Especialista diz que liberação de inibidores de apetite é “retrocesso arriscado”

Endocrinologista explica que remédios são ferramentas para tratamento de obesidade, mas nunca “tábuas de salvação” 

Remédio à base de sibutramina | Foto: reprodução

O presidente em exercício Rodrigo Maia (DEM-RJ) sancionou, sem vetos, o projeto de lei que autoriza a produção, comercialização e o consumo, sob prescrição médica, dos medicamentos que contenham substâncias com potencial para emagrecer, os conhecidos inibidores de apetite. De acordo com o projeto aprovado, poderão ser comercializadas sibutramina, anfepramona, femproporex e mazindol. Até então, a manipulação e venda de fórmulas com estas substâncias eram vedadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Polêmica, a proposta é criticada por devolver ao mercado remédios que não são utilizados nem nos Estados Unidos, nem na Europa, há quase 30 anos. Em entrevista ao Jornal Opção, a endocrinologista Leandra Negretto lamentou a decisão do governo federal, a qual classificou como um “retrocesso” no combate à obesidade.

“É uma liberação muito arriscada, pois o uso indiscriminado, o acesso facilitado a medicações com alto potencial de risco à vida, só trazem malefícios”, opinou.

De acordo com ela, apesar de entender a justificativa do governo de que se trata de uma ação para combater os altos índices de sobrepeso aferidos nos últimos anos no país, o caminho é equivocado. “Existem estratégias muito mais eficazes, como a educação continuada, a conscientização por meio de campanhas e incentivo à prática de exercícios, bem como da alimentação saudável. A medicação é ferramenta, mas nunca tábua de salvação”, alertou.

Populares em especial até o começo dos anos 2010, os inibidores de apetite — como os derivados da anfetamina (fenproporex e anfepramona) — foram amplamente utilizados, inclusive, por pessoas sem qualquer indicação médica. Casos de mulheres e adolescentes hospitalizadas e até vitimadas pelo uso indiscriminado das substâncias tomaram as páginas de jornais. Em 2011, uma resolução da Anvisa proibiu a comercialização de tais anorexígenos.

Atualmente, a endocrinologista explica que existem substâncias mais eficazes, com menores riscos e efeitos colaterais para os pacientes. “Sem o uso da medicação realmente fica complicado tratar a obesidade grave. Por isso, via de regra, os remédios são ferramentas bem-vindas, mas têm poder limitado. Não existe milagre”, completou.

Ela cita a Liraglutida (Saxenda e Victoza), que promove perda de cerca de 10% do peso do paciente, o que é um volume limitado, mas muito superior aos níveis observados no uso da sibutramina, do orlistat e da anfepramona. “É o que eu disse, o resultado dos medicamentos é fraco, não adianta pensar que é mágica. É preciso que haja um acompanhamento médico, somado à dieta, exercícios, quer dizer, uma mudança de estilo de vida. Não é isso que o governo está propondo”, lamentou.

No entanto, o tratamento mensal com o Saxenda, por exemplo, chega a R$ 600, explica a médica. Já as outras substâncias, então proibidas, são consideravelmente mais baratas — o que incentivará, ainda mais, o consumo indiscriminado: “Estão liberando medicações com efeitos mais limitados, porém com preços mais acessíveis e muito mais riscos. É uma decisão incoerente.”

A tese dos críticos do projeto sancionado pelo presidente é que, em vez de adotar medidas para subsidiar as medicações mais seguras, garantindo o acesso da população com menor poder aquisitivo, prefere reduzir os protocolos médicos e facilitar o acesso a substâncias, no mínimo, duvidosas.

De qualquer forma, Leandra Negretto acredita que, com a reação da comunidade científica, é possível que haja uma recuada por parte da União, pelo menos no sentido de garantir um maior controle por meio de receituário especial, como acontece hoje.

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