O livro Rabiscos, lançado pelo goiano Matheus Godoy, de 25 anos, nasceu de um processo de autoconhecimento construído ao longo de anos de terapia e acompanhamento em saúde mental. Em entrevista ao Jornal Opção, o autor contou que a obra, escrita em menos de 30 dias, reúne reflexões amadurecidas ao longo da vida e transformadas em literatura.

Segundo Godoy, a rapidez com que o livro foi concluído não significa que ele tenha sido produzido em poucas semanas. Para o escritor, a obra começou a ser construída muito antes de chegar ao papel, a partir das experiências e dos processos pessoais que viveu.

“Esse livro nasceu de uma série de questões que foram acontecendo ao longo da minha vida. Passei por diversas terapias, diversos psiquiatras e muitas relações que me ajudaram a pensar sobre mim. Acho que Rabiscos nasceu depois que consegui pegar aquela criança que sofreu e dar uma sala para ela, um lugar onde ela pudesse ficar”, afirmou.

Sobre a intensidade da escrita, acrescentou: “Eu escrevia o livro 24 horas por dia. Eu não parava de escrever.”

Embora tenha partido de vivências pessoais, Godoy explica que a versão publicada deixou de ser um relato autobiográfico para assumir um caráter mais universal. O manuscrito original citava familiares e episódios específicos de sua história, mas acabou sendo reescrito quando o autor percebeu que aquelas experiências extrapolavam sua trajetória individual.

“Na primeira versão do livro, eu falava de pessoas reais, do meu pai, da minha mãe, da minha avó. Depois entendi que essas experiências não eram individuais, eram experiências coletivas. A partir daí reescrevi tudo, trabalhando metáforas, questões artísticas e estéticas. Foi assim que o livro se tornou um museu”, explicou.

Formado em Gestão Pública e atualmente estudante de Psicanálise, Godoy afirma que sua formação também influenciou a construção da obra. Antes de migrar de área, cursou Psicologia durante sete períodos e, posteriormente, decidiu aprofundar os estudos sobre saúde mental por meio da psicanálise.

“Eu sentia que tinha algo que precisava retomar. Amo a psicanálise e quis me colocar nesse lugar para fazer um primeiro livro que pudesse me fazer entender primeiro a mim e, depois, compreender como os outros poderiam se identificar com isso, iniciando uma construção dentro da própria psicanálise”, disse.

Para o autor, Rabiscos é um convite para que cada leitor revisite a própria história e estabeleça uma relação mais acolhedora consigo mesmo. A expectativa, segundo ele, é que a leitura desperte um olhar mais cuidadoso para as marcas da infância e para a forma como elas repercutem na vida adulta.

“Espero que cada pessoa consiga fazer a criança que existe dentro dela também encontrar uma sala e que o adulto consiga sentar ao lado dela, sem obrigá-la a responder ou existir de determinada forma. Muitas das nossas crianças foram machucadas. Quando o adulto olha para elas de maneira mais contemplativa, isso melhora muito a relação não só com a gente, mas também com os outros”, concluiu.

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