e não está sendo usado. A Operação Urbana Consorciada (OUC), que é outra ferramenta poderosa para fazer a revitalização e ocupação de espaços vazios, também não está sendo usada em Goiânia. Outra coisa que não sei como está sendo feita: o direito de preempção, um detalhe dos estatutos das cidades que é fundamental. Goiânia tem as avenidas estreitas e o direito de preempção mancha uma área onde você não pode construir ao longo dela e, ao longo dos anos, o município vai adquirindo isso para alargar as avenidas. Não sei se está regulamentado, mas está previsto. Em dez anos, teríamos alargado várias avenidas.
Então, há um total descaso e desconhecimento com coisas que estão lá e só precisam ser usadas. Quando eu falo que o Plano Diretor não é implantado, não é usado, eu estou falando de tudo isso. Nós estamos estrangulando Goiânia com a faca e o queijo na mão.
E isso aqui é o gestor, o prefeito que tem que identificar os vazios urbanos, fazer os estudos, convidar os parceiros, desenvolver a cidade. O prefeito que tem que falar que vai ocupar a área; se for uma OUC, ele traz dinheiro de fora, vende título no mercado; tudo isso é possível, mas cadê prefeito? E tem dez anos.

Alexandre Parrode – E o sr. se eleito prefeito se compromete a não só discutir como realizar?

Nós vamos. Isso aqui é meu filho, vamos criar (risos).

Alexandre Parrode – Como foi a escolha do vice? O sr. é um cara moderado, moderno, com alto conhecimento da cidade e não vemos o mesmo do Coronel Pacheco, que aparenta ser um militar radical. Há até um vídeo que ganhou repercussão nacional no qual ele aparece convocando a população a pegar em armas contra o PT…

Primeiramente, digo que o PTB teve a total liberdade de escolha da indicação do vice. Porém, Coronel Pacheco é uma pessoa que tem um nível de conhecimento e vivência da segurança na capital, foi comandante do policiamento.  Hoje, Goiânia está doente e a insegurança é uma febre. Não é um problema, é um sintoma gerado pelos problemas reais, a falta de educação, de investimento nos jovens. Como o poder público municipal não cumpre seu papel, há o aumento na violência urbana, então temos que ter programa de curto, médio e longo prazo. Meu vice é experiente nesta área.

A questão de o acusarem de ser violento está fora de contexto. Aquilo ali foi o seguinte, foi uma resposta ao líder do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), João Pedro Stédile, que convocou os sem-terra a invadir e fechar estradas contra o impeachment de Dilma. Quando ele fez isso, Pacheco gravou um vídeo, como coronel da reserva, dizendo que, para defender a sociedade, pegaria em armas. Não foi uma ação de violência. Agora, é militar, tem pulso firme, isso daí eu não posso negar.

Alexandre Parrode – Mas isso não vai te atrapalhar? 

De forma alguma, pelo contrário. Ele não é estourado, eu garanto, converse com ele.

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