Pedro Lima de Andrade

O cineasta de Catalão, Daniel Nolasco, é hoje um dos nomes mais consolidados do cinema goiano. Com filmes exibidos em diversos festivais nacionais e internacionais, como o Festival de Berlim, Nolasco tem um estilo marcado pelo estudo do cinema gay, focado no fetiche e em seus simbolismos na tela. Seu novo filme, Pequenas Tragédias, que teve sua estreia mundial ontem no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, subverte até mesmo os trejeitos do cineasta em sua filmografia. Se em Apenas Coisas Boas, lançado recentemente nos cinemas, ele constrói um faroeste queer goiano, em seu último, ele constrói uma representação de sua biografia e uma cartografia de Catalão, em sua construção histórica, mas nas violências contra pessoas LGBTQIA+ moradoras da cidade. 

O narrador do filme é o próprio Daniel, mas em duas versões: em voz e em interpretação, por Guilherme Théo. Logo na introdução, Guilherme se dirige ao público e anuncia a estrutura do filme: prólogo, 5 capítulos, entreato e epílogo. De começo, quando o filme se desenrola, a voz do diretor aparece, marcada pela timidez das palavras, como se observa também no discurso de introdução antes do filme. Essa mesma inibição de Nolasco torna-se um fator cômico, algo importante a notar ao falar do filme, já que foi apresentada pelo realizador como uma comédia. Dessa forma, esse humor mora nas contradições de uma cidade vista pelo diretor como hipócrita desde o início de suas memórias, um lugar de paradoxos, desde a apresentação de sua família: seu irmão hétero, que se recusou a participar do filme, e até a mãe, que casou cinco vezes e só conta duas. No centro das memórias de Nolasco há um balanço muito claro da comédia que vem do patético, do moralismo barato dos moradores da cidade. 

Filme Pequenas Tragédias | Foto: Divulgação

No capítulo 1, Minha Pacata Vida em Catalão, o realizador narra sua trajetória como trabalhador em um supermercado da cidade, que não permite a gravação no local. Cecília Brito, a produtora do filme e interprete de Verônica, representação da funcionária do mercado, sugere os motivos: uma série de direitos trabalhistas não pagos e não querer associar-se a “filme de viado”. Neste hibridismo do documental, das narrações e filmagens da cidade, há um elemento de imaginação pra substituir o que não pode ser gravado; o primeiro local de trabalho vira o Super Censura, gravado num lote baldio com uniforme vermelho com logo e caixas que simulam as atividades. Já neste momento, Daniel expõe como já sofria homofobia dos colegas de trabalho e como Verônica mostrou compaixão e preocupação com a segurança dele, que ele não viu mais em sua vida, nem da família, nem da comunidade. 

Dessa forma, o diretor circula entre as microestórias de Catalão, que se juntam no final para expor pessoas da comunidade LGBTQIA+. Nos capítulos 2 e 3 de Viver Aqui é Bom Demais e de Um Bom Cidadão, Catalão mostra a modernização da cidade. Um marco disso é a Praça do Relógio, que simboliza essa marcação temporal para frente, mas fora do local onde o primeiro bar gay da cidade fechou, devido a uma violenta agressão de dois indivíduos em bancos da praça esperando por homens bêbados saírem do bar e agredi-los. Ao mesmo tempo em que o outro capítulo aprofunda a contradição do homem moralista que agredia homossexuais, mas seguia um roteiro de vida hétero do interior – trabalho, boate, exercício físico e paquera no bar sertanejo local. Nolasco evidencia como as pessoas agressoras continuam na cidade, fazem parte da rotina social e não são punidas de forma alguma. Entretanto, os agredidos, como o homem do bar que tomou garrafadas, mudaram de estado. 

É fascinante como o diretor cria, em sua forma híbrida, a mistura da narração com piadas sobre o ator que mentiu dizendo que andava de moto, mas não sabia, e exigiu uma mudança na gravação, com um humor que surge de tanta dor. Essas violências que percorrem a cidade da modernidade, justamente o ponto do capítulo 4, O Sorriso de Monalisa. É sobre uma travesti que morava entre a BR e os trilhos da ferrovia, evidenciando esta cidade pulgante, mas que morreu repentinamente de câncer, e cuja família a enterrou com vestes masculinas, desrespeitando seu último desejo. Dessa forma, Nolasco realiza um enterro simbólico, no qual a intérprete de Monalisa veste roupas azuis, pois era devota de Iemanjá, e canta a plenos pulmões. Mas o último capítulo, A Beleza de Samuel, simboliza uma morte repentina, causada por uma overdose de um amigo de escola de Daniel, cujo diagnóstico ele nunca revelou, justamente por medo do preconceito da cidade. É neste momento que Nolasco se entrega à melancolia, à tristeza, que ele já havia alertado nos primeiros segundos: “Esse não é um filme feliz. 

Entretanto, o diretor usa do cinema, uma forma em que nada é real, tudo representação, como uma forma de dizer o que não disse a Samuel. Apesar de haver um alongamento do segmento, ele se justifica pela sensibilidade do diretor, que, no epílogo, costura um olhar sobre a sua cidade natal, de onde também precisou fugir quando foi estudar no Rio de Janeiro. Mas ele retorna para constatar que os agressores e perpetradores da violência continuam vivos e impunes, o que reflete o que a cidade é para o diretor. Dessa forma, Pequenas Tragédias solidifica Daniel Nolasco como um dos melhores de sua geração, uma referência do cinema goiano, mas também um cineasta capaz de subverter seus próprios códigos para contar as histórias de vidas gays de uma nova forma. É justamente no hibridismo do documental com o inventado que ele faz as pazes com questões que o assombram, mas também documenta a contradição moralista de sua cidade natal, que se autoproclama moderna, porém, lentamente expulsa seus diferentes. 

Logo, o novo filme do diretor é talvez o seu melhor até agora, constatação difícil de fazer, considerando a sua filmografia. Mas é no seu filme mais pessoal que ele faz uma bela homenagem aos que já foram e uma forma de se despedir deles pelo cinema.

Pedro Lima de Andrade, crítico de cinema e escritor, membro da UBE-GO e da International Cinephile Society.

Pedro Lima de Andrade | Foto: Divulgação

Leia também: Colaboradora do Jornal Opção conquista 3º lugar no Prêmio Sebrae de Jornalismo