Galhos de gameleiras em contato com a rede elétrica provocaram faíscas e chamas na manhã desta quinta-feira, 22, na Praça Mestre Maria Henriqueta Péclat, conhecida como Praça da Cirrose, no Setor Oeste, em Goiânia. Após o episódio, a Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg) iniciou uma operação de manejo das árvores, começando pela poda dos galhos próximos à fiação, em conjunto com a Equatorial Goiás.

A intervenção ocorre em meio à discussão sobre o futuro das quatro gameleiras da praça, que têm aproximadamente 68 anos e fazem parte da paisagem do Setor Oeste há décadas. A possibilidade de retirada de parte das árvores gerou questionamentos de moradores, comerciantes e ambientalistas, além de mobilizar o Ministério Público de Goiás (MPGO).

Segundo a Comurg, não haverá supressão de árvores nesta etapa. A Secretaria Municipal de Engenharia de Trânsito (SET) auxilia a operação com o controle do tráfego e a retirada de veículos estacionados na área. O local já estava interditado, e a companhia orienta pedestres, moradores e motoristas a respeitarem o isolamento.

Árvores fazem parte da história do Setor Oeste

As quatro gameleiras cresceram junto com a expansão de Goiânia e se tornaram parte da paisagem da Praça da Cirrose. Segundo relatos de moradores antigos, elas teriam sido plantadas na década de 1950, quando a região ainda passava por transformações urbanas. As árvores oferecem sombra a pedestres, comerciantes e frequentadores da praça.

A presença de exemplares de grande porte, porém, também passou a gerar conflitos com a infraestrutura urbana. As copas avançam sobre imóveis, áreas de circulação e rede elétrica, enquanto as raízes disputam espaço com calçadas, asfalto e estruturas de concreto.

A gameleira é uma espécie de crescimento rápido e sistema radicular amplo, características que podem provocar danos quando o plantio ocorre próximo a construções ou em espaços limitados. Isso não significa que todas as árvores da espécie apresentem risco: a avaliação depende das condições de cada exemplar e do ambiente em que está localizado.

Laudos apresentaram conclusões diferentes

A discussão sobre as árvores se intensificou após avaliações técnicas da Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma) apresentarem recomendações diferentes sobre a necessidade de retirada.

Um laudo de novembro de 2024 apontou problemas como necrose e risco de queda e recomendou a retirada de duas gameleiras, com poda nas demais. Em abril de 2026, uma nova vistoria considerou as árvores estruturalmente equilibradas e indicou serviços de poda e manutenção, sem recomendar o corte naquele momento.

Em agosto deste ano, uma terceira avaliação, realizada por sete técnicos da Amma, voltou a recomendar a retirada de dois exemplares e a poda das outras duas árvores. Entre os problemas apontados estavam comprometimentos estruturais e riscos associados à queda de galhos.

A queda de um galho de grande porte nas proximidades, em setembro, também aumentou a preocupação com a segurança de quem circula pela região.

Ministério Público questionou retirada

Diante das divergências entre os laudos, o Ministério Público de Goiás ajuizou, em 28 de agosto, uma ação cautelar para tentar suspender temporariamente a retirada de duas gameleiras e a poda geral das outras duas. O órgão também solicitou avaliações individualizadas dos quatro exemplares e a apresentação integral do processo administrativo que autorizou as intervenções.

O MPGO defendeu que a situação fosse examinada com cautela, considerando a idade das árvores e a necessidade de esclarecer as diferenças entre os diagnósticos técnicos. O caso passou a envolver também o debate sobre alternativas de manejo e medidas para reduzir riscos sem eliminar desnecessariamente a arborização.

Posteriormente, uma perícia da Polícia Científica reconheceu respaldo técnico para as intervenções autorizadas pela Amma, apontando problemas estruturais em exemplares específicos, incluindo comprometimento interno do tronco e sinais de deterioração. O documento também registrou conflitos entre as raízes e a infraestrutura urbana.

A discussão envolve, portanto, duas questões: a segurança de quem frequenta a praça e a preservação de árvores antigas que integram a paisagem da capital.