A Polícia Militar do Estado de Goiás (PMGO) foi surpreendida na quarta-feira, 1º, pelo discurso do desembargador Adriano Roberto Linhares Camargo, durante sessão de julgamento da Seção Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO). Na ocasião, o desembargador expôs sua opinião pessoal e disse que “a Polícia Militar deveria ser extinta”. Chegou a sugerir que a PM age de forma escusa em suas abordagens e faltariam aos policiais preparo para lidar com a segurança pública.

A fala de Adriano Roberto Linhares Camargo causou “repulsa” na corporação, de acordo com um coronel da PM ouvido pelo Jornal Opção. O oficial, que pediu para não ser identificado, disse que o desembargador vive em um mundo que não é o real e o convidou para participar de ao menos uma operação das forças de segurança no combate ao crime em Goiás. “A polícia goiana é uma das mais bem preparadas do Brasil, e não chega atirando. Por vezes, é recebida a tiros pelos marginais”, informa o militar.

Quanto a afirmação do desembargador de que policiais não são atingidos nos confrontos, o coronel rebateu dizendo que se trata de uma inverdade de quem não conhece a periculosidade das operações. “Somente nas últimas três semanas houve uma evolução do número de policiais feridos que chegaram no Hospital da Polícia Militar do Estado de Goiás (HPM), alguns com ferimentos graves”, pontuou.

O coronel sustenta que a PM está presente em todas as regiões do Estado para garantir a segurança do cidadão de bem. Todos os militares, segundo ele, estão prontos para dar a vida pela segurança da população. “Nossos homens estão à disposição das pessoas honestas e trabalhadoras, para as protegê-las, se preciso for, com a própria vida. Aí vem esse senhor falar uma coisa dessa. Ele quer que tenha baixa de nossos homens?”, questiona.

Luta contra o crime

De acordo com o oficial, o crime organizado (PCC, Comando Vermelho, entre outros) tem se preparado de todas as formas para os possíveis confrontos com a PM, inclusive fazendo treinamentos fora do Estado e adquirindo cada vez mais armamentos pesados (recentemente, chegou a tentar comprar metralhadoras roubadas do Exército). Às vezes, até mais potentes do que os que são utilizados pelos policiais. “Nossa polícia tem atuado de forma dura, mas não com o cidadão de bem, e sim com os criminosos. Não permitiremos que nosso Estado se transforme em abrigo de marginais. Para isso, a PM trabalha dia e noite, nas 24h do dia, incansavelmente“, explica.

Para o coronel, a opinião do magistrado soa “muito estranha” dentro da corporação e ele chega a questionar qual seria a verdadeira intenção do discurso do desembargador. “A mando de quem ele dá uma declaração dessa? A quem essas declarações beneficiam? Ele está parecendo mais um ativista, cheio de preconceito e de uma má-fé enorme. Talvez seja o caso de se verificar se este senhor beneficiou ou não algumas pessoas nas suas decisões”, sublinha o militar.

Governador apoia a PM de Goiás

O oficial parabeniza o governador Ronaldo Caiado (União Brasil) por seu repúdio à fala do desembargador. “Nesses trinta anos de Polícia, sempre vi, até mesmo antes de ele se tornar governador, o tamanho da paixão que Caiado demonstra pela corporação. Agora, como governador, ele tem dado condições para que a PM exerça suas atividades da melhor forma possível. Caiado é, sem dúvida, ao menos para mim, o governador que mais tem apreço pela Polícia Militar e pela segurança pública. O governador faz questão de ir visitar a todos os homens que são feridos em combates e prestar todas as honrarias aos que partem e oferece toda a assistência necessária às suas famílias.”

O coronel ressalta que os membros do Judiciário de Goiás são dos que mais utilizam os trabalhos da PM para a proteção própria e de seus familiares. Ele pondera, no entanto, que o sentimento de indignação da corporação não é contra o Tribunal de Justiça — que considera um dos melhores do país —, e sim contra o desembargador em questão, que, segundo ele, mostra ser preconceituoso em relação à PM. “Todo julgamento que proferir daqui em diante contra policiais, dependendo da avaliação, podem ser anulados, porque ele acaba de demonstrar de que lado está.”

Caiado repudia o discurso do desembargador

O governador Ronaldo Caiado tem, ao longo de seu governo, explicitado o orgulho que tem da Polícia Militar que, sempre destaca, está sob seu comando. Em viagem para China, o chefe do Executivo goiano gravou um vídeo no qual critica a fala do desembargador e apoia os policiais militares, do soldado ao coronel.

No conteúdo que tem circulado na imprensa e nas redes sociais, Caiado se recusa a chamar o magistrado de “senhor”, o tratando pelo pronome “você”. Para o governador, Adriano Roberto Linhares Camargo cometeu um verdadeiro “crime” contra a Polícia Militar do Estado de Goiás.

“Tenho um enorme orgulho de ser o comandante-chefe da PM de Goiás. Você no mínimo deveria conhecer a Constituição brasileira, que, no artigo 144, inciso 5º, prevê a criação da Polícia Militar para garantir o Estado Democrático de Direito”, rebateu.

Segundo Caiado, ao pedir a extinção da PM, o desembargador teria atentado contra o Estado Democrático de Direito. “Ou você está coabitado por outras forças do crime organizado”, sugeriu o governador, indignado.

Caiado pediu respeito à PM e disse que sempre respeitou o Tribunal de Justiça, o qual, de acordo com ele, não tem conivência com a fala do desembargador. O governador salientou que o Conselho de Ética do Tribunal de Justiça deve avaliar a fala de Adriano Roberto Linhares Camargo e pediu o seu impeachment.

Por fim, Ronaldo Caiado pediu ao desembargador que respeite a Polícia Militar. “Já mandei o procurador-geral do Estado de Goiás construir um documento consistente para encaminhar ao corregedor, para que as penas sejam muito bem aplicadas em um cidadão que não tem a qualificação mínima para ser desembargador do Estado de Goiás.”

O espaço permanece reservado tanto para a manifestação do Tribunal de Justiça de Goiás quanto do desembargador Adriano Linhares.

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