Folha publica “autocrítica” que reconhece grave erro ao divulgar dados de pesquisa

Ombudsman diz que omissão de dado sobre desejo do brasileiro por novas eleições é incoerente, pouco transparente e de “quase desprezo”

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Dados “omitidos” da pesquisa Datafolha

A edição deste domingo (24/7) da Folha de S. Paulo traz uma análise da ombudsman do jornal, Paula Cesarino Costa, sobre a polêmica na divulgação de dados da última pesquisa Datafolha, que “mostrou” que os brasileiros “preferem” Michel Temer (PMDB) na Presidência da República.

Apesar de não ser um reconhecimento da direção em si, a “autocrítica” da ombudsman — representante independente dos leitores no veículo de comunicação — mostra que houve, sim, um erro ao analisar os dados do levantamento. E, para ela, “persistência no erro”.

“A reação pouco transparente, lenta e de quase desprezo às falhas e omissões apontadas maculou a imagem da Folha e de seu instituto de pesquisas”, conclui.

Durante toda a semana, o jornal foi acusado (até por sites internacionais) de manipulação e até de fraude jornalística na análise da última pesquisa Datafolha para tentar alavancar a gestão de Temer.

Segundo o questionário do próprio instituto, a maioria dos entrevistados, 62%, disseram que são favoráveis a novas eleições presidenciais — o que aconteceria caso houvesse renúncia dupla de Dilma Rousseff e Michel Temer.

Contudo, a edição de Folha optou por destacar que 50% preferiam a permanência do interino em detrimento a uma possível volta da afastada. Nesta pergunta, apenas 3% defenderam novas eleições.

As críticas surgiram do porquê de Folha não ter divulgado, inicialmente, o dado de que a maioria esmagadora dos entrevistados não querem nem Dilma, nem Temer, mas sim a possibilidade de escolher uma nova chapa.

Não obstante, também foi excluída — tanto da matéria do jornal quanto do site do Datafolha que detalhava a pesquisa — uma pergunta que mostrava que 49% acreditavam que o processo de impeachment está seguindo a Constituição e 37%, não. Tal dado mostra que as suspeições sobre o impedimento de Dilma têm afetado a população, que já não tem maioria confiante nos tramites legais.

À ombudsman, o editor-executivo de Folha, Sérgio Dávila, explicou que faz parte da prática do jornal publicar apenas “fração das pesquisas” e, além disso, a dupla renúncia “não pareceu especialmente noticioso”, por repetir uma tendência e de o jornal considerar “tratar-se de um cenário político pouco provável”.

“O único cenário concreto à frente é o Senado decidir se Dilma Rousseff volta a exercer o cargo de presidente da República ou se Michel Temer continua a exercê-lo. Não há terceira opção […] Faz parte da boa prática jornalística não publicar o que é pouco relevante”, completou Dávila.

Porém, Paula Cesarino Costa destaca que não faz sentido colocar uma pergunta em um questionário de pesquisa para depois ignorá-la. Sendo assim, mesmo que tivesse “espaço” para publicar apenas parte do questionário — faço, aqui, uma ressalva, afinal estamos no meio online e, ao contrário do papel, não há limites na internet –, deveria ter divulgado o resultado na íntegra.

“A meu ver, o jornal cometeu grave erro de avaliação. Não se preocupou em explorar os diversos pontos de vista que o material permitia, de modo a manter a postura jornalística equidistante das paixões políticas. Tendo a chance de reparar o erro, encastelou-se na lógica de praxe da suposta falta de apelo noticioso”, arrematou a ombudsman.

De fato, não só Folha de S. Paulo, mas a grande mídia tem insistido em um sentimento de “página virada” e “superação das dificuldades” de maneira quase partidária. Não é possível, ainda, aferir as mudanças propostas pelo governo interino e, evidentemente, a sociedade não sente melhora na sua vida.

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